Antonio Perez | 23 de fevereiro de 2026 - 19h45

Dólar cai a R$ 5,16 e acumula baixa de 5,8% no ano

Moeda reage a enfraquecimento global do dólar e nova configuração das tarifas dos EUA

ECONOMIA
Dólar fecha a R$ 5,16 e registra o terceiro pregão consecutivo de queda no mercado doméstico. - (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

O dólar abriu a semana em leve queda e encerrou o pregão desta segunda-feira (23) com recuo de 0,14%, cotado a R$ 5,1686. Foi o menor valor de fechamento desde 28 de maio de 2024, quando terminou a R$ 5,1540. Trata-se do terceiro pregão consecutivo de baixa da moeda americana no mercado doméstico.

Em fevereiro, o dólar já acumula desvalorização de 1,51%, após queda de 4,40% em janeiro. No acumulado do ano, a retração chega a 5,84%, colocando o real como a moeda latino-americana com melhor desempenho no período.

Ao longo do dia, a divisa chegou a tocar a máxima de R$ 5,1908 logo no início dos negócios, mas passou a operar em queda na maior parte da sessão. Pela manhã, rompeu o piso de R$ 5,15 e atingiu mínima de R$ 5,1398. À tarde, com a virada do petróleo para o campo negativo e a redução das perdas do dólar no exterior, a cotação voltou a rondar os R$ 5,16.

O movimento ocorre em meio à desvalorização global do dólar, apesar de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter anunciado no fim de semana a elevação de tarifas globais de 10% para 15%.

Analistas avaliam que a nova configuração da política comercial americana é favorável ao Brasil, após a Suprema Corte dos EUA declarar ilegais as chamadas tarifas recíprocas. Com isso, setores que enfrentavam tarifas de até 50% passaram a ter alíquotas limitadas a 15%.

Para o economista-chefe da Pantheon Macroeconomics para a América Latina, Andres Abadia, o cenário beneficia moedas emergentes com juros elevados. “Com taxas de juros reais elevadas e um mercado profundo e líquido, o real se beneficiou mais que seus pares”, afirma.

Segundo ele, a redução das tarifas é positiva na margem para o Brasil. “Setores que enfrentavam tarifa de 50% ganham competitividade com taxa global de 15%. Isso reduz a pressão sobre os exportadores brasileiros e fortalece ligeiramente a posição externa do Brasil.”

O índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes, recuava cerca de 0,10% no fim da tarde, ao redor de 97,700 pontos, após mínima de 97,355. No ano, o indicador acumula queda superior a 0,60%.

As taxas dos Treasuries caíram de forma generalizada, com recuo superior a 1,5% no rendimento dos papéis de 10 anos. Ao mesmo tempo, as bolsas de Nova York registraram perdas acima de 1%.

O economista-chefe da WHG, Fernando Fenolio, aponta que há um debate nos EUA sobre possíveis efeitos deflacionários acelerados com o avanço da inteligência artificial. “Há a perspectiva de que a inteligência artificial afete vários mercados, o que pode levar a aumento do desemprego e desaceleração do PIB”, afirma.

Segundo ele, esse cenário contribui para a queda dos juros americanos e enfraquece o dólar. “Com essa discussão, os juros americanos fecham e o dólar perde valor, o que beneficia o real.”

Fenolio calcula o valor justo do câmbio em R$ 4,90 e avalia que o real ainda está levemente depreciado. “O dólar pode cair até R$ 4,70 ou R$ 4,50”, projeta.

A consultoria 4intelligence destacou o anúncio do Banco Central, na sexta-feira, de que iniciará a rolagem dos contratos de swap cambial com vencimento em 1º de abril. Segundo a análise, a comunicação indica que o estoque com vencimento em 2 de março pode não ser renovado integralmente.

Até sexta-feira, o BC ofertou 725 mil contratos de swap tradicional, abaixo dos 750 mil previstos para resgate, o que reduziu o estoque em US$ 1,25 bilhão, para US$ 98,75 bilhões.

“Neste ano, o BC já resgatou liquidamente US$ 1,4 bilhão. Provavelmente, o fluxo cambial positivo observado neste ano, a melhora na percepção de risco soberano e a continuidade do enfraquecimento do dólar frente ao real resultaram numa menor demanda por hedge junto ao BC”, afirmou a 4intelligence em nota.