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OPINIÃO

Os bastidores da Finlândia e os atalhos do Brasil

26 janeiro 2016 - 13h30Ronaldo Mota
O FLOR DA MATA - NOTICIAS

Durante a semana passada, em Londres, tive a oportunidade de participar, como convidado da CISCO, da Exposição BETT (em inglês, "British Educational Training and Technology Show"). Ela é considerada, desde 1985, uma das mais importantes feiras na área de tecnologias na educação, atraindo algo em torno de 40 mil visitantes de mais de uma centena de países.

O Programa da delegação brasileira deste ano incluiu uma visita com palestras e debates no Institute  of  Education (IoE), classificado recentemente pelo "Times Higher Education Ranking" como a melhor instituição do mundo na área de educação. O professor David Scott, do IoE, uma das maiores autoridades em teorias de aprendizagem e meu co-autor no livro "Educando para Inovação e Aprendizagem Independente", argumentou à delegação brasileira que seria pouco recomendável ao Brasil definir suas estratégias educacionais na educação básica tendo como referência principal melhorar seus indicadores no PISA. A explicação dele para não exagerarmos na ênfase ao PISA tem a ver com o caso Finlândia e seus bastidores.

A Finlândia é sempre uma referência importante em educação. Pelo passado e mais recentemente pelo que está fazendo hoje ao se preparar para o futuro.  A Finlândia entrou no século 21 liderando os resultados do PISA (Programa Internacional para a Avaliação de Estudantes da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico). Curiosamente, desde então, tudo se passa como se a Finlândia, quase que propositalmente, caísse de forma sistemática no ranking. A grande percepção dos gestores da educação finlandesa foi suspeitar que o sucesso no PISA poderia, eventualmente, inibir mudanças no processo de aprendizagem, as quais eles sabiam ser urgentes e necessárias. Ou seja,  a régua do PISA, provavelmente, mede melhor qualidades e expectativas  do passado do que os predicados e exigências do futuro.

Em compasso com a radicalidade das transformações que se seguiram na Finlândia, progressivamente, ela foi ultrapassada por outros países, como Cingapura, Hong Kong, Taiwan, Coréia do Sul e Japão.  Com o tempo,  as escolas finlandesas foram adotando, ou se preparando para adotar, metodologias  ativas que estimulam a aprendizagem independente. Para tanto, parte significativa das aulas tradicionais são substituídas pelo desenvolvimento de projetos temáticos nos quais os alunos refletem principalmente acerca do processo de aprendizagem em si.

Os formuladores de políticas educacionais e os docentes da Finlândia parecem saber melhor do que os demais países que a forma tradicional de educação, basicamente estruturada em aulas expositivas sobre disciplinas estanques, ainda que com um passado vitorioso, não mais prepara adequadamente as crianças e os jovens para o futuro. Ainda que as crianças possam ir bem no PISA, dado que o passado é compatível com as réguas adotadas, os desafios do futuro não parecem estar plenamente contemplados. A necessidade do desenvolvimento da capacidade de pensamento transdisciplinar, ou seja, olhar os mesmos problemas a partir de perspectivas e ferramentas diferentes, ao mesmo tempo que o educando aumenta a percepção acerca dos mecanismos segundo os quais ele aprende (metacognição, ou aprender a aprender), compõem as estruturas centrais da nova metodologia.

São mudanças complexas e que afetam a todos, em particular os professores, os quais passam a ter, relativamente, menos controle sobre os cursos, demandando que necessariamente eles trabalhem de forma colaborativa entre si e, especialmente, com seus alunos. Gradativamente, os mestres deixam de ter como atribuição principal as aulas expositivas (embora elas permaneçam em algum nível existindo) e, cada vez mais, se assemelham à figura de preceptores.  Seja enquanto aqueles que acolhem e ajudam o educando a entender a si mesmo e refletir sobre sua própria aprendizagem, ou então aqueles que promovem a mentoria, especialmente conectando todas as disciplinas e conhecimentos fragmentados. Assim, cabe aos docentes atuar junto a seus alunos para extrair da multidisciplinaridade e das posturas metacognitivas os ingredientes principais para que eles possam aprender a resolver problemas e desenvolver projetos.

Em suma, olhemos para a frente, respeitemos as enormes diferenças de realidades, dado que, certamente, temos no Brasil muitas trilhas preliminares por cumprir ao mesmo tempo que temos que enfrentar complexidades similares às finlandesas. Porém, sem sabermos o que queremos para o futuro, a chance  de errar por adotarmos remédios inadequados é muito alta. Felizmente, o Brasil tem sim atalhos possíveis e bons ingredientes. Precisamos saber, antes de mais nada, onde queremos chegar, conhecer bem outras experiências e definir, coletivamente, o quanto estamos dispostos a ousar.

 

(*Ronaldo Mota é Reitor da Universidade Estácio de Sá e Diretor Executivo de Educação a Distância da Estácio)

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