Felipe de Paula | 17 de fevereiro de 2026 - 14h50

STF afasta quatro servidores por suspeita de vazamento de dados de familiares de ministros

Investigação aponta acessos ilícitos a sistemas da Receita; esposa de Alexandre de Moraes está entre as vítimas

SIGILO FISCAL
Supremo Tribunal Federal determinou afastamento de servidores suspeitos de acessar e vazar dados fiscais de familiares de ministros. - (Foto: Gustavo Moreno/STF)

Quatro servidores públicos foram afastados de suas funções nesta terça-feira, 17, por determinação do Supremo Tribunal Federal, sob suspeita de envolvimento no acesso e no vazamento de dados fiscais de familiares de ministros da Corte. A operação, executada pela Polícia Federal em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, também resultou na quebra de sigilo bancário, fiscal e telemático dos investigados.

Embora o STF e a Receita Federal não tenham divulgado oficialmente os nomes das vítimas, o Estadão apurou que uma delas é Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. O outro caso envolve o filho de um ministro do Supremo.

Em nota, o STF informou que “foram constatados diversos e múltiplos acessos ilícitos ao sistema da Secretaria da Receita Federal do Brasil, seguindo-se de posterior vazamento das informações sigilosas”. A investigação foi aberta a partir de representação da Procuradoria-Geral da República.

Quem são os investigados - O Supremo divulgou os nomes dos quatro servidores alvos da operação: Luiz Antônio Martins Nunes, Luciano Pery Santos Nascimento, Ruth Machado dos Santos e Ricardo Mansano de Moraes.

Até a publicação desta matéria, as defesas dos investigados não haviam se manifestado. O espaço segue aberto.

Medidas impostas pelo STF - Além do afastamento das funções, os quatro servidores tiveram os sigilos bancário, fiscal e telemático quebrados por decisão do ministro Alexandre de Moraes. Eles estão proibidos de sair das cidades onde residem e devem cumprir recolhimento domiciliar no período noturno e aos fins de semana.

Também tiveram os passaportes retidos e estão impedidos de deixar o país ou acessar dependências do Serpro e da Receita Federal.

A Receita Federal confirmou que identificou acessos indevidos a dados protegidos por sigilo fiscal. Segundo o órgão, a auditoria envolve dezenas de sistemas e contribuintes e já apontou desvios preliminares, que foram comunicados ao relator no Supremo.

No comunicado oficial, a Receita declarou que não tolera “desvios, especialmente relacionados ao sigilo fiscal, pilar básico do sistema tributário”. O texto afirma ainda que “os sistemas da Receita Federal são totalmente rastreáveis, de modo que qualquer desvio é detectável, auditável e punível, inclusive na esfera criminal”.

O órgão informou que, desde 2023, ampliou os controles de acesso a dados, com restrições mais rígidas aos perfis autorizados e aumento no número de alertas internos.

Origem da investigação - Em janeiro, Alexandre de Moraes abriu de ofício um inquérito para apurar se a Receita Federal e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras quebraram de forma irregular o sigilo fiscal de ministros do STF e familiares.

No dia 12 daquele mês, o Supremo solicitou formalmente à Receita uma auditoria para identificar acessos a dados de ministros, parentes e outras pessoas vinculadas à Corte nos últimos três anos. O procedimento foi incorporado a uma apuração que já havia sido aberta pela Corregedoria da Receita com base em reportagens da imprensa.

Segundo apuração do Estadão, há questionamentos internos na Receita sobre o inquérito. Interlocutores do órgão afirmam que a instituição não possui acesso a dados de contratos particulares e que o uso de informações sigilosas sem procedimento fiscal aberto pode resultar em demissão.

Contexto do caso - As suspeitas surgiram após a deflagração da Operação Compliance Zero, que investiga o Banco Master. Em dezembro, o jornal O Globo revelou detalhes de contrato firmado em janeiro de 2024 entre o escritório Barci de Moraes Associados, da esposa de Alexandre de Moraes, e o Banco Master.

De acordo com o contrato, o escritório receberia R$ 3,6 milhões por mês durante três anos para atuar na defesa de interesses do banco no Banco Central, na Receita Federal e no Congresso Nacional. Se cumprido integralmente, o valor total chegaria a R$ 129 milhões até o início de 2027.

Quando o inquérito foi instaurado, ministros do Supremo passaram a divergir sobre o alcance da investigação. Parte da Corte defende o aprofundamento das apurações para esclarecer se houve vazamento de dados por órgãos federais. Outra ala avalia que a medida pode ser interpretada como pressão sobre instituições de controle.

Enquanto a investigação avança, o caso coloca sob análise os mecanismos de proteção de dados fiscais e os limites de acesso a informações protegidas por sigilo dentro da administração pública.