Banco de DNA liga crimes em série e ajuda a provar estupros em MS
Ferramenta da Polícia Científica conecta cenas de crime, cruza dados com outros estados e transforma a palavra da vítima em prova técnica nos tribunais
DNAQuem assiste a séries policiais já está acostumado a ver o DNA como a peça que falta para desvendar crimes. Em Mato Grosso do Sul, essa tecnologia deixou faz tempo o universo da ficção e hoje é rotina no trabalho da Polícia Científica.
À frente do Instituto de Análises Forenses, a perita criminal Josemirtes Prado da Silva explica ao Giro Estadual de Notícias desta segunda-feira (23) que o banco de perfis genéticos já reúne milhares de registros e vem ajudando a esclarecer estupros, assaltos e até casos que cruzam fronteiras.
“Todo o perito criminal vai a um local de crime, ele coleta os vestígios que estão relacionados com aquele crime e ele é encaminhado para o laboratório. Lá a gente faz uma análise, extrai o perfil genético. E esse perfil é inserido num banco de perfil genético”, resume. A partir daí, qualquer vestígio deixado pela mesma pessoa em outro crime pode ser conectado. E, quando há perfis de condenados cadastrados, o sistema pode apontar o autor mesmo sem que o nome dele tivesse surgido na investigação.
Para além do glamour dos seriados, o DNA tem impacto direto em casos em que quase não há provas. Josemirtes cita os crimes sexuais, em que, muitas vezes, tudo começa e termina na narrativa das partes.
“Ele é muito importante porque, às vezes, vamos dizer o exemplo aqui de crimes sexuais, que é a palavra da vítima e mais nada”, aponta. Nesses casos, o material coletado no Instituto Médico Legal (IML) vira a peça-chave. “A partir desse vestígio que é coletado no IMOL, a gente consegue colocar no banco de perfil genético. E aí, quando o delegado tiver um suspeito, ele encaminha para o laboratório para a gente fazer esse confronto. Ou, através do banco mesmo, se tiver um condenado já com perfil no banco, a gente pode identificar esse autor", explica.
Ela reforça que esse tipo de exame é “bem crucial” na hora de decidir sobre a condenação de um suspeito. A fala é ilustrada por um caso concreto, ocorrido em um município de Mato Grosso do Sul na divisa com São Paulo.
Estupro em 2022 resolvido com coincidência em 2024 - Em 2022, uma vítima de estupro foi atendida no Instituto Médico Legal. O médico legista coletou o material genético, que foi enviado ao laboratório e transformado em um perfil inserido no banco. Na época, não havia suspeito identificado.
“Ele ficou em aberto, ou seja, não tinha autoria. E estava no banco e não tinha nenhum autor”, conta Josemirtes. O cenário só mudou em 2024, quando começou uma campanha nacional para coleta de DNA de condenados, prevista em lei federal desde 2012, que autorizou o uso do perfil genético como forma de identificação criminal e determinou o armazenamento em bancos gerenciados pela perícia oficial.
“Quando foi em 2024, que começou a campanha nacional de coleta de condenados, onde todos os estados da federação começaram a fazer essa campanha mais afirrada”, recorda. Foi aí que São Paulo coletou o DNA de um condenado em Sorocaba e inseriu o perfil no sistema.
O resultado apareceu em forma de coincidência: o perfil do condenado paulista bateu com o vestígio do estupro sem autoria registrado em Mato Grosso do Sul. “Quando São Paulo coletou em Sorocaba e colocou no banco, ele deu coincidência com esse crime de estupro que estava em aberto nesse município, divisa com São Paulo”, relata.
A partir desse ponto, a perícia emitiu laudo, comunicou a delegada responsável e houve contato com a polícia de São Paulo. “Conseguiu resolver um caso que estava aberto e que provavelmente iria ficar aberto, porque ele já tinha ido para outro estado”, avalia a diretora.
Cinco etapas até o laudo final - Se na TV o resultado sai quase em tempo real, na vida real o caminho é bem mais longo – e, segundo a perita, isso é essencial para garantir a segurança da prova. Ela explica que o prazo nunca é fixo, porque depende da condição da amostra recolhida no local de crime.
“A gente nunca diz assim um tempo certo, porque depende muito da amostra. Se for uma amostra que tiver no tempo, ele sofre a ação do vento, das ações climáticas. Então é uma amostra mais complicada. Se for uma amostra, por exemplo, de osso carbonizado, ele sofreu alta degradação, então ele demora um pouco mais”, detalha.
Por isso, quando alguém reclama que está “demorando muito”, o que acontece, na prática, é um trabalho minucioso para conseguir um perfil que possa sustentar uma decisão judicial. “Não é que está demorando muito, é que a gente está trabalhando a amostra para conseguir um perfil bem de qualidade, para que possa se afirmar com certeza que é daquela pessoa. Porque é uma prova que você está direcionando para prender alguém. Então, você tem que ter bastante segurança nisso”, enfatiza.
No laboratório, o exame de DNA passa por pelo menos cinco etapas:
Triagem – escolha da melhor amostra entre os vestígios coletados.
Extração – retirada do DNA propriamente dito.
Quantificação – verificação se aquela amostra tem DNA suficiente e de boa qualidade.
Amplificação – aumento da quantidade de DNA, já que vestígios de locais de crime costumam trazer material em pequena quantidade.
Detecção – momento em que o perfil genético aparece para ser interpretado.
“O DNA não é tão simples. Cinco fases. Você chega, faz a triagem para ver qual é a melhor amostra, aí você faz a extração. Depois que você fez a extração do DNA em si, você leva para quantificação. Se ali, naquele momento, você ver que não tem, você volta para a bancada e faz uma nova extração com material”, descreve.
Em alguns casos, a equipe precisou insistir muitas vezes até chegar a um resultado. “Nós já tivemos ossada que precisou fazer umas 20 extrações para a gente conseguir um perfil de qualidade”, revela. Só então o exame segue para a parte final.
“Quando a gente quantifica, depois a gente vai amplificar, que a gente vai fazer o quê? Aumentar essa quantidade de DNA, porque essas amostras de locais de crimes, elas vêm com muito pouco DNA. Aí depois que vai pra fase de detecção. Só que ali, terminou o exame, não. Não terminou, porque você tem que fazer estatística”, afirma.
Segundo ela, o laboratório trabalha com 26 regiões genéticas, cada uma com frequências conhecidas na população. A ideia é mostrar matematicamente que aquele perfil não poderia, por acaso, pertencer a outra pessoa. “Você tem que provar estatisticamente que não tem outra pessoa na população que poderia ter feito esse crime. Só então a gente vai fazer o laudo para encaminhar para o delegado.”
DNA que cruza fronteiras e liga crimes diferentes - A tecnologia do banco genético não aproxima apenas vítimas e autores, mas também diferentes cenas de crime e diferentes estados. Josemirtes se anima ao falar das coincidências que aparecem quando novos perfis entram no sistema.
“Nós ficamos super felizes quando a gente coloca uma amostra, demora um tempo, na mesma hora a gente consegue ver que a gente obteve uma coincidência com de outros estados”, conta. O primeiro caso que marcou o laboratório envolveu um assalto na agência do Banco do Brasil durante uma exposição agropecuária em Mato Grosso do Sul.
“Teve um assalto na exposição aqui, na agência do Banco do Brasil. E lá houve-se uma explosão. E o autor, ele deixou lá um sangue. O perito foi ao local, que acho que ele deve ter se cortado, e coletou aquele material e mandou. Aí nós colocamos no banco esse perfil do sangue”, lembra.
Meses depois, um crime de grande repercussão aconteceu no Paraguai, perto de Foz do Iguaçu, no ataque à empresa de transporte de valores Prossegur. “Quando teve esse crime lá, a Polícia Federal trabalhou com muitas amostras. Então, em uma dessas amostras dos autores que tinham falecido, coincidiu com o que a gente tinha aqui da explosão do caixa eletrônico. Ou seja, três meses antes desse crime, ele estava no Mato Grosso do Sul”, relata.
O suspeito acabou morrendo na ação do Paraguai. “Se ele não tivesse falecido, a gente conseguiria esse autor”, avalia a perita. O caso ilustra como a troca de informações entre estados e países vizinhos muda o patamar das investigações.
Essa cooperação hoje é amparada pela Rede Integrada de Bancos de Perfis Genéticos (RIBPG), criada pelo Ministério da Justiça em parceria com as secretarias estaduais de Segurança Pública para permitir o intercâmbio de perfis entre todos os estados e o Distrito Federal. Confira a entrevista completa: