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CORONAVÍRUS

Covid-19 é pior do que mostram os números oficiais

A vida ao ar livre voltou para dentro de casa

27 setembro 2020 - 07h57The Economist, The Economist
Impedir que as pessoas interajam umas com as outras, como o fazem os lockdowns e as limitações ao tamanho das reuniões, é a primeira das três maneiras de diminuir a taxa de reprodução de uma doença
Impedir que as pessoas interajam umas com as outras, como o fazem os lockdowns e as limitações ao tamanho das reuniões, é a primeira das três maneiras de diminuir a taxa de reprodução de uma doença - (Foto: AJ Mast/The Washington Post)
Fort  Atacadista - 21 ANOS

O começo do outono no norte do planeta encontrou a Europa fechando suas portas, tendo adiante um inverno penoso. As alas de terapia intensiva e os leitos hospitalares voltaram a lotar em Madri e Marselha – cidade que, alguns meses atrás, pensava ter mais ou menos eliminado a covid-19. Os governos implementaram novas restrições, como se deu na Inglaterra, retomando medidas impostas poucos meses antes. A vida ao ar livre voltou para dentro de casa. A conversa sobre uma segunda onda reverberou por toda parte.

Do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos viam seus números de mortos oficiais ultrapassar a soma dos números de toda a Europa Ocidental – quebrando a barreira dos 200 mil. A Índia, que vem registrando mais de meio milhão de novos casos por semana durante quatro semanas consecutivas, logo receberá das mãos dos americanos o título nada invejável de país com a maior contagem oficial de casos.

O mundo parece prestes a ver sua milionésima morte oficial por covid-19. É mais do que a Organização Mundial da Saúde (OMS) registrou como vítimas de malária (620 mil), suicídio (794 mil) ou HIV/Aids (954 mil) em 2017, ano mais recente para o qual há dados disponíveis.

Essas mortes representam pouco mais de 3% dos casos de covid-19 registrados, que agora somam mais de 32 milhões. Essa contagem é por si só uma subestimação do número de pessoas infectadas pelo sars-cov-2, o vírus que causa a doença. Muitos dos infectados não ficam doentes. E muitos dos que ficam doentes nunca chegam a procurar um sistema de saúde.

Uma noção melhor, embora ainda imperfeita, de quantas infecções ocorreram desde o início do surto no final do ano passado pode ser obtida em pesquisas sorológicas que cientistas e autoridades de saúde pública vêm realizando em todo o mundo. Eles procuram anticorpos contra o sars-cov-2 em amostras de sangue que foram coletadas para outros fins. Sua presença revela uma exposição passada ao vírus.

Em muitos países, seria necessário um oceano de material para alinhar os números das pesquisas sorológicas com o número de casos oficial. O fato de os dados dessas pesquisas serem irregulares – há muito poucos abertamente disponíveis na China, por exemplo – significa que não é possível calcular a taxa de infecção global diretamente a partir dos dados em mãos. Mas, construindo uma relação empírica entre as taxas de mortalidade, as taxas de casos, a renda média – um indicador razoável da abrangência das testagens – e a soropositividade, é possível atribuir taxas para países onde os dados não estão disponíveis e, assim, estimar um total global.

O gráfico nesta página mostra essa estimativa com base em 279 pesquisas sorológicas de 19 países. O quadro sugere que as infecções já estavam atingindo mais de 1 milhão de pessoas por dia no final de janeiro – quando o mundo em geral estava só começando a ouvir relatos sobre a existência do vírus. Em maio, a taxa mundial parece ter sido superior a 5 milhões de infecções por dia. As incertezas na estimativa são grandes e ficam ainda maiores à medida que você se aproxima do presente, mas ao todo se estima que foram infectadas algo entre 500 milhões e 730 milhões de pessoas em todo o mundo – de 6,4% a 9,3% da população mundial. A OMS ainda não divulgou suas próprias estimativas baseadas em pesquisas sorológicas, embora o trabalho esteja em andamento; mas a organização já apontou para um limite superior em 10% da população global.

Se a doença está muito mais disseminada do que parece, isso quer dizer que ela é proporcionalmente menos mortal do que sugerem as estatísticas oficiais, coletadas sobretudo em países ricos? Quase certeza que sim. Baseando-se em números britânicos, David Spiegelhalter, que estuda a compreensão pública dos riscos na Universidade de Cambridge, calculou que o risco de morte por covid aumenta cerca de 13% para cada ano de idade, o que significa que uma pessoa de 65 anos tem 100 vezes mais probabilidade de morrer do que um jovem de 25. E as pessoas de 65 anos não estão distribuídas uniformemente pelo mundo. No ano passado, 20,5% da população da União Europeia tinha mais de 65 anos, contra apenas 3% da população na África subsaariana.

Também é provável que o número de mortes, assim como o número de casos, esteja significativamente subestimado, porque muitas pessoas morreram da doença sem ter testado positivo para o vírus. Uma maneira de contornar este problema é comparar o número de mortes neste ano com o que se poderia prever com base nos anos anteriores. Esse método de “mortalidade excessiva” se fundamenta na ideia de que, embora as estatísticas oficiais muitas vezes sejam silenciosas ou enganosas quanto à causa da morte, elas raramente se equivocam quanto ao fato de determinada morte de fato ter ocorrido.

Destino

A Economist reuniu dados de mortalidade por todas as causas em países que os registram semanal ou mensalmente, um grupo que inclui a maior parte dos países da Europa Ocidental, alguns da América Latina e mais outros importantes, como Estados Unidos, Rússia e África do Sul. Entre março e agosto, esses países registraram 580 mil mortes por covid-19, mas 900 mil mortes em excesso. A verdadeira taxa da pandemia parece ter sido 55% maior do que a oficial. Essa análise sugere que os números oficiais dos Estados Unidos subestimam o número de mortos em mais de 30% – o Centro de Controle e Prevenção de Doenças americano apresentou uma estimativa semelhante. Isso significa que o verdadeiro número de mortes até agora está provavelmente muito mais perto de 300 mil do que de 200 mil, o que representa cerca de 10% dos 2,8 milhões de americanos que morrem a cada ano – ou, dito de outra forma, metade do número de americanos que sucumbem ao câncer. E ainda tem bastante 2020 pela frente.

Some-se a esse excesso de mortalidade o número de óbitos não registrado em países onde a contabilidade não é boa suficiente para permitir tais avaliações. Com isso, o verdadeiro número de mortos pela pandemia pode chegar a 2 milhões.

O que se pode fazer para retardar seu aumento? A resposta à primeira e vertiginosa ascensão do vírus foi uma avalanche de lockdowns: no momento de sua maior extensão, por volta de 10 de abril, pelo menos 3,5 bilhões de pessoas estavam sob ordens de ficar em casa, fosse por governos nacionais ou regionais. A ideia era conter a propagação da doença antes que os sistemas de saúde entrassem em colapso sob seu peso e, nesse ponto, os lockdowns foram bem-sucedidos. Mas não se revelaram, em si mesmos, uma boa solução: reduziram drasticamente a propagação da doença enquanto estavam vigentes, mas não podiam seguir em vigor para sempre.

Impedir que as pessoas interajam umas com as outras, como o fazem os lockdowns e as limitações ao tamanho das reuniões, é a primeira das três maneiras de diminuir a taxa de reprodução de uma doença, R – o número de novos casos provocados para cada caso existente. A segunda é reduzir a probabilidade de que as interações causem infecção, com níveis obrigatórios de distanciamento social, medidas de higiene e barreiras à transmissão, como máscaras e viseiras. A terceira é reduzir o tempo durante o qual uma pessoa infectada pode interagir com outras pessoas sob quaisquer condições, o que se consegue localizando pessoas que podem ter sido infectadas recentemente e fazendo com que se isolem. Garantir que as pessoas infectadas não tenham tempo para infectar muitas outras requer um sistema de testagem e rastreamento rápido e abrangente.

Vacina

 

(Foto: REUTERS/Dado Ruvic/Illustration)

Quanto aos tratamentos, dois esteroides já amplamente disponíveis, a dexametasona e a hidrocortisona, aumentam a sobrevida ao reduzir a inflamação. Descobriu-se que o Avigan, uma droga japonesa contra a gripe, acelera a recuperação. O Remdesivir, um medicamento desenvolvido para combater outros vírus, e o plasma convalescente – que fornece aos pacientes anticorpos de pessoas que já se recuperaram da doença – parecem oferecer benefícios marginais.

É tentador buscar um tratamento melhor porque, embora os casos diagnosticados na Europa venham subindo abruptamente para o que está sendo visto como uma segunda onda, o número de mortes não os acompanhou: na verdade, ainda mal se moveu. A principal razão, porém, é mais simples. Durante a primeira onda, poucos testes eram feitos e muitas infecções passavam despercebidas. Agora muitos testes estão sendo feitos e muito mais infecções passaram a ser detectadas. Se você corrigir essa distorção, verá que a primeira onda foi muito maior do que aquilo que se vê hoje, o que faz com que a baixa taxa de mortalidade de hoje pareça muito menos surpreendente.

No entanto, o inverno que se aproxima no hemisfério norte é preocupante. Existem muitas evidências de que aquilo que Katrine Bach Habersaat da OMS chama de “fadiga pandêmica” esteja corroendo a mudança no comportamento inicial, bem como de um ressentimento crescente contra outras medidas de saúde pública. O instituto de pesquisa YouGov vem rastreando a opinião sobre esses temas em todo o mundo. O apoio à quarentena entre pessoas que tiveram contato com alguém infectado caiu um pouco na Ásia e bastante no Ocidente, onde baixou de 78% para 63%. Nos Estados Unidos, despencou para 55%.

É verdade que as taxas de infecção estão subindo sobretudo entre os jovens. Mas os jovens não vivem em bolhas. Dados recentes de Bouches-du-Rhône, o departamento francês onde fica Marselha, mostram claramente como um aumento de casos entre jovens se transforma, em poucas semanas, em um aumento de casos em todas as idades.

Mas, à medida que o medo de tais picos aumenta, cresce também a esperança de que eles não se repitam por muito mais tempo. A Pfizer, que tem uma promissora candidata a vacina em fase de testes de eficácia, disse que solicitará uma análise regulatória dos resultados preliminares em outubro, embora os novos padrões da Food and Drug Administration (FDA) não permitam que a empresa o faça nos Estados Unidos tão cedo. Três outras candidatas – da AstraZeneca, da Moderna e da Johnson & Johnson – estão na cola da Pfizer. A vacina da J&J é uma novata: entrou em fase de testes de eficácia apenas em 23 de setembro. Mas, enquanto as outras vacinas precisam de uma segunda dose de reforço um mês depois da primeira injeção, a vacina da J&J pode ser administrada apenas uma vez.

Nenhuma das empresas terá todos os dados dos testes que estão planejando até o primeiro trimestre do ano que vem. Mas, em casos de emergência, os reguladores podem autorizar o uso com base em análises provisórias, se ela atender a um padrão mínimo (neste caso, proteção de metade dos vacinados). Disponibilizar uma vacina que seja só um pouco melhor que o mínimo suficiente pode provocar o colapso do distanciamento social e aumentar as infecções; por outro lado, uma vacina perfeitamente eficaz, mas aprovada de maneira politicamente tóxica, talvez não venha a ser tão aceita quanto deveria.

Mesmo que tudo corra bem, é difícil ver a distribuição se estendendo além de um pequeno número de profissionais de saúde da linha de frente neste ano. Mas, quanto mais cedo as vacinas forem aplicadas, melhor. O acesso à segurança prometida será desigual, tanto dentro dos países quanto entre as nações. Algumas pessoas verão entes queridos que poderiam ter sido vacinados morrerem porque não o foram. Para minimizar essas perdas, será necessário que mais pessoas sejam vacinadas com uma rapidez inédita. É um desafio organizacional extraordinário – que, a julgar pela experiência deste ano, alguns governos enfrentarão bem melhor do que outros. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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