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23 de fevereiro de 2026 - 18h27
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POLÍCIA CIENTÍFICA

Dentro do laboratório sigilo, lixo de DNA e cenas preservadas definem o futuro dos inquéritos

23 fevereiro 2026 - 11h30 Por Da Redação

Por trás de cada laudo de DNA que chega às delegacias, existe um trabalho silencioso, cercado de sigilo, regras rígidas e muita paciência. Diretora do Instituto de Análises Forenses e perita criminal desde 2010, Josemirtes Prado da Silva é hoje a mais antiga na área em Mato Grosso do Sul.

Da trajetória acumulada em mais de uma década de serviço, ela leva duas mensagens principais à população: o banco genético não revela doenças nem características físicas, e mexer na cena do crime pode atrapalhar – ou até inviabilizar – a prova.

“A gente trabalha com aquilo que a gente fala que é o DNA de lixo, que ele não dá característica nenhuma da pessoa, a única coisa que ele fornece é o sexo da pessoa, mais nada, é só números”, afirma, ao comentar o medo de que exames genéticos possam expor informações íntimas. Segundo Josemirtes, as sequências analisadas em investigação não permitem saber se a pessoa tem doenças ou traços comportamentais, limitação que também está prevista na lei que criou a identificação por perfil genético no Brasil.

DNA de “lixo” e sigilo absoluto - Quando se fala em banco de DNA, uma das primeiras dúvidas é sobre privacidade. A perita separa essa discussão em duas frentes. A primeira é a ideia de que a polícia poderia descobrir doenças ou tendências a partir do material genético coletado.

“A maioria da população pensa assim: ‘Ah, vai descobrir se eu tenho doença’. Não tem nada”, garante. O que se usa em perícia, explica, é um conjunto específico de regiões do DNA que não codificam características do indivíduo. Por isso, são chamadas informalmente de “DNA de lixo”. “Não vai ter nenhuma chance da gente descobrir doença, quem foi, pelo rosto, por nada”, reforça.

A segunda preocupação é com o uso e o acesso aos dados. Aqui, o procedimento é padronizado: quando a amostra entra no laboratório, ela perde qualquer informação pessoal e vira um número. “Ele chegou no laboratório, ele leva o número. Então, a partir do momento que ele entra para fazer os exames, o perito criminal que está realizando esse exame, ele não sabe quem é, nem o que se trata”, explica.

Só na etapa de laudo é que o nome associado àquele número volta a aparecer. “Ele não sabe o nome, ele só vai descobrir o nome quando ele for digitar o laudo”, afirma.

Segundo Josemirtes, todos os peritos assinam termo de sigilo ao ingressar no laboratório. Como os bancos fazem parte de uma rede nacional, há também regras específicas definidas por um comitê gestor. “Quando a gente entra no laboratório, a gente assina um termo de sigilo. Então, a gente não pode dizer nada, até no comitê, porque essa rede, como ela é a nível do Brasil, tem um comitê gestor. Então lá nós temos regras. E dentre essas é que a gente não pode falar nada, porque a gente pode responder criminalmente”, ressalta.

Hoje, esses bancos estaduais integram a Rede Integrada de Bancos de Perfis Genéticos, coordenada pelo Ministério da Justiça, justamente para permitir troca segura e padronizada de perfis entre todas as unidades da federação.

A perita mais antiga e a adrenalina de “caçar” vestígios - Josemirtes entrou na área em 2010. Ao ser provocada pelo entrevistador – que brinca dizendo que ela “está novinha” na profissão –, responde sem hesitar: “Não, eu sou a mais antiga aqui no estado de Mato Grosso do Sul”. A experiência, diz ela, muda a forma de olhar cada novo caso.

“Você entra para o laboratório, aí você começa a fazer os casos. Cada caso é um caso e você se empolga querendo descobrir”, conta. Ela relembra um episódio emblemático, em que praticamente tudo o que havia era o depoimento da vítima.

“Eu, por exemplo, participei de um caso que tinha apenas uma camisola e tinha um sangue. E o sangue era da vítima, mas ela falava que era o ex-marido e que tinha a estuprado. Mas não tinha prova nenhuma, porque era a palavra dela”, narra. A camisola ficou guardada por três meses, por medo.

Perita explica bastidores do DNA forense, sigilo dos dados e importância de preservar a cena do crime.

“Ela tinha muito medo do ex-marido”, diz a perita. Só depois de muita conversa com uma amiga é que a vítima decidiu entregar a peça para análise. No laboratório, a equipe percebeu que precisaria ir além do óbvio.

“O sangue era da autoria. Agora, o que nós vamos fazer?”, lembra ela, reproduzindo a pergunta que ecoou na bancada. A saída foi olhar para os detalhes físicos do objeto. “Aí aquilo é uma coisa assim, é tipo, você assai mesmo, você fica empolgado. Vamos ver mais ou menos aonde, porque a camisola estava rasgada, aonde ele pegou para rasgar.”

Com cálculos de distância entre uma mão e outra e buscando pontos de contato onde poderia ter ficado suor e células da pele, o laboratório conseguiu muito mais do que sangue da vítima. “A gente conseguiu buscar o perfil perfeito de uma pessoa do sexo masculino, por causa da descamação da mão, na hora do suor, né? Você soa muito. A gente conseguiu pegar e aí o delegado, ele… Nós já comunicamos a delegacia, o delegado encaminhou ele e era o perfil dele”, conta.

O DNA foi a única prova objetiva. “Foi a única prova que tinha. Porque era a palavra dela contra dele. E aí ele não teve mais como negar”, afirma.

Preservar o local é tão importante quanto coletar o DNA - Se o trabalho dentro do laboratório é técnico, fora dele a perícia depende da colaboração de policiais e da própria população. A preservação da cena é, para Josemirtes, condição básica para que o DNA possa cumprir seu papel.

“A preservação de local de crime é de suma importância, porque o perito, quando ele chega, ele vai analisar o local. Então, ele vai dizer quais são as provas, os vestígios que estão relacionados ali e que estão relacionados com aquele crime”, explica.

Ela usa um exemplo simples: alguém pode estar mastigando um chiclete, jogar fora ao passar por ali e, sem saber, contaminar a cena. “Se você estiver chupando um chiclete, jogar ali, chegar e jogar no local e o perito entender que aquilo faz parte daquele local, ele vai encaminhar o local, nós vamos ter um perfil genético e nunca vai aparecer o dono. Porque ele não era”, alerta.

O mesmo vale para bitucas de cigarro, copos descartáveis, latas e qualquer objeto que possa guardar células da boca ou da pele. Por isso, a recomendação é clara: não entrar na área do crime e não mexer em nada até a chegada da Polícia Científica. “É muito importante não adentrar os locais de crime. Deixar a polícia científica fazer o trabalho, coletar os vestígios, só depois que liberar o local, aí sim”, orienta.

A realidade, segundo ela, já foi bem mais complicada. “Antigamente você chegava no local e estava todo mundo lá dentro. A imprensa, você tinha que estar pedindo. Alguém já tinha jogado água para limpar o sangue. Você tinha que estar pedindo para as pessoas saírem, para você poder trabalhar”, lembra.

Hoje, há mais consciência. “Agora já está tendo uma conscientização melhor. A própria PM, a delegacia, os policiais civis, quando vão, já protege mais o local. Então, isso é muito bom para o DNA. Porque não adianta eu ter milhões de vestígios sem ter autor e nem ter o autor, para que o perito possa coletar o vestígio verdadeiro, não ilusório, para a gente resolver aquele crime”, afirma.

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