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CAPITAL

Fechamento da rodoviária pode elevar a migração dos passageiros para o transporte clandestino

3 junho 2020 - 10h31 Por Rosana Siqueira

A determinação da Prefeitura de Campo Grande, que por meio de decreto suspende pelo período de 30 dias, a contar de amanhã (5), todas as atividades do Terminal Rodoviário de Campo Grande caiu como um "balde de água fria" sobre o setor de transportes municipal e intermunicipal. Com perdas acima de R$ 13 milhões e pelo menos 400 demissões recentes, o segmento alega que cumpre todas as medidas de biossegurança como desinfecção dos ônibus, distanciamento seguindo as recomendações da OMS (Organização Mundial de Saúde). E mais, alerta as autoridades que a medida de fechar a rodoviária da Capital suspendendo o transporte intermunicipal e interestadual pode levar a população a migrar para o transporte clandestino entre as cidades.

O assunto foi tema de um entrevista dupla nesta quarta-feira (3) no Giro Estadual de Notícias, com o diretor-presidente de Agência Municipal de Regulação de Serviços Públicos, Vinícius Campos e o presidente do Rodosul (Sindicato das Empresdas de Trnbasportes de Passageiros no estado de MS), Cesar Possari.

O diretor-presidente da Agereg, esclareceu na sua entrevista, que a necessidade da suspensão das atividades do Terminal Rodoviário de Campo Grande, dá-se para o enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do novo coronavírus. "A situação demanda medidas urgentes de prevenção, controle e contenção de riscos, danos e agravos à saúde pública, a fim de evitar a disseminação da doença", salientou.

A Agência Municipal de Regulação dos Serviços Públicos em ato conjunto com o Gabinete do Prefeito, poderá expedir normas complementares, relativamente à execução deste decreto, e decidir casos omissos. O prazo estabelecido poderá ser prorrogado por igual período.

Á dir. o diretor-presidente de Agência Municipal de Regulação de Serviços Públicos, Vinícius Campos. Á esq. o presidente do Rodosul (Sindicato das Empresdas de Trnbasportes de Passageiros no estado de MS), Cesar Possari

O descumprimento da suspensão prevista no art. 1º deste Decreto importará na rescisão da outorga onerosa, apreensão imediata do veículo de transporte, público ou particular, sem prejuízo do ajuizamento de ações penais e cíveis, bem como da aplicação de sanções administrativas.

"As ações foram tomadas após o aumento nos casos no interior do Estado, principalmente na região sul.  A recomendação para que fechasse a rodoviária visa resguardar a população da Capital do interior onde tem focos neste momento. A ideia é evitar o fluxo de pessoas entre interior e Campo Grande", esclareceu.

Campos lembra que diante da dinâmica da doença e a forma do contágio é rápido a Prefeitua foi obrigada a tomar medidas de acordo com o número de contaminados.

Com relação as viagens clandestinas, o diretor destacou que a Prefeitura está solicitando apoio do Governo para fazer barreiras sanitárias na entrada da Capital para tentar barrar as viagens clandestinas.

"Sabemos que existe o transporte clandestino. Mas neste momento achamos que a medida mais adequada é fechar o terminal . Vamos pedir ajuda ao governador para que façamos barreiras sanitárias nas entradas de Campo Grande  para tentar segurar o fluxo de transporte clandestino que a gente sabe que há", sinalizou lembrando que as fiscalizações vão aumentar para inibir estas viagens.

O diretor conclamou a população a evitar o deslocamento neste momento e usar a máscara. "O que estamos tentando passar é para que as pessoas fiquem em casa. Nosso isolamento é o 3º mais baixo do Brasil. A população de Campo Grande, do MS tem a sensação que passamos já pela covid, mas ainda não passamos. É uma batalha diária, o que fizer hoje vai ter reflexo em quinze dias. Sabemos que a medida é dura para o setor, mas temos um diálogo aberto com o segmento", finalizou.

Outro lado - Na outra ponta da linha, as empresas de transporte penam com o novo fechamento e paralisação das atividades na Capital. O presidente da Rodosul, Cesar Possari destaca que desde o início o setor sugeriu a execução de barreiras sanitárias com servidores do município, Governo e até Exército.  

"Na primeira vez que a rodoviária foi fechada, nos propusemos que fossem feitas barreiras e não tinha gente no Estado. Sugerimos chamar o Exército, o que foi considerado inviável. Então propusemos colocar enfermeiros particulares, que seriam pagos metade pelo setor, mas não foi necessário. Além disso uma das concessionárias doou uma câmara de desinfecção de cloro e estamos há 21 dias parados sem a instalação do equipamento", explicou Possari.

Ele diz que em meio a tudo isso existem os novos meios de locomoção como táxis, vans, uber, avião e aplicativos que acabam recebendo a migração destes passageiros. "Estão parando o único meio que poder publico tem de fazer a barreira, que é o transporte oficial de passageiros", afirmou.

Possari lembrou ainda da função social do setor. "Temos uma função social no transporte intermunicipal, que é a de locomover pessoas doentes que precisam de exames detalhados em cidades de maior porte como Campo Grande. Quem tem câncer, tem que fazer hemodiálise. Estamos  rodando com 50% da capacidade nos ônibus e ninguém faz isso. Nem o avião", argumentou.

O presidente da Rodosul ainda destacou as medidas de biossegurança adotadas. "Não viaja passageiro ao lado, nem atrás de ninguém a não ser seu filho sua mãe, ou alguém da família que precisa de cuidados", explicou.

Sobre os prejuízos no setor, Possari destaca que num primeiro momento são mais de R$ 13 milhões por conta dos dias parados. "Estamos trabalhando junto ao departamento jurídico com a idéia de acionar as prefeituras que pararam os transportes pedindo subsídios neste sentido", avaliou.

As demissões também se avolumam no setor. "Duas empresas já demitiram 350 pessoas e tem uma outra demitindo mais 50 na data de hoje. O cenário é complicado e a situação é delicada", salientou.

Com relação a preocupação de avanço da doença, Possari destaca o temor com crescimento do transporte clandestino. "Queremos que o poder público implante mais barreiras, porque da forma que está sendo feito, fechando a rodoviária, acredito que estamos empurrando estas pessoas que tem baixo poder aquisitivo para o transporte clandestino. Elas vão deixar de usar um meio eficiente de fiscalização que é o transporte oficial em veículos desinfectados com tudo que é mais moderno e irão para o transporte popular sem higiene nenhuma", concluiu.

A entrevista completa você confere no áudio.