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Educação

Universidades portuguesas recrutam estrangeiros para aumentar receitas

4 janeiro 2014 - 10h42
Para driblar o orçamento cada vez mais enxuto e a queda de matrículas no ensino superior, as universidades públicas portuguesas passaram a apostar no recrutamento de estrangeiros de fora da Europa. O Brasil é o principal alvo, seguido de outros países lusófonos (Angola, Cabo Verde e Moçambique) e orientais, como China e Emirados Árabes.
 
O cálculo é simples: a maioria dos europeus estuda em Portugal como intercambista de graduação do programa “Erasmus” – hoje há aproximados nove mil estudantes nessa condição – e paga taxas apenas na universidade de origem. Além disso, o leque de possibilidades de estudo para um cidadão da União Europeia é bastante amplo, o que torna as ofertas em Portugal nem sempre atrativas.
 
Não é o que acontece com muitos estudantes de fora da Europa, que veem no país a oportunidade de adquirir experiência (e um bom diploma) internacional a baixo preço – as taxas e o custo de vista são bastante menores, se comparados à média do bloco europeu.
 
“O Brasil ainda tem uma parcela da população sem ensino superior e estudar numa boa universidade particular pode ser mais caro do que em uma pública de excelente qualidade em Portugal”, argumenta João Gabriel Silva, reitor da prestigiada Universidade de Coimbra. A meta em Coimbra, que tem no tradicional curso de Direito o “carro-chefe” na atração de estrangeiros, é aumentar em seis vezes o número de brasileiros nos próximos anos – além de investir massivamente em estudantes do Oriente – China, Índia, Vietnã e Tailândia – e dos Estados Unidos – onde o alto valor das taxas chega a ser proibitivo.
 
Indústria de importação
 
A ideia de tornar o ensino superior uma indústria de importação é defendida por muitos reitores, que apelam também para o impacto positivo da internacionalização na formação do aluno e na economia local. Atualmente, os 7% de estudantes estrangeiros em universidades portuguesas geram 350 milhões de euros em receitas, calculadas a partir das taxas escolares, alojamento, transporte, alimentação e outros. Segundo a consultoria McKinsey, uma política mais agressiva de captação de estudantes até 2020 poderia tornar o setor mais rentável que o de exportação de vinhos e uvas frescas, o terceiro mais importante do país.
 
A indonésia Michelle Tanjung, de 24 anos, veio a Portugal com o irmão para fazer um mestrado na Nova School of Business and Economics, ligada à Universidade Nova de Lisboa. Na escola, 30% dos alunos são de origem estrangeira e as aulas, em Inglês. “Aqui tenho o pacote completo: ensino de ponta, mas também bom clima e boa comida”, diz a jovem. 
 
 
A engenheira brasileira Izabela Corrêa, de 25, graduada pela Universidade Federal de Minas Gerais e atualmente mestranda em Gestão, concorda com a colega oriental: “Apesar de estar entre as melhores da Europa, o preço é comparativamente muito menor”. Os cursos completos variam entre três mil e 35 mil euros e a escola está no ranking da Financial Times.
 
A porcentagem de estrangeiros na Universidade de Aveiro, reconhecida principalmente nas áreas de Engenharia, é menor: 9% – mais da metade ainda é formada por europeus. A estratégia é ampliar o leque para estudantes de Irã, Rússia e Turquia, além dos lusófonos e da China.
 
Crise no ensino superior
 
Um estudante de graduação custa, em média, cinco mil euros por ano, dos quais quatro mil são subsidiados pelo governo e o restante é pago pelo aluno. Mas a participação do Estado português tem diminuído: desde 2005, os repasses anuais às universidades caíram quase um terço. Em 2014, o corte será de 4,1%. Somado a isso, o número de estudantes matriculados pela primeira vez no ensino superior baixou 20% nos últimos dois anos – período que coincide com a concessão do empréstimo da Troika (Comissão Europeia, FMI e Banco Central Europeu) à Portugal.
 
Essa brusca queda é somente em parte explicada pela baixa natalidade: “Se é verdade que há menos jovens no país, também é certo que a crise piorou o acesso à educação. Muitas famílias já não conseguem manter seus filhos na universidade”, afirma o reitor da Universidade de Coimbra. As instituições mais afetadas são aquelas de menor porte e distantes dos centros urbanos.
 
Em vias de aprovação, o Estatuto do Aluno Internacional visa a tornar o ensino superior mais “sustentável”: já que o Estado enxuga as verbas, os alunos não europeus engordarão as receitas. Entre outras mudanças, o estatuto deverá permitir que as universidades e os institutos politécnicos cobrem mais dos não europeus e aumentem as vagas para esse público em 20%. 
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