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Crônica

O escritor e o seu duplo

7 fevereiro 2014 - 09h20
Vai fazer um livro novo
Vai fazer um livro novo - Reprodução / Valor Econômico
Cassems
O pânico tomou conta do repórter. Ele havia entrado no apartamento errado. Por certo, a diarista, imersa nos seus afazeres, contribuíra para a gafe, autorizando a entrada do estranho. Ali dificilmente moraria João Ubaldo Ribeiro. As duas estantes da sala, de frente ao sofá, estavam abarrotadas de pelo menos 30 miniaturas de heróis e vilões de HQs, do Coringa ao Surfista Prateado, da Mulher Maravilha ao Lanterna Verde. O romancista e cronista baiano, autor de "Viva o Povo Brasileiro", clássico da literatura brasileira, agraciado com o Prêmio Camões, imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), teria sido acometido, aos 73 anos, por uma espécie de síndrome de Peter Pan? E o que fazia aquele retrato de Elvis Presley apoiado em Conan, o Bárbaro? Não há registros de seu entusiasmo pelo rock americano dos anos 50. "A foto de Elvis foi um presente dado a Berenice, minha mulher." A voz, de trovão, de preto velho baiano, vinda do alto da escada, que liga o primeiro ao segundo andar do apartamento, era inconfundível. De bermuda, camisa xadrez e chinelo de couro, surge Ubaldo. O arquétipo do homem nascido em Itaparica, pelo menos, estava preservado.
 
O mal-entendido é desfeito rapidamente. Não há chance de Ubaldo levar as miniaturas para os chás da tarde na ABL. Ele continua não tendo o menor interesse por super-heróis. Muito menos por vilões. A coleção pertence ao filho Bento Ribeiro, ator, humorista e aficionado por brinquedos - até hoje, aos 32 anos. As miniaturas estão no apartamento do pai até que Bento, de mudança de São Paulo para o Rio, ache um novo lar para Batman, Robin e companhia. Outro pai, provavelmente, não aceitaria transformar o espartano apartamento numa espécie de Sala de Justiça da Marvel. Mas Ubaldo não é de dizer não. Nunca foi. O que explica a demora para concluir o novo romance, prometido, há anos, à editora Objetiva. Além de acatar o pedido do coadjuvante do romance, que exigiu virar protagonista, insurreição que obrigou o escritor a começar tudo de novo, ele tem que suportar as aporrinhações do dia a dia.
 
"O livro desanda quando a gente deixa de tomar conta", diz Ubaldo. "E tem uns cinco, seis anos que eu não consigo trabalhar. Dou conta apenas da minha coluna semanal [publicada nos jornais 'O Globo' e 'O Estado de S. Paulo']. Também credita a falta de tempo ao aumento do número de feiras literárias. "Toda cidade com mais de dez mil habitantes tem sua feira literária. Até Xique-Xique [município do semiárido baiano] tem a sua", diz. "Parece mentira, mas tenho como provar: recebo um ou dois convites por dia para palestras."
 
Ubaldo recusa todos. Vai abrir uma pequena exceção em breve: viajará a Paris a convite da Universidade Sorbonne. Pretende começar para valer o romance assim que puder - se os telefonemas cessarem. Para um homem que tem dificuldades em dizer não, cada ligação é um tormento. Mesmo que o convite seja dos mais absurdos, facilmente recusável, como no dia em que recebeu a proposta de João Alves, então deputado pela Bahia, para escrever sua biografia. Na época, em 1993, Alves era o chefe do esquema conhecido como Anões do Orçamento, um dos maiores escândalos de corrupção do país. Alves justificava o enriquecimento repentino, incompatível com sua renda de parlamentar, pelas dezenas de vezes que ganhara na loteria.
 
Acuado na época, em meio ao tiroteio, o deputado ligou pessoalmente para Ubaldo. Apresentou-se como amigo do pai do escritor, o professor e político baiano Manuel Ribeiro, e pediu que Ubaldo escrevesse um livro contando "a verdadeira história do caso". Pagaria o que fosse preciso. "Ele não era amigo do meu pai coisa nenhuma e, mesmo que fosse, é claro que eu não aceitaria escrever, por dinheiro nenhum, um livro como aquele", afirma Ubaldo, que recusou, com a elegância de sempre, a oferta de Alves. Não foi suficiente: "Para ele desistir foi um saco. Um dia, calhou de a minha irmã estar aqui em casa. Ela, sempre decidida, pegou o telefone e encerrou a conversa".
 
A diarista serve o café. Com certo ar de tédio, Ubaldo revela que, se pudesse, recusaria não só o convite da palestra em Xique-Xique como também o da Sorbonne. "Sabe jornalista que sai da redação e vai bater papo sobre jornalismo ou o médico que vai para o boteco falar sobre cirurgia? Eu escrevo, mas não sou ligado ao métier", comenta. "Acho papo literário muito chato. Eu vou porque é necessário, mas eu não gosto, não. Não é um sacrifício, mas prefiro ficar quieto no meu canto." O canto, um apartamento simples no Leblon, onde Caetano Veloso morou nos anos 70 e abrigou também o amigo e jornalista Tarso de Castro, é o lugar onde ele se protege dos chatos. Como a maioria dos amigos já se foi - e continuam indo -, o escritor tem saído cada vez menos de casa. Só arreda o pé dali aos sábados e domingos, quase sempre para ir ao Tio Sam, o boteco da esquina. Na sua mesa, fala-se sobre tudo, menos de literatura. Nenhum dos amigos é escritor. "É gente normal: de ex-comandante da Varig a contador", conta Ubaldo. "Ao contrário do que se diz por aí, amizade de boteco é algo muito bom."
 
Depois de 11 anos bebendo guaraná diet no Tio Sam, Ubaldo voltou a beber uísque. Ele considera o seu caso raríssimo: o do ex-alcoólatra que, ao voltar a beber, depois de tantos anos, volta bebendo menos. "Bem menos", assegura. "Bebo só quando viajo, o que é raro, e quando encontro os amigos no Tio Sam, no fim de semana. Não tem bebida aqui em casa. Antes bebia até dormindo, quase morri", relata. "Eu sei que o fanático de AA [Alcoólatras Anônimos] vai dizer que estou mentindo, mas o fato é que a bebida deixou de ser um problema para mim." Antes, lembra o escritor, era duro conviver com a doença. Não só por uma questão de saúde - acometido por uma pancreatite, passou 15 dias lutando contra a morte no hospital. "Depois que saí na capa de uma revista com a cara inchada, passei a ser o único cachaceiro do país. Se um bêbado atropelava alguém na rua, ligavam imediatamente para mim."
 
O cada vez mais recluso Ubaldo só não deixa de ir a Itaparica, sempre que pode - e deixam. Os amigos continuam por lá. Ele poderia, teoricamente, escrever as crônicas e livros na ilha baiana, mas a mulher, Berenice, não acha prudente. Ubaldo também não. "Minha velha [Berenice] fica, com razão, preocupada de eu ter um treco em pleno inverno (sic) de Itaparica, época em que chove muito - depois das 9 da noite a ilha fica deserta, não há um poste de luz aceso." A idade, como se vê, impôs algumas limitações a Ubaldo, mas também permitiu que se livrasse mais facilmente dos aborrecimentos diários - ou de se preocupar exageradamente com as coisas, a imagem ou o desempenho profissional. "É claro que não tem muita graça você ficar lidando com o enfraquecimento do organismo, mas velho tem uma coisa que é muito boa: não paga mico", comenta. "Como não tenho mais nada para provar, dificilmente me meto em encrenca. Já os jovens não, esses, por pura ansiedade, vivem pagando mico."
 
Ubaldo cita o avô materno, o "coronel" Osório Pimentel, que a certa da altura da vida já não fazia a menor questão de manter a compostura. O escritor era criança quando o avô recebeu em casa o então governador da Bahia, Régis Pacheco (1895-1987), e alguns secretários de Estado. Depois do banquete, da banda de música, dos discursos, conta Ubaldo, todos se sentaram no sofá para jogar conversa fora. "Assim que começaram a papear, meu avô, cercado de puxa-sacos do governador, soltou uma sinfonia de puns. Minha avó o cutucou e levou uma bronca ali mesmo, na frente do governador e dos secretários 'Me deixe em paz, mulher! Faz um mal tremendo ficar prendendo essas coisas! Àquela altura ele não tinha nada a perder", lembra-se Ubaldo. "Eu não faço esse tipo de coisa em público, mas não ficaria mortificado se tivesse que fazer." Talvez, no máximo, ele levasse um pito do "Grande Ubaldo".
 
São duas personalidades convivendo, nem sempre de forma harmônica, numa mesma pessoa: o Grande Ubaldo e o Pequeno Ubaldo. O primeiro é disciplinado, educado e cordial. O segundo, hedonista, indolente e irascível. Ubaldo detesta o Pequeno, que o impede de trabalhar, de fazer o que é preciso ser feito, mas no fundo o escritor não saberia viver apenas com o Grande Ubaldo. Nada mais insuportável que uma personalidade metódica. "O problema é que o Pequeno se sobrepõe cada vez mais ao Grande. Ele é chato pra caramba, uma coisa horrorosa, não larga do meu pé. Um preguiçoso", afirma Ubaldo. "Essas duas entidades vivem em permanente guerra dentro de mim. No fundo eu preciso desse equilíbrio de forças, todos nós precisamos."
 
Por enquanto, com o Pequeno Ubaldo vencendo a batalha, os fãs do escritor têm que se contentar com uma edição comemorativa de 30 anos de "Viva o Povo Brasileiro", que será lançada em breve pela Objetiva com prefácio do cineasta Cacá Diegues. Ao contrário de outras obras, como "Sargento Getúlio", que virou filme, em 1983, dirigido por Hermano Penna; "O Sorriso do Lagarto", minissérie da TV Globo, adaptada em 1991 por Walter Negrão; e "A Casa dos Budas Ditosos", sucesso no teatro com Fernanda Torres, até hoje o seu livro mais cultuado não foi adaptado para nenhum formato, apesar de a história ser cobiçada por vários diretores ao longo dos anos - Walter Avancini (1935-2001) sempre sonhou em dirigir um longa-metragem sobre "Viva o Povo Brasileiro". "Ele [Avancini] queria muito, mas, infelizmente morreu antes", diz Ubaldo, que gosta das adaptações de "Sargento Getúlio" e de "A Casa dos Budas Ditosos". A minissérie da Globo Ubaldo começou a ver, mas desistiu logo nos primeiros capítulos: "Não tem um negro no elenco. E no 'Sorriso do Lagarto' tem - como em todos os meus outros livros - negro a dar com um pau".
 
Depois do café, o escritor sobe vagarosamente a escada que liga o primeiro ao segundo andar do apartamento, onde fica o escritório, território dos acirrados embates entre o Pequeno e o Grande Ubaldo. O Pequeno certamente é responsável pela bagunça: pilhas e pilhas de livros misturados a jornais e revistas, sem nenhuma ordem. Já o Grande Ubaldo responde pela organizada parafernália tecnológica, capaz de causar inveja ao mais nerd dos escritores: dezenas de aplicativos e um computador de última geração que roda seis dicionários ao mesmo tempo, além de um programa que avisa - com a voz da mulher, Berenice - a hora que ele deve tomar os remédios, caso seja dia do indisciplinado Pequeno Ubaldo. O autor lembra que ele foi um dos primeiros da sua geração a adotar o computador. Na época, morando em Berlim, um amigo o alertou que o uso do computador - e o abandono da máquina de escrever -- alteraria para sempre o estilo de seus romances.
 
"Eu achei uma bobagem, mas com o tempo passei a concordar com esse amigo", diz Ubaldo. Ele cita como exemplo a feitura do próprio "Viva o Povo Brasileiro", nascido de uma provocação do editor Pedro Paulo de Sena Madureira, que dizia que "brasileiro só sabia escrever livros 'fininhos', para ser lidos na ponte aérea". O escritor baiano, possuído pelo Grande Ubaldo, escreveu um romance bem extenso, grosso, denso, "para esfregar na cara de Pedro Paulo". E sem a ajuda do computador. "Deu 6 quilos e 700 gramas de papel", lembra-se. Se Ubaldo decidisse alterar algo na página 600, tinha que, automaticamente, mudar uma passagem na página 320. E outra na 195. E mais uma na 56, o que implicava revirar a enorme pilha de papel. Um trabalho braçal que nem o esforçado Grande Ubaldo estava disposto a encarar. "Quase sempre eu desistia de fazer as alterações", diz. Com o surgimento do computador, o escritor passou a dividir o mesmo espaço com o "editor". "Não tenho dúvida de que essa facilidade tirou um pouco da espontaneidade dos meus livros."
 
Leo Pinheiro/ValorUbaldo, que em breve vai a Paris a convite da Sorbonne e só depois retomará novo livro: “Acho papo literário muito chato. Eu vou porque é necessário. Não é um sacrifício, mas prefiro ficar quieto no meu canto”
Que deixem, agora, Ubaldo trabalhar. É com os seus aplicativos - e a disciplina do Grande Ubaldo - que o romancista espera contar a partir de abril, quando pretende, finalmente, dar rumo ao esperado livro. Ele continua um tanto cético, porém, quanto ao destino do romance, que voltou, pelos já sabidos motivos, à estaca zero - o autor nem sabe se serão várias histórias interligadas ou uma só. A única certeza que tem é que será ambientado no Rio. Para chegar lá, Ubaldo faz um pedido: que parem de pedir-lhe opinião sobre tudo. Nos últimos anos, ele falou incontáveis vezes sobre os mesmos assuntos. No topo da lista, o polêmico projeto da ponte que liga Salvador à ilha de Itaparica. "Falei 5.437 vezes sobre o tema." Seguido pela não menos controversa discussão sobre trechos racistas na obra de Monteiro Lobato. Ele lembra que durante uma semana inteira, todos os dias, também falou sobre a sua recusa a ir à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2004 (ele desistiu de participar alegando que a feira priorizava os autores da Companhia das Letras).
 
Atualmente, diz Ubaldo, a moda é perguntar a ele sobre a polêmica da lei das biografias e a atuação de Joaquim Barbosa na presidência do Supremo Tribunal Federal (STF), como se sua opinião sobre o julgamento do mensalão - e sobre a censura prévia - já não tenha sido expressa diversas vezes na coluna semanal.
 
Ubaldo é um crítico feroz do governo Dilma, assim como já era do governo Lula, a ponto de receber um e-mail do ex-deputado José Dirceu pedindo o seu endereço. "Ele disse que desejava que eu conhecesse a versão dele de toda a história e me mandou um livro, que eu nunca li. Não me sinto obrigado", alega. "Não acho que ele [José Dirceu] seja santo nem que deva ser banido da sociedade. Não sinto ódio por ele. Aliás, não sinto ódio de ninguém, não faz parte do meu temperamento." E - para não perder o costume - o que ele acha da atuação de Joaquim Barbosa na presidência do STF? "Não há dúvida que ele tem desempenhado um papel importante", responde. "Mas me formei em Direito. Na minha época, ministro do Supremo era uma figura quase sagrada, não saía dando entrevista por aí ou batendo boca com o colega ao vivo na televisão."
 
Antes de voltar à sala, para o terceiro café deste discreto "À Mesa com o Valor", Ubaldo acomoda-se na cadeira do escritório para o ensaio fotográfico. O fotógrafo pede que o escritor faça "pose de erudito", no estilo "gênio trabalhando", logo ele que detesta esse tipo de coisa - mão no queixo nem pensar. Por fim, Ubaldo é convencido a retirar um livro da estante e abri-lo numa página qualquer. Ele pede que repórter desça à sala e pegue o seu atual livro de cabeceira. É o romance "Fim", da atriz e amiga Fernanda Torres (ela dedica o livro a Ubaldo). "Estou gostando muito. Ela já é uma escritora pronta, madura." O ensaio é feito. Ubaldo esforça-se para atender a todos os pedidos do fotógrafo. É um homem cordial (o novo romance, pelo jeito, não sairá tão cedo). Antes da despedida, vamos à cozinha para mais um café. Há um pote de jaca, fruta muito apreciada pelos baianos, na mesa. O repórter faz a última indagação: "Você gosta de jaca mole ou de jaca dura"? Ubaldo abre um grande sorriso. "De jaca dura", diz. "Está aí uma pergunta que nunca me fizeram."
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