23 de fevereiro de 2026 - 13h15

Em Seul, Lula prioriza parceria tecnológica com Coreia e quer agregar valor a minerais

Presidente defende cooperação em semicondutores, saúde e economia criativa durante fórum com 230 empresas

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Lula participa de fórum empresarial em Seul e defende parceria tecnológica entre Brasil e Coreia do Sul. - (Foto: Imagem ilustrativa/A Crítica)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, nesta segunda-feira (23), em Seul, que o Brasil quer aprofundar a cooperação com a Coreia do Sul em setores intensivos em conhecimento e reduzir a dependência da exportação de matérias-primas. A declaração foi feita no encerramento de um fórum empresarial que reuniu 230 empresas brasileiras e sul-coreanas, dentro da agenda oficial do chefe do Executivo no país asiático.

No discurso, Lula apontou áreas estratégicas para ampliar a parceria bilateral, como semicondutores, baterias, minerais críticos, saúde, indústria aeroespacial, cosméticos e economia criativa. Segundo ele, o Brasil precisa avançar na agregação de valor à sua produção.

“A Coreia é o segundo maior produtor mundial de semicondutores e detém parcela significativa do mercado de baterias. O Brasil possui minerais críticos que são insumos essenciais para as cadeias de produção de eletrônicos e veículos elétricos e é um parceiro confiável em um cenário em que a arbitrariedade está se tornando a regra”, afirmou.

O presidente ressaltou que o país busca mudar sua posição na cadeia produtiva global. “O papel de meros exportadores de matérias-primas não condiz com nosso potencial. Buscamos parcerias que nos permitam agregar valor e produzir tecnologia de ponta em solo brasileiro”, destacou.

Um dos eixos centrais da fala foi a possibilidade de cooperação na exploração e no processamento de minerais estratégicos, considerados essenciais para a indústria de alta tecnologia e para a transição energética.

O acordo firmado entre os dois países inclui foco no fortalecimento da cooperação industrial, tecnológica e agrícola. Segundo Lula, a iniciativa também prevê a criação de cadeias de suprimentos resilientes e seguras, com inovação em minerais estratégicos, indústrias sustentáveis e no setor audiovisual. Os ministérios dos dois países passarão a se reunir regularmente para discutir o avanço das relações econômicas.

A corrente de comércio entre Brasil e Coreia do Sul gira em torno de US$ 11 bilhões, abaixo do recorde de quase US$ 15 bilhões registrado em 2011.

“Significa que nós já fomos melhores em negócios”, disse Lula, ao mencionar que a Agência Brasileira de Promoção de Exportações (ApexBrasil) identificou 280 oportunidades para produtos brasileiros no mercado coreano, que vão de alimentos e bebidas a produtos químicos.

Saúde, espaço e inovação - Na área da saúde, Lula mencionou a possibilidade de fabricação conjunta de vacinas, fármacos e insumos médicos. Ele citou o avanço da Coreia do Sul em pesquisa e desenvolvimento e destacou que o Brasil está construindo o laboratório de biossegurança Órion, conectado ao acelerador de partículas Sirius.

“Isso nos permitirá buscar soluções para doenças, desenvolver métodos de diagnóstico e prevenir epidemias. Instituições públicas de saúde, como a Fiocruz e outras fundações estaduais brasileiras, estão fortalecendo sua cooperação com a Coreia”, afirmou.

No setor aeroespacial, o presidente lembrou as operações da start-up sul-coreana Innospace no Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, e classificou como “crucial” o diálogo entre as agências espaciais dos dois países, inclusive para o compartilhamento de dados de satélites e projetos de exploração lunar.

Lula também destacou o potencial de cooperação no setor de cosméticos. Segundo ele, em 2025 o segmento de beleza brasileiro superou pela primeira vez a marca de US$ 1 bilhão em exportações. Já a indústria sul-coreana rivaliza com a francesa no mercado global.

“O Brasil tem a maior biodiversidade do mundo. Unindo o potencial brasileiro à tecnologia coreana, podemos multiplicar nosso alcance nesse setor”, afirmou.

Ao tratar da economia criativa, o presidente citou o peso do setor nos dois países. Na Coreia, a economia criativa supera as exportações de setores tradicionais como eletrodomésticos. No Brasil, representa mais de 3% do Produto Interno Bruto (PIB), percentual superior ao da indústria automobilística, e apresenta média de geração de empregos acima da nacional.

“Do funk brasileiro ao K-Pop, de Parasita a Agente Secreto, das telenovelas aos K-Dramas, nossa música e nossa produção audiovisual estão conquistando os quatro cantos do mundo”, disse.

Agronegócio e mercado de carnes - Lula informou que o Brasil trabalha há 15 anos para obter acesso ao mercado sul-coreano de carne bovina e afirmou que o país está preparado para cumprir os procedimentos sanitários necessários.

“O papel do líder político é abrir a porteira para que os empresários façam negócios. Quando o povo da Coreia quiser ter acesso à proteína, não se preocupe que o Brasil estará pronto para atender à demanda da Coreia”, declarou.

Ele também citou programas implementados em sua gestão que buscam atrair investimentos estrangeiros, como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o Nova Indústria Brasil (NIB), o Programa Mobilidade Verde e Inovação (MOVER) e o Plano de Transformação Ecológica.

Durante o discurso, o presidente voltou a defender o multilateralismo e criticou o uso do comércio como instrumento de disputa internacional.

“A melhor resposta à tentativa de usar o comércio como arma é mostrar que é possível alcançar entendimentos mutuamente benéficos por meio do diálogo e da negociação”, afirmou.

Para ele, o protecionismo dificulta o crescimento econômico e social. “O que nós estamos precisando é fazer com que as economias cresçam, gerar oportunidade de trabalho para poder melhorar a qualidade de vida das pessoas que nós representamos [...]. É preciso que a gente tenha noção de que somente o desenvolvimento do trabalho pode permitir que a gente resolva o problema da fome”, disse.

Lula também comparou a trajetória econômica dos dois países. Segundo ele, na década de 1960 o PIB per capita da Coreia do Sul era inferior à metade do brasileiro e hoje é três vezes maior. Enquanto o Brasil tinha produção industrial superior até os anos 1980, atualmente a Coreia é referência mundial em tecnologia.

“Nos anos 1990, enquanto o Brasil se rendeu ao receituário neoliberal, a Coreia continuou apostando no papel indutor do Estado em setores estratégicos. Nenhum país que chegou atrasado à corrida industrial conseguiu subir a escada do desenvolvimento sem políticas públicas robustas”, afirmou.

“A experiência coreana prova que elevar a escolaridade da população é um investimento valioso. Demonstra, além disso, que um crescimento sustentado depende de uma economia variada e sofisticada, capaz de absorver mão de obra muito qualificada”, completou.