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Usuários de crack já fazem planos para primeiro salário

24 janeiro 2014 - 15h42
Luana que ir em um fast food
Luana que ir em um fast food - Letícia Macedo
Os moradores da Cracolândia que integram o Programa Braços Abertos voltaram ao trabalho na manhã desta sexta-feira, um dia depois da ação truculenta do Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico que terminou com 30 pessoas presas. Os participantes do programa fazem planos para gastar o 1º pagamento, que devem receber nesta tarde (cerca de R$ 105 por semana trabalhada). A Prefeitura se comprometeu a pagar R$ 15 por dia trabalhado.
 
No início da operação, no dia 16 de janeiro, cerca de 300 pessoas se mudaram para cinco hotéis. A Prefeitura informou hoje que ainda não tem um balanço de quantas pessoas estão trabalhando e quantas desistiram do Programa Braços Abertos.
 
Morador da Cracolândia há mais de quatro anos, Ednaldo, de 40 anos, pretende comprar roupas e ir a uma piscina. “Preciso comprar uma bermuda, cueca. Tenho que comprar tudo. Eu também quero fazer a carteirinha do Sesc para usar a piscina. Também estou pensando em ir no sambódromo para sair um pouco daqui. Quem sabe comprar até um ingresso para Copa”, afirmou, provocando risos entre os colegas.
 
A casa que ele tinha desabou no Itaim Paulista e, desde então, ele passou a morar no Centro com a mulher, que também é dependente. Ela, que está grávida, não foi trabalhar, porque está no 8º mês de gestação. Esse será o 6º filho de Ednaldo. “Esse já nasce com outra esperança. Eu não posso jamais perder essa oportunidade [de trabalhar]. Todo mundo que constrói alguma coisa é com trabalho, com suor. A gente está limpando a rua e limpando também a própria imagem.”
 
Luana Barroso da Silva, de 20 anos, que utilizou crack pela primeira vez na companhia da mãe, ainda não decidiu em que vai gastar o dinheiro. “Não vou mentir, eu vou comprar droga, mas eu quero comprar um sorvete, nem sei mais o que é isso. Queria ir no Habbib’s, no McDonald’s. Também podia ir no cinema”, disse Luana, que é moradora de rua há oito anos. Ela tem três filhos, que moram com a avó paterna. Vaidosa, ela trabalha com colares e brincos. Para fazer a foto para a reportagem, ela pediu os óculos da assistente social que acompanhava o grupo.
 
Já a técnica em qualidade Denise Felippe, de 43, pretende comprar um fogão de duas bocas para poder preparar a própria refeição. “Eu e o meu marido gostamos de cozinhar, mas a gente cozinhava na rua com um fogo improvisado. Com esse dinheiro estou pensando em comer uma lasanha. Também preciso comprar roupa, porque eu gosto de andar limpa. E também preciso de shampoo e creme para o cabelo”, afirmou. Ela estava em uma clínica de recuperação quando ficou sabendo do programa e voltou ao Centro. “Eu deixei a clínica porque não achava certo perder essa oportunidade. O meu foi o primeiro barraco a ser construído ali”, contou.
 
Os eletrodomésticos também chamam a atenção de José Paulo Vilela Junior, que já fez uma dívida que deve sanar ainda nesta sexta-feira, quando tiver o dinheiro em mãos. “Comprei uma televisão. Paguei R$ 80. Fazia muito tempo que eu não via uma. No próximo [pagamento] eu quero um som e um liquidificador, para fazer umas vitaminas, para me recuperar”, afirma. Ele viu de longe a confusão na tarde de quinta-feira. “Querendo ou não, nós somos uma família. Mexeu com um, mexeu com todos, mas não vou desanimar nunca. Jamais eu quero perder essa oportunidade.”  
 
O dinheiro também irá ajudar uma das dependentes a colocar em liberdade o marido, preso ontem na ação do Denarc. “Ele [o advogado] não me cobrou, mas eu vou dar uma ajuda para as despesas”, afirmou. Segundo ela, os policiais forjaram o porte de drogas. “Falaram que ele estava com 16 pedras de crack, mas não é verdade. Ele estava com um cachimbo e com o isqueiro, porque a gente tinha acabado de dar um trago. Jogaram ele que nem lixo no camburão”, contou. Ela disse ter tido a impressão de que os policiais estão mais truculentos nos últimos dias. “Eles estão aqui para prender, não para bater. Parecem que não estão gostando do programa que fizeram para nós.” 
 
Nos três hotéis visitados pela reportagem nesta manhã, o ritmo permanecia o mesmo do início do programa, segundo assistentes sociais, responsáveis por hotéis e voluntários de ONGs que atuam na região. Os moradores relataram problemas com a água, com a qualidade do colchão. “Não adianta ajudar de um lado e atrapalhar de outro”, observou Denise.
 
Nenhum dos entrevistados aceitou fazer acompanhamento médico para deixar o vício, mas todos disseram ter diminuído consideravelmente o consumo. “Eu não quero ficar em hospital, porque é como ficar preso. Não adianta ficar lá e depois se atirar direto na droga. O que precisa é de força de vontade. Eu estou diminuindo bastante [o consumo] nesses dias. Até porque enquanto a gente trabalha ninguém consome. Agora eu tomo café, almoço e janto. Eu ficava quatro, cinco dias praticamente sem comer”, contou a mulher do rapaz preso na confusão de quinta-feira. 
 
Provocações
 
Os novos varredores também relataram ser vítimas de provocações durante o serviço da parte de moradores, prestadores de serviços e até de policiais. “Um policial me falou que eu deveria ir varrer na cadeia. Eu falei para ele que eu varro onde eu quiser”, contou Ednaldo, revoltado. Já Isac, de 32 anos, que mora na Cracolândia há mais de dois anos, diz não ligar para os comentários. “Tem uns que dizem: ‘olha os noinhas do governo’. Só fazem eu dar risada. Acho um barato, porque isso para mim é inveja”, diz enquanto varria a calçada da Alameda Dino Bueno.
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