Em 2025 uma francesa sofreu um prejuízo de 830 mil euros, aproximadamente R$5,1 milhões, após realizar transferências bancárias para quem acreditava ser o notório galã de Hollywood Brad Pitt. No entanto, a pessoa com quem ela realmente conversava era um golpista norte-americano que através de imagens criadas por inteligência artificial e manipulação emocional a convenceu a transferir a quantia. O caso levanta o questionamento: como as emoções podem se tornar vulnerabilidades no mundo digital?
A psicóloga, psicoterapeuta e psicanalista Claudia Martins, contou em entrevista ao Giro Estadual de Notícias desta sexta-feira (9), como a situação da francesa, identificada apenas como Anne, não é a única e explicou detalhes importantes para a compreensão desse caso e de muitos outros.
Um exemplo recente foi o da moradora de São Valentim (RS), de 54 anos, que viralizou nas redes sociais após ser abordada pela polícia no aeroporto de Erechim, na noite de 24 de dezembro, dizendo esperar a chegada de Brad Pitt, com quem afirmava que “o plano era a gente se casar” e com quem teria feito várias videochamadas. Em boletim de ocorrência registrado em 5 de janeiro, porém, ela declarou que tudo não passava de uma brincadeira com o filho de 12 anos e que nunca teve contato com golpistas, nem enviou dinheiro ou sofreu prejuízo financeiro. Mesmo assim, a Polícia Civil investiga se houve crime de estelionato e, se isso for descartado, se a conduta dela pode se enquadrar em outro tipo penal.
‘’Tem uma curiosidade do caso de Erechim que quase ninguém mencionou mas que é muito simbólica, isso aconteceu no dia 24 de dezembro por volta das 20h30 um horário que a maioria das pessoas está se preparando para ceia de Natal cercada, ou pelo menos convocada, simbolicamente por família, união e pertencimento do ponto de vista psicológico, psicanalítico, a data fala por si.’’
‘’O Natal é um momento que intensifica os afetos. Para quem está amparado, aquece. Para quem está só, emocionalmente, escancara a falta’’, destacou.
Para Claudia a escolha do momento diz muito sobre a sofisticação da manipulação utilizada no momento de aplicar o golpe. ‘’Os golpistas sabem muito bem escolher os momentos de maior vulnerabilidade das suas vítimas. Datas comemorativas, finais de ano, noites longas, horários emocionalmente carregados. Não é aleatório, é estratégico. Existe uma expectativa social de felicidade, de família reunida, de amor. Quando isso não está plenamente vivido, a dor aparece com mais força. Nesse contexto, uma mensagem, uma chamada de vídeo, uma promessa de presença pode ter um impacto muito maior.’’
A profissional ressaltou ainda que o golpe não deve ser visto como motivo de piada e que pode ocorrer com qualquer um. ‘’Esse caso precisa ser lido com cuidado, empatia e profundidade, não com deboche. Quando a gente olha, por exemplo, para essa mulher com mais cuidado, a primeira coisa que precisa ser dita é, o sofrimento dela não começa nem termina no golpe. Mesmo pessoas emocionalmente estáveis podem sim se envolver quando encontram validação, escuta e reconhecimento. Isso não é fragilidade, é humano.’’
Psicóloga explicou que acreditar no que os golpistas falam não é sinal de ingenuidade, e sim resultado das novas inteligências artificiais. (Foto: Williams Souza)
Segundo a psicóloga não existe um perfil único de pessoas vítimas dos golpes, o que existem são situações de vulnerabilidade emocional que podem ocorrer com qualquer um, a solidão emocional é um desses momentos. ‘’ Quando alguém não se sente visto, reconhecido ou desejado, o vínculo virtual pode ocupar esse lugar. A tecnologia entra com uma prótese afetiva, sustentando algo que parecia real naquele momento.’’
Os avanços tecnológicos e o impacto na percepção de realidade - Em um mundo tão conectado, as novas tecnologias não moldam apenas a rotina de trabalho e as pesquisas rotineiras, e sim alteram a visão de possível e impossível dos indivíduos.
Essa quebra de parâmetros realizada pela Inteligência Artificial altera a percepção de realidade, como explicou: ‘’A inteligência artificial hoje cria uma identidade com rosto, voz, expressões, respostas emocionais e continuidade narrativa. Não é só texto, há uma imagem, há som, há presença. Do ponto de vista psicológico, ver e ouvir alguém produz efeito de realidade. O cérebro humano reconhece rosto, voz, interação como sinais de existência. Por isso a fronteira entre fantasia e realidade pode se confundir muito rapidamente, mesmo em pessoas com juízo de realidade preservado.
Claudia adverte que essa confusão não deve ser lida como delírio e exemplifica utilizando o caso de Erechim. ‘’ O delírio acontece quando a pessoa sustenta a crença, apesar de todas as provas contrárias. Nesse caso, acontece o oposto, quando a realidade aparece e ela se sente exposta, ela tenta contar uma outra história. Isso mostra que o contato com a realidade existe. O que houve foi uma ilusão sustentada tecnologicamente.’’
Claudia adverte que essa confusão não deve ser lida como delírio - (Foto: Williams Souza)‘’A IA permite algo novo e perigoso, uma fantasia com aparência de real. Antes a fantasia era interna, agora ela vem apoiada por imagem, voz, coerência narrativa e interação em tempo real. Isso confunde muito rápido, porque o psiquismo humano não foi preparado para distinguir afeto real de afeto simulado com tamanha sofisticação. Se tratando de IA, qualquer pessoa pode cair. Não é falta de inteligência, não é carência extrema e não é doença mental, é encontro entre vulnerabilidade emocional humana e uma tecnologia que simula a presença de forma convincente’’, explicou.
Para a especialista casos como esses revelam possíveis perigos das novas ferramentas e obrigam a sociedade a mudar a perspectiva em relação às vítimas. ‘’Esse caso nos obriga a mudar a pergunta, não é como alguém acreditou nisso. É como o nosso psiquismo lida com uma tecnologia que cria pessoas que não existem. É por isso que esse tipo de golpe não deve ser tratado como ingenuidade ou piada, mas como um novo risco psíquico da era digital, que pode atingir qualquer pessoa. O vínculo é criado antes de qualquer pedido financeiro. Existe constância, espelhamento emocional, promessa de exclusividade. Quando esse espelho quebra, primeiro com a descoberta do golpe e depois com a exposição pública, o impacto não é só decepção, é desorganização emocional.’’
Em relação ao comportamento dos golpistas a psicóloga finaliza: ‘’Nessa situação ele se assemelha mais a um psicopata do que a um antissocial, porque ele não é impulsivo, ele é estratégico, ele tem sucesso, ele conquista.’’
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