Exercício na meia-idade e na velhice reduz risco de demência, aponta estudo
Pesquisa com 4,3 mil pessoas mostra menor risco entre ativos dos 45 aos 88 anos
SAÚDEManter uma rotina de exercícios físicos pode ser decisivo para reduzir o risco de demência, especialmente em duas fases da vida: na meia-idade e na velhice. É o que indica um estudo publicado no JAMA Network Open, que acompanhou cerca de 4,3 mil pessoas ao longo de décadas.
Os pesquisadores observaram que participantes fisicamente mais ativos entre 45 e 88 anos apresentaram menor risco de desenvolver demência. A análise considerou três fases da vida: dos 26 aos 44 anos, dos 45 aos 64 e dos 65 aos 88 anos, com base em dados do tradicional Framingham Heart Study, iniciado em 1948 nos Estados Unidos.
Para a geriatra Claudia Suemoto, professora da Faculdade de Medicina da USP e diretora do banco de cérebros da universidade, a meia-idade é possivelmente o momento mais estratégico para prevenir a doença. Segundo ela, o estudo também chama atenção por mostrar que continuar ativo na terceira idade segue trazendo benefícios ao cérebro.
A redução do risco foi observada de forma específica em relação à doença de Alzheimer. No Brasil, cerca de 1,2 milhão de pessoas vivem com a condição, segundo o Ministério da Saúde. As estimativas apontam que o número de casos de demência pode ultrapassar 5 milhões até 2039.
Claudia explica que o exercício contribui para manter a chamada reserva cerebral, conjunto de neurônios e conexões que torna o cérebro mais resistente aos processos neurodegenerativos. Quanto mais estímulos o cérebro recebe, maior tende a ser essa proteção.
O educador físico Daniel Vicentini, coordenador do grupo de atividade física e longevidade da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, destaca que o exercício não impede totalmente a demência, mas pode adiar seu início e reduzir o impacto funcional. Segundo ele, a vantagem dos mais ativos em comparação aos sedentários é consistente.
Por que a meia-idade é estratégica
Entre os 45 e 64 anos, começam a se acumular fatores como hipertensão, diabetes, obesidade, sedentarismo e depressão, condições que também afetam o cérebro. Por isso, manter hábitos saudáveis nessa fase pode influenciar diretamente a saúde cognitiva nas décadas seguintes.
Já na velhice, mesmo diante de possíveis perdas iniciais, o cérebro mantém capacidade de adaptação. A atividade física melhora a circulação cerebral, o sono, o humor e a interação social, fatores que também contribuem para preservar funções cognitivas.
Efeitos no cérebro
Estudos de neuroimagem já associaram a prática regular de exercícios a maior volume cerebral e à preservação de áreas ligadas à memória e às funções executivas. Segundo Claudia, o exercício estimula ainda a liberação de substâncias neuroprotetoras, como a irisina, molécula ligada à atividade física e estudada por pesquisadores brasileiros por seu possível papel na proteção contra a demência.
A recomendação dos especialistas é combinar exercícios aeróbicos, de força e de equilíbrio. Diretrizes da Organização Mundial da Saúde indicam pelo menos 150 minutos semanais de atividade aeróbica moderada, além de exercícios de fortalecimento muscular.
Para quem é sedentário, a orientação é começar com metas realistas e sustentáveis. Caminhadas, dança ou exercícios simples em casa podem ser alternativas viáveis. O mais importante, segundo os especialistas, é manter a regularidade ao longo dos anos.