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DEPOIS DE CRISTINA KIRCHNER

Eleições argentinas vão definir ritmo de novos rumos

Segundo turno do pleito que escolherá futuro presidente está marcado para o dia 22. No caso de Scioli, alterações devem ser perceptíveis. No de Macri, profundas. Mudança forte ou muito forte

14 novembro 2015 - 23h00Da redação
Scioli (E) e Macri (D) disputam o segundo turno das eleições
Scioli (E) e Macri (D) disputam o segundo turno das eleições - Divulgação
O FLOR DA MATA - NOTICIAS

A Argentina está na iminência de uma mudança forte no dia 22. Aliás, está entre a mudança forte e outra muito forte. A forte é o candidato kirchnerista, Daniel Scioli, governador da província de Buenos Aires. A muito forte é o candidato oposicionista,

Mauricio Macri, prefeito da cidade de Buenos Aires. Scioli, peronista conservador, é um situacionista visto com desconfiança pela presidente centro-esquerdista Cristina Kirchner, que relutou em apoiá-lo e lhe impôs o vice, o ultrakirchnerista Carlos Zannini. Macri é a personificação da linha econômica neoliberal. Seus detratores o vinculam aos traumáticos anos 1990, do menemismo e de uma falsa euforia representada pela "pizza com champanha", seguida da maior crise já vivida pelo país.

As pesquisas indicam grandes possibilidades de mudança intensa em 10 de dezembro, dia da posse. O instituto Poliarquía apresenta Macri com 48,7% das intenções de voto e Scioli com 40,2%. O Management & Fit mostra 51,8% a 43,6%, com 10,9% de indecisos e só 8% que admitem mudar de voto.

Para o Gonzalez y Valladares, Macri tem 51,6% contra 40,3% de Scioli. E um dado relevante: conforme o Gonzalez y Valladares: 8,2% dos que apoiam Scioli e 1,7% dos simpáticos a Macri admitem alteração, percentual que vai a 14,3% entre quem votará em branco.

É importante lembrar: no primeiro turno, em 25 de outubro, Scioli teve 37,08% dos votos contra 34,15% de Macri. O resultado derrubou as pesquisas, que apontavam diferença maior. E os analistas fizeram coro: Scioli precisaria conseguir mais votos para superar a rejeição ao governo, dispersa entre os 60% que optaram por alguém da oposição. A tendência seria de migração majoritária para a candidatura de Macri. E os números dos levantamentos corroboram essa percepção.

Em 25 de outubro, o terceiro mais votado foi Sergio Massa (21,39%), ex-chefe de gabinete da presidente, que se tornou dissidente dois anos atrás. Conforme a Management & Fit, 57,1% dos eleitores de Massa afirmam que optarão por Macri no segundo turno e 20,6% por Scioli. Na pesquisa da González y Valladares, o apoio a Macri chega a 65,9% nessa parcela do eleitorado, contra 22,5% para Scioli.

— A equação se dará entre as ânsias de mudança de boa parte da população, após 12 anos sob o kirchnerismo, e o desejo de manter as conquistas, manifestado por outra porção, não menor, do eleitorado. O resultado depende em boa medida dos que votaram em Massa — diz o historiador argentino Carlos Malamud.

Os candidatos e seus trunfos

A favor de Scioli, Malamud traz elementos práticos:

— Recordemos que aproximadamente 40% do eleitorado depende do Estado, como empregados públicos, aposentados e beneficiários de planos sociais.

A favor de Macri, emerge a lógica matemática:

— Não devemos nos guiar pelas aparências, que são más conselheiras. Mas, pelas aparências, Macri será o presidente argentino. As pesquisas dão entre oito e 10 pontos de vantagem para ele. De cada três eleitores de Sergio Massa, dois dizem que votarão em Macri.

De um lado, há o aspecto utilitário favorável ao governista, que tem a máquina pública a seu favor. De outro, o fato de que 60% da população não votou em Scioli, o candidato governista, no primeiro turno. A tendência, em tese, é de que a maioria desses eleitores se una.

Opositores de Cristina tentam levar a eleição

Também há os perfis:  peronista à moda antiga, homem de vocação negociadora e disposto a conversar até com especuladores internacionais, Scioli cometeu deslizes que podem ter-lhe tirado votos: viajou à Itália em meio a uma enxurrada na província que governa, e uma manifestação de feministas foi reprimida com violência pela polícia buenairense em Mar del Plata.

Já Macri é a representação mais próxima dos anos 1990, herdeiro do impopular ex-presidente Carlos Menem e do chamado "alinhamento carnal" aos Estados Unidos. O governo Menem se iniciou com a paridade cambial e terminou na crise do corralito — a retenção de depósitos para assegurar a liquidez nos cofres públicos.

De qualquer forma, Malamud antevê um elemento dado como certo, apesar da polarização: terminou, segundo ele, a "hegemonia" do "modelo kirchnerista", saindo a atual "verticalidade" centralizadora das decisões e entrando o diálogo, com o estabelecimento de alianças e um protagonismo maior do parlamento.

— Tudo indica que chegam novos ares para a Argentina, que tanto necessita deles — diz Malamud.

Diretor do Poliarquía, Eduardo Fidanza recomenda cautela nas análises, mesmo que a vantagem de Macri pareça estar cristalizada em algo como 10 pontos a apenas duas semana das eleições. Argumenta que o debate deste domingo pode ser decisivo.

— Um grande acerto ou um grande erro, de qualquer um dos dois, pode mudar tudo — diz.

Fidanza vê o panorama político argentino como "polarizado" e constata um "paradoxo":

— O fenômeno da polarização, paradoxalmente, reafirma o ambiente kirchnerista. Terá de se decidir entre duas opções, entre diferenças, entre o "nós" e o "eles", o bem e o mal.

Novos matizes internacionais

Outro elemento importante para o futuro argentino: as relações internacionais.

— O desaparecimento de um Kirchner da constelação regional de presidentes populistas debilitará a Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América) e seus círculos concêntricos de poder, como a União de Nações Sul-americanas (Unasul). As dívidas e os compromissos de Scioli com (o venezuelano) Nicolás Maduro, (o equatoriano) Rafael Correa, (o boliviano) Evo Morales ou (o cubano) Raúl Castro são sensivelmente inferiores aos dos seus predecessores. A respeito de Macri, nem se fala, é muito distinto — diz Carlos Malamud.

Em entrevista a correspondentes internacionais, Macri sinalizou que deseja reforçar vínculos da Argentina com o Brasil, primeiro parceiro comercial argentino, e com os vizinhos Uruguai e Chile. Sublinhou que diferenças ideológicas não serão obstáculo com a brasileira Dilma Roussef, o uruguaio Tabaré Vázquez e a chilena Michelle Bachelet — Tabaré e Bachelet são dos partidos socialistas em seus países. Ainda enfatizou, provocando os adversários: para Dilma será "mais fácil chegar a um acordo comigo do que com Cristina".

— Espero que o Brasil supere a crise institucional e econômica o mais cedo possível. Quanto melhor for o Brasil, melhor iremos — disse Macri, que já confirmou: se eleito, terá o Brasil como primeira escala internacional.

No primeiro turno, Scioli interrompeu a campanha para visitar Dilma em Brasília, nitidamente com o objetivo de marcar posição como aliado da presidente brasileira.

— Temos de colocar todo o esforço na integração comercial e na complementação entre os países. A Argentina tem a predisposição de trabalhar com o Brasil para buscar novos mercados que potencializem nossas exportações em condições justas — discursou, já procurando falar como futuro presidente.

Não é à toa que o cientista político Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, vê nas eleições presidenciais argentinas "mais um prego no caixão do populismo dito de esquerda na América Latina" e "o fim de um ciclo histórico" — em muito, segundo ele, por causa de um modelo que, mediante matérias-primas em alta, "distribui renda sem modernizar a economia e as relações sociais".

Caso pontual da futura política externa argentina: em tese um aliado, Scioli deve pisar em ovos na relação com a Venezuela e com o regime chavista, que, de qualquer forma, tende a perder força nas eleições legislativas do próximo dia 6 — a oposição teria vantagem de entre 20 e 30 pontos percentuais, dizem as pesquisas. Macri já anunciou sem qualquer prurido: exigirá o fim das prisões políticas venezuelanas e, caso continuem, questionará a presença da Venezuela no Mercosul, alegando o rompimento da cláusula democrática.

Um deles será o presidente

O segundo turno forçou dois políticos parecidos e amigos entre si a se confrontarem. São vários os pontos a uni-los. Ambos vêm do esporte, tiveram trajetória marcante no setor privado, têm origem empresarial, são políticos tardios e prometem gestão baseada no diálogo – marcando diferença em relação ao atual governo.

As circunstâncias levaram Mauricio Macri, empresário de corte liberal, a ser a representação do anti-kirchnerismo. Também as circunstâncias levaram o peronista conservador Daniel Scioli a ser o guardião dos 12 anos de “Casal K” e defensor da linha centro-esquerdista que flerta com o bolivarianismo chavista. Scioli tem defendido as reestatizações feitas sob o kirchnerismo – caso da petrolífera YPF.

Macri diz que manteria a YPF estatal, mas não vacilaria ao enveredar pelas privatizações, até porque, ao contrário de Scioli, defende medidas imediatas e para promover correções de rumo na economia. Na área social, ninguém cogita reduzir programas, mas Macri fala em recuperar o nível alto da educação argentina, o que leva a crer em estratégias amplas e menos assistenciais. Leia os perfis dos dois:

Daniel Scioli

De perfil retraído, Daniel Scioli, 58 anos, foi do esporte à política há 25 anos. Sempre fugiu dos confrontos, ao contrário da presidente. Ex-campeão de motonáutica e vice de Néstor Kirchner (2003-2007), é desde 2007 governador da província de Buenos Aires, onde vivem 16 milhões dos 40 milhões de argentinos. Candidato da Frente para a Vitória (FPV), foi visto com receio pelo kirchnerismo “duro”, crítico a sua autonomia conservadora. Mas tem se apresentado como a “continuidade do projeto” forte em políticas sociais.

– Scioli é uma interrogação – definiu para a France Presse, recentemente, Pablo Knopoff, da Isonomía Consultores.

Neto de imigrante italiano, ele cresceu em meio a privilégios, numa casa onde “os corredores estavam cheios de geladeiras e aquecedores”, lembrou ele sobre a Casa Scioli, rede de lojas de eletrodomésticos na década de 1980. Hoje, declara patrimônio de US$ 1,4 milhão, inclusive a propriedade de 13 mil metros quadrados em Villa La Ñata, onde organiza jogos de futsal e recebe celebridades.

Tornou-se empresário, mas a paixão pelo esporte o levou a conquistar oito mundiais de motonáutica. Esperou três décadas e, em 5 de outubro, na campanha, concluiu a Licenciatura em Comercialização na Universidade Argentina da Empresa, título que ofereceu ao pai.

 Em 1989, um acidente que quase lhe custou a vida, quando corria os mil metros do delta do rio Paraná, amputou seu braço direito. Reinventou-se e aprendeu a ser canhoto, habilidade que demonstrou na TV quando deu nó na gravata com a mão esquerda. Sua capacidade para sobreviver também foi posta à prova na política: saiu ileso das lutas internas do peronismo, movimento ao qual pertence e que abarca de conservadores a esquerdistas.

Conduzido à política por Carlos Menem, foi nomeado secretário de Esportes por Eduardo Duhalde (2002/3) e vice-presidente de Néstor Kirchner, três inimigos entre si.

– É um líder tradicional, mas de ideias pouco conhecidas – define Walter Schmidt, coautor da biografia “Scioli secreto”.

O candidato, que admitiu tardiamente a paternidade de Lorena, filha que teve na juventude e que fez dele avô, convive há 30 anos – entre casamento, divórcio e retorno – com Karina Rabolini, ex-modelo e empresária da moda.

Mauricio Macri

Rico de berço em um país marcado pelas reivindicações sociais. Esse é o contexto e a marca de Mauricio Macri, 56 anos. Ex-presidente do Boca Juniors e prefeito da cidade de Buenos Aires, ele se anuncia o homem que vai alterar o rumo argentino, kirchnerista há 12 anos. É líder do partido conservador Proposta Republicana (PRO) e encabeça a aliança Cambiemos, com apoio da social-democrata União Cívica Radical (UCR).

Geralmente contido, Macri tem abraçado crianças e idosas nas províncias mais pobres. Com metas empresariais, promete manter ampla rede de contenção social. As políticas iniciadas com Néstor Kirchner (2003-2007), que tiveram continuidade com Cristina (2007-2011 e 2011-2015) gozam de 60% de apoio popular.

Por isso, Macri evita bater de frente com elas. Conhecido como adepto de políticas ultraliberais, tem garantido que ampliará o alcance da atribuição universal por filho, que beneficia com US$ 91 ao mês 3,5 milhões de crianças pobres. Os adversários dizem que tal compromisso vale até o dia 22, para atrair o voto de peronistas descontentes com Cristina.

Macri faz questão de reafirmar o fanatismo pelo Boca Juniors – clube que se sagrou campeão argentino no início do mês. Conta que sempre quis ser o “camisa 9 xeneize” – o goleador. Formou-se em Engenharia Civil e rumou pela carreira empresarial. Sua falta de talento como jogador não o impediu de cumprir o sonho de ter protagonismo no clube do coração. Tornou-se presidente do Boca (de 1995 a 2007), em uma fase de muitos títulos do clube.

Macri é o mais velho dos seis filhos do empresário Franco Macri, italiano que chegou à Argentina em 1949 e fez fortuna com companhias de construção, automotivas, de aeronavegação, energias renováveis e serviços. O patriarca é conhecido por manter bom relacionamento com quaisquer governos, inclusive com Cristina, desafeta do seu filho.

Macri se casou três vezes, a primeira aos 22 anos, em 1981, com Ivonne Bordeu, de quem tem três filhos. Em 1994, com a modelo Isabel Menditeguy. A atual mulher do candidato é a empresária do setor têxtil Juliana Awada, 41 anos, com quem ele tem uma filha de três anos. Juliana é amiga de Karina Rabolini, mulher do hoje rival Scioli.

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