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Brasil

Parentes resgatam corpos no Espírito Santo sem ajuda oficial

28 dezembro 2013 - 10h30
Era véspera de Natal. O dia mal havia amanhecido quando um grupo de moradores de Itaguaçu, a 130 quilômetros de Vitória (ES), bateu na porta do agricultor Luciano Rodrigues Deca, 29.
 
Os amigos traziam a notícia de uma tragédia: um deslizamento engolira a casa de familiares do agricultor, soterrando três adultos e uma criança de 3 anos.
 
Segundo a família, sem ajuda oficial, coube ao agricultor e a amigos o trabalho de resgate dos corpos. Ao chegar no lugar onde existia a casa, ele e dois homens só encontraram terra e algumas roupas espalhadas na beira de um rio.
 
Ainda chovia e o solo dava sinais de instabilidade. Por volta das 12h, houve um novo deslizamento. Após o deslocamento de terra, eles localizaram o corpo de Aparecida Dias Rodrigues, 39.
 
Os amigos contam que ligaram para os bombeiros para pedir ajuda. Ouviram que, devido à grande demanda, a prioridade era atender os feridos. O Corpo de Bombeiros admitiu à Folha ter enfrentado esse problema -devido à dimensão da enchente e pela dificuldade de acesso.
 
Sem resgate, eles carregaram o corpo ladeira acima, percorrendo um trecho de cerca de seis quilômetros. Para ajudar no transporte, o grupo usou uma porta da casa e improvisou uma maca.
 
"Eu nunca tinha chegado perto de um defunto, tive que carregar um nas costa", disse o agricultor.
 
No alto do morro, o corpo de Aparecida foi levado para uma igreja da fazenda, onde foi lavado e velado pelos familiares. Lá, ficou até as 18h do dia seguinte, 25, quando foi levado pelas autoridades.
 
"Ela (Aparecida) me disse no domingo: 'limpou o tempo. Amanhã vou embora'", contou a lavradora Helinha Martins, 24, sobrinha de Aparecida sobre a conversa que teve com a tia. "Estavam todos felizes. O menininho comeu tanto queijo", disse.
 
O corpo de Tatiane de Freitas Leli, 16, foi encontrado no dia seguinte, também por amigos, mais de um quilômetro abaixo, levado pela água.
 
Ontem, os outros corpos ainda eram procurados. Só na quinta, segundo a família, surgiram os bombeiros. "Vieram uns três, mais para dar orientação", disse o agricultor.
 
ISOLADOS
 
Em Itaguaçu e Baixo Guandu, havia vários relatos de família isoladas. Na estrada que liga os municípios, houve deslizamentos. O asfalto rasgou em um trecho, obrigando carros a passar num vão de 2 metros de largura.
 
Até as 18h de ontem, as famílias do bairro de Alto Laje continuavam isoladas. Só era possível chegar ao local por helicóptero ou veículos especiais, preparados para trilhas.
 
A família Costa estava sem acesso à área urbana de Itaguaçu desde sexta. A única ponte que dá acesso à propriedade, onde moram dez famílias, foi levada pelas águas.
 
O estoque de mantimentos, disse o agricultor Carlos Costa, 48, estava baixo. "A gente vai chupando manga." Numa região onde sete famílias estavam isoladas, um homem de 96 anos precisava de acompanhamento médico diário.
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