Felipe Medeiros e Adriana Amâncio | 20 de fevereiro de 2026 - 20h00

Bebês Yanomami morrem por coqueluche e casos acendem alerta em Roraima

Doença já causou três mortes confirmadas neste ano; lideranças falam em número maior

SURTO DE COQUELUCHE
Casos de coqueluche na Terra Indígena Yanomami já deixaram três mortes confirmadas entre janeiro e fevereiro. - (Foto: Imagem Ilustrativa/A Crítica)

Uma bebê de quatro meses morreu no dia 10 de fevereiro, vítima de coqueluche, na Terra Indígena Yanomami, em Roraima. Filha de Edivania Yanomami, a criança da comunidade Arasiki, na região de Surucucu, chegou a ser transferida com a mãe para o Hospital da Criança, em Boa Vista, mas não resistiu às complicações da infecção respiratória.

Ela está entre os três óbitos confirmados pela doença entre 1º de janeiro e 19 de fevereiro deste ano, segundo dados oficiais. Documentos de óbito de crianças indígenas apontam que a maioria das vítimas era formada por bebês. Em um dos registros, a criança tinha apenas um mês e 17 dias de vida.

Em nota, o Ministério da Saúde informou que reforçou as equipes na região de Surucucu com médico, enfermeiro, técnico de enfermagem e socorrista, além de especialistas do Programa de Treinamento em Epidemiologia Aplicada aos Serviços do SUS. A pasta afirmou ainda que realiza busca ativa de casos e coleta de material para análise clínica.

Segundo o ministério, oito casos foram confirmados até o momento, com três mortes decorrentes da doença. Pacientes com suspeita de coqueluche e pessoas que tiveram contato com eles estão em tratamento e acompanhamento.

Lideranças indígenas, no entanto, afirmam que o número de mortes pode ser maior e estimam ao menos cinco óbitos neste ano, tanto na capital quanto nas aldeias. O Boletim Epidemiológico da Secretaria de Saúde registra 31 casos notificados e 12 confirmados.

Waihiri Hekurari, presidente da Urihi Associação Yanomami, disse que as comunidades estão preocupadas com a situação e com a perda de crianças ainda nos primeiros meses de vida.

A coqueluche, conhecida como tosse comprida, é causada pela bactéria Bordetella pertussis e atinge o aparelho respiratório, comprometendo traqueia e brônquios. A pediatra Alana Zorzan explica que a doença provoca crises intensas de tosse seca, que podem dificultar a respiração, e em casos mais graves levar à redução da oxigenação do sangue.

Bebês com menos de seis meses estão entre os grupos de maior risco, pois ainda não completaram o esquema vacinal com a tríplice bacteriana infantil. A médica afirma que esse grupo pode apresentar pausas respiratórias e complicações graves.

Ela também aponta que a queda na cobertura vacinal e a vulnerabilidade nutricional agravam o cenário, especialmente em comunidades isoladas, onde a circulação de pessoas de fora do território pode facilitar a entrada de doenças respiratórias.