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ESPECIAL DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Lá vai Dona Otília

A história de uma mulher, mãe e avó trabalhadora que não mede esforços pela felicidade de sua família

8 março 2016 - 13h31Suelen Morales

Cocoricó...
   Já canta o galo anunciando que o dia raiô. São cinco horas da manhã e Dona Otília já esta de pé, o dia começa cedo, pois são muitas as tarefas que a esperam, e ela não gosta de se atrasar, sabe que outras pessoas dependem dela.
   A água para o café já esta no fogo, enquanto isso termina de se arrumar, volta e prepara o café da manhã na mesa, para então acordar e arrumar seu pequenino Pedro Henrique para levá-lo a creche. Pelo caminho,    Dona Otília passa em duas residências próximas a sua casa para levar a escola outras duas crianças, e então continua o caminho.
- Todo o dia é a mesma coisa, faça chuva ou sol, eu sei que os pais dessas crianças têm de trabalhar, e eles dependem de mim. Então pego os três e deixo dois na escola e um na creche, depois eu volto no horário certinho para buscá-los.
   Dona Otília é uma senhora simpática dona de um sorriso discreto e de um jeito cativante, sua pele negra esconde o desgaste do tempo, apesar de simples tem tudo organizado e sobre o controle, suas roupas condizem com sua idade e também sua região, tudo bem discreto e comportado.
   Com 61 anos, Otília Henrique, é mãe de cinco filhos, Alessandra e Vera, Gilmar, Gilberto e Celso, avó de oito netos, sendo cinco homens e três meninas, bisavó de uma menina, e ainda recentemente adotou um “filho/neto do coração”.
   Tanta disposição não para por aí, Dona Otília cuida do filho Gilmar, que ainda mora com ela e de sua mãe. Dona Elvira, que atualmente esta com 87 anos. Apesar de seus filhos e netos a ajudarem, Dona Otília ainda trabalha para ganhar seu próprio dinheiro, ela lava roupas para fora, vende sorvete de iogurte, recebe uma ajuda de custo por levar e buscar as crianças e também vende picolés e sorvetes da empresa de seu filho.
   Dona Otília desde cedo trabalhou, de origem humilde, trabalhar significa mais do que uma forma de ganhar dinheiro, é um modo de ajudar a quem precisa e também ser útil à sociedade.
- Não tenho preguiça, só paro de fazer minhas coisas quando meu braço amanhece doendo demais. Eu gosto de ajudar meus vizinhos e os pais destas crianças, pois sei como é difícil ter que trabalhar e não ter com quem deixa-los. Muitos já me ajudaram um dia, então porque não fazer o mesmo? É uma maneira de me sentir útil.
   Quando há uma pausa nas tarefas, Dona Otília se senta na varanda na companhia de sua mãe, em cadeiras de fio com balanço. As duas proseiam sobre o dia-a-dia, sobre os filhos e netos. Enquanto isso, o cachorro brinca no chão com o menino Pedro. Aos finais de semana, costumam visitar os filhos e netos ou recebê-los em casa, a família sempre se mantém unida. Apesar do ritmo tranqüilo e rotineiro, Dona Otília viveu por muitos anos trabalhando incessantemente, havia dias que nem mesmo conseguia ver os filhos.
- Eu fui mãe solteira, então tinha de trabalhar em dois ou mais empregos. Muitas vezes quando chegava em casa, eles já estavam dormindo.
   Dona Otília era moça cansada, mas seu esposo viajava muito e não a ajudava, por isso, ela sempre batalhou pelo pão de cada dia. Quem a ajudou e muito na criação de seus filhos, foi sua mãe, os mais velhos podiam ir para escola e depois ficar em casa sozinhos, já os dois menores, Otília deixava morando com sua mãe.
- Era mesma coisa do que não ter marido. Ele nunca parava em casa e era cheio de mentiras. Teve um dia que me cansei e quando ele apareceu, eu já estava com os papéis da separação na mão.
   A filha mais velha de Dona Otília, já estava com treze anos quando ocorreu à separação, por isso ela poderia ajudar a cuidar dos irmãos mais novos. Depois da separação o ex-marido de Otília, tentou roubar seu filho mais novo, por isso ela deixou os dois mais novos com sua mãe.
- Eu morria de medo de roubaram meu filhos ou tirarem de mim. Por isso, nunca os deixei em creche só com minha mãe, e os outros já podiam se cuidar. À noite quando chegava ia ver se estavam dormindo e depois olhava as latas de mantimento, se já estavam ficando vazias na outra noite eu abastecia. Nunca faltou o que comer, vestir e calçar.
   Dona Otília trabalhava com carteira assinada na Viação Motta, segundo as regras da empresa funcionários não poderiam trabalhar em outro local, mas como sabiam da situação de Dona Otília a deixavam trabalhar para fora. 
- Eu fazia diária pela manhã, corria para viação onde ficava até a noite e de lá seguia para trabalhar como cozinheira em um restaurante/lanchonete próximo do Hospital da Santa Casa.
Por onde passava Dona Otília sempre procurou fazer mais do que prestar serviços, ela gostava de ajudar as pessoas e manter bons relacionamentos no trabalho. Entre suas diversas experiências, ela lembra de uma república masculina onde cuidava da limpeza e organização. Na verdade mais do que isto.
- Eu trabalhava como diarista, quando cheguei lá, meu pai amado! Era uma bagunça. O presidente da casa me deu liberdade para por ordem no local, então limpei, organizei tudo e coloquei regras. Claro que sempre conversando muito com os rapazes, que afinal estavam longe de suas famílias. Muitas vezes era confidente, dava conselhos e também bronca quando era preciso, pois brigavam demais. Lembro que achei uma revista pornográfica, adverti o responsável e disse que não queria mais saber daquilo, que um jovem como ele não precisava daquelas coisas.
   Dona Otília sempre foi e é até hoje querida por muitas pessoas. Durante os anos de trabalho, ela recebia convites para viajar gratuitamente pela viação, passaporte da república para visitar o parque aquático, do qual eram donos entre outras inúmeras oportunidades. Mas ela não poderia, fora a falta de tempo tinha seus filhos, que sempre foram sua prioridade.
-Vontade eu tinha, mas deixei tantas oportunidades de lado. Não poderia simplesmente largar tudo e ir viajar ou passear no clube, eu tinha meus filhos para cuidar e na minha vida, eles sempre estiveram em primeiro lugar.
   Sair com amigos, conhecer pessoas, se relacionar e até mesmo namorar, não faziam parte dos planos de       Dona Otília, ela tinha receio de se envolver novamente com alguém e temia também pelos filhos.
- Eu nunca quis colocar homem dentro de casa, pra quê? Cuidava muito bem dos meus filhos, fora que minhas meninas já estavam moças e sempre tive receio dessas coisas de violência que sei que existe. Às vezes as pessoas me perguntavam: Arrumou um namorado Otília? – E eu respondia que sim, e que se chamava emprego.   
   Assim dona Otília seguiu sua vida por muitos anos, até ver seus filhos se tornarem homens e mulheres de bem, responsáveis por suas vidas e capazes de proverem o próprio sustento. Atualmente todos estão casados, com exceção de Gilmar, que é pastor e mora com ela.
- Só meu filho Gilmar que é solteirão.  (Brinca ela).

 
Cuidado de avó, amor de mãe

   Na correria do dia-a-dia alguns detalhes passavam despercebidos por Dona Otília, dentre eles um muito importante, a gravidez de sua filha Vera que ainda era jovem. Devido aos desencontros, ela não percebera as mudanças na atitude da filha.
- Fiquei sabendo meses depois, quando minha filha resolveu me contar, porque logo não daria mais para esconder.
   Dona Otília deu total apoio a filha, conversou bastante e deixou claro, que a ajudaria no que fosse preciso, independente da escolha que ela tomasse, com apenas uma condição:
- Eu disse a Vera que criança não pede para nascer, então ela teria que cuidar muito bem de seu filho, com ajuda do pai ou não.
   A filha de Dona Otília levou a gravidez adiante sem a presença do pai, porém contava com o apoio de sua mãe (dona Otília) e sua avó (dona Elvira). Ela esperava um menino, e a família estava ansiosa por sua chegada.
- Quando o Bruno nasceu foi um mimo só, tanto da minha parte, quanto da bisa e dos irmãos de Vera.
Bruno era o primeiro neto, nasceu e deu seus primeiros passos dentro do lar de Dona Otília. Com os anos, os filhos casaram-se e também constituirão suas famílias, Otília sempre cuidava dos netos que indo nascendo. Mas a história com o neto Bruno foi diferente, o pequeno era filho de mãe solteira e foi criado pela avó como se fosse filho.
- Um dia o pai dele apareceu no portão e eu o botei para correr. Não deixaria que nada o faltasse e cuidaria dele como um filho.
   Depois de alguns anos, a filha de Dona Otília começou a namorar e resolveu se casar, Dona Otília não queria que Bruno fosse embora e conversou com a filha para que construíssem uma casa nos fundos de sua residência.
-Vera e seu futuro marido concordaram, construíram a casa e se casarão. Mas ele era muito nervoso e impaciente, quando o menino Bruno o chorava gritava com Vera para que o fizesse parar. Eu não admitia isto.
   Bruno passou a dormir com Dona Otília, mas Vera e seu marido decidem se mudar para um bairro distante. Dona Otília não gostou da decisão, mas não podia interferir, no entanto, queria que deixassem Bruno com ela, mas Vera o quis levar.
- Ela o levou e foi tão difícil pra mim. Eu pensava nele o tempo todo e avisei-a que se algo acontecesse com ele, qualquer coisa, ela iria se ver comigo. Porque Vera quis arrumar marido, e a criança não tinha culpa disso.
   Como a casa de Vera ficava longe de Dona Otília, era difícil para se comunicar e até mesmo ver o menino. Certo dia Dona Otília estava saindo do emprego quando sua filha liga desesperada dizendo que Bruno estava passando mal. Dona Otília saiu correndo e foi o mais rápido possível buscar Bruno.
- Minha filha disse no telefone que o menino estava morrendo, pensa no desespero, sai correndo até lá.       Quando cheguei a boca de Bruno cheirava a carne fresca, era verme, mas como Vera era mãe de primeira viagem não sabia.
   Dona Otília levou Bruno para sua casa, chegando lá foi no quintal colher as ervas para preparar um chá. Depois de algumas horas, o remédio caseiro fez efeito e Bruno ficou bom. Passando-se alguns dias Bruno voltou a morar com sua mãe, mas com freqüência Vera ligava avisando que algo tinha acontecido.
- Vera tinha medo porque eu a avisei. Então várias vezes Bruno ficava lá e cá. Até que quatro anos houve uma discussão em sua casa e minha filha ligou pedindo para que buscasse Bruno.
   Deste dia em diante Bruno passou a morar definitivamente com a avó, a mãe sempre o visitava, tanto que Bruno já distinguia como chamar. O menino crescia cuidado pelos tios, pela avóe também pelos bisavôs. Ele crescia cheio de saúde e graça, sua pele branca com detalhes rosados e um cabelo liso e tão preto que realçava sua face.
- Eu queria que tu visses como ele era lindo e saudável, nossa eu dava de um tudo para o Bruno.
   E assim Bruno cresceu muito apegado a família. Quando completou dezoito anos ele se apresentou no quartel, porém foi dispensado por excesso de contingente. A partir deste momento, ela começara a trabalhar e buscar por sua independência.
- Bruno foi trabalhar fora e morar sozinho. Eu não ficava uma noite sem pensar e orar por ele.
A ausência de Bruno era como um vazio no lar e no coração de Dona Otília. Quando o neto a visitava falava do trabalho e que as coisas estavam bem. Mas Dona Otília se preocupava sabia que viver sozinho não era fácil.
   Certo dia Bruno reclamou do trabalho e de se mudar tantas vezes, às vezes não dava certo em um local, outra com o colega de quarto e etc. Dona Otília então o convida de perto aberto a morar com ela.
- Bruno veio morar novamente conosco, foi uma alegria só. Ele estava morando na casinha dos fundos, construída para sua mãe. Eu nunca cobrei que me ajudasse com nada, mas o espaço era pequeno e logo ele partiu novamente.
   Bruno precisava de um lugar para guardar os móveis que já tinha conquistado, porém a casa de Dona Otília não havia mais espaço, e a casinha onde estava morando tinha coisas de seu tio guardadas. Além disso, Bruno se sentia mal queria ter seu local próprio para morar.
- Até hoje eu digo para ele voltar para casa que estou esperando. Apesar de não me contar tudo, porque todos temos nossos segredos eu vejo e sei que ele já sofreu muito por aí, e eu só lhe quero o melhor.
   Dona Elvira, mãe de Otília também faz questão de expressar seu apresso pelo neto.
- Bruno é um menino muito especial, dedicado e atencioso com a gente de mais idade. Sempre prestativo e presente, eu só lhe quero bem, que se case e conquiste também sua casa própria e sei que vai conseguir com a graça de nosso Senhor Jesus.
   Atualmente Bruno esta com 27 anos e ainda mora sozinho. Sempre que pode liga para o tio para dar notícias e nos períodos de folga visita sua mãe/vó e sua bisa. Tanto dona Otília, dona Elvira e o tio Gilmar que o chama por neném, lhe esperam de volta.


Presente de Deus

   Depois de trabalhar 13 anos na Viação Motta, Dona Otília, prestava serviços temporários em casas e restaurantes. Com o passar dos anos seus filhos não queriam mais que ela ficasse trabalhando fora e também já não havia necessidade, seus filhos já estavam criados. Agora poderia descansar, mas este não é o perfil de Dona Otília, então começou a cuidar de crianças em sua própria casa.
- Graças a Deus sempre tive bons vizinhos que meu ajudaram a cuidar dos meus filhos entre outras ajudas. Por isso, comecei a cuidar de algumas crianças enquanto seus pais saiam para trabalhar.
   Entre as crianças havia um bebê de seis meses, Dona Otília cuidava para a mãe que trabalhava como manicure, ao menos era o que dizia. Mas passando-se alguns meses, a mãe deixou de pagar com a promessa de que no outro mês acertaria. 
- Eu tive que devolver a mãe e dizer que eu não podia continuar cuidando. Que além do dinheiro, o bebê precisa se alimentar e vestir. Que também fui mãe solteira, então ela tinha que batalhar pelo filho e fazer dele sua prioridade.
   Depois de algum tempo, Dona Otília descobriu que o menino estava sendo cuidado por outra babá, uma conhecida de Otília que não morava muito longe de sua casa. Querida pelos vizinhos e muito conhecida na região, sempre que algo acontecia ou precisavam de alguma ajuda, Dona Otília era procurada.
- Depois de um ano e meio, fiquei sabendo que o menino que eu cuidava estava sendo judiado pelos outros. Só de pensar me revolta, eu sempre fiz de tudo e cuidei dos meus filhos, criança não tem culpa da vida dos pais.
   Quando ficou sabendo da possibilidade de maus tratos, Dona Otília esperou na esquina da rua, a chegada da mãe do menino para que pudesse alertar a mãe e saber de as informações procediam.
- A mãe ficou tão surpresa quanto eu, disse que trabalhava muito e não sabia dessas coisas. Eu pedi para que não deixasse isso acontecer de novo.
   Dona Otília sem saber, já tinha criado um vinculo e um carinho especial pelo menino. Mesmo assim não quis mais interferir.
- Tive receio de que fosse boato e eu considerada fofoqueira.
   Mas poucos meses depois a mãe da criança aparece na porta da casa de Dona Otília, com o menino, suas malas e o registro de nascimento, pedindo que cuidasse de seu filho.
- Ela foi despejada da casa de aluguel onde vivia também por falta de pagamento. Então não tinha para onde ir e nem como levar o menino. Mas no fundo eu sabia que ela não voltaria para buscá-lo, eram muitas as mentiras.
   Pedro estava com dois anos quando Dona Otília ficou sobre a responsabilidade de cuidado. Mas o vizinhos já sabiam do ocorrido e algumas famílias queria ficar com a criança, por isso, o conselho tutelar foi acionado e Dona Otília levada para depoimento.
-Apesar de o ambiente ser horrível cheio de barulhos e crianças, me trataram muito bem. Eu disse o que havia ocorrido e mostrei que a mãe o deixou confiado a mim com seus documentos. Perguntaram-me se eu queria a guardar do menino e eu disse que sim.
   Depois de ter dado o primeiro passo para uma possível adoção, os filhos de Dona Otília ficaram preocupados e perguntaram se a mãe estava certa da decisão.
- Eu já havia cuidado dele ainda bebê e a mãe confiou a mim a responsabilidade, quando olhava para ele tinha certeza que era isso que queria. Criei filhos e netos, porque agora não conseguiria.
   As outras pessoas interessadas na guarda da criança alegavam que Dona Otília já estava com idade avançada para assumir o papel de mãe. Além disso, durante o tramite do processo novas informações além do que Dona Otília havia prestado foram surgindo.
- Eu fiquei até envergonhada quando soube que com as investigações, a mãe de Pedro não era manicure como me dizia e eu a tinha defendido as autoridades, na verdade ela era prostituta de uma avenida muito conhecida em Campo Grande. Ela poderia ter me dito a verdade, quando chegava tarde para buscá-lo.
   Para o julgamento da guarda foi preciso localizar a mãe do menino, Bruno neto de Dona Otília iniciou a busca e foi encontrá-la morando em Ponta Porá.
- Depois do apelo de Bruno ela aceitou vir e assinar os papéis. O juiz perguntou se era mesmo minha vontade e eu disse que sim. A partir de então Pedro foi considerado pela lei e por todos, meu filho.
   Atualmente Pedro esta com oito anos, já entende algumas coisas, mas sente muito a falta do pai. Esta na fase de questionamento e comparação as demais crianças. Dona Otília conversa bastante com o Pedro e esbanja carinho. Ela também não impede que a mãe biológica o visite e até o leve para passar o fim de semana.
- Só espero o melhor para o Pedro também. Ele é muito especial, apesar da pouca idade é tão esperto e carinho. Quando me vê fazendo as tarefas de casa, já vem logo atrás para me ajudar, como ele diz, mas é para brincar. Onde estou ele esta também seja aqui em casa ou quando saio. Ele não me atrapalha em nada, pelo contrário é um presente de Deus.

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Suelen Morales, 24 anos, é bacharel em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, pós-graduada em Gestão de Projetos Sociais ambas pela Anhanguera Uniderp. Atualmente é repórter no jornal A Crítica, veículo impresso e online.

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