Caio Possati | 12 de fevereiro de 2026 - 08h40

Polícia indicia sócios de academia por morte de professora após aula em SP

Juliana Bassetto, de 27 anos, passou mal em piscina na zona leste; suspeita é de intoxicação por gases

POLÍCIA
Polícia de SP indicia donos de academia em que mulher morreu - (Foto: Polícia Civil-SP)

A Polícia Civil indiciou por homicídio, nesta quarta-feira, 11, os três sócios da academia C4 Gym, localizada na região de São Lucas, zona leste de São Paulo, pela morte da professora Juliana Bassetto, de 27 anos. A jovem passou mal durante uma aula de natação no último sábado, 7, e morreu após ser socorrida. Outras quatro pessoas que participaram da atividade seguem hospitalizadas.

A principal linha de investigação aponta que Juliana pode ter sido intoxicada por gases tóxicos gerados a partir da mistura de produtos químicos utilizados na limpeza da piscina.

Sócios são acusados de assumir risco

Foram indiciados os proprietários Cesar Bertolo Cruz, Celso Bertolo Cruz e Cezar Miquelof Terração. Eles prestaram depoimento nesta quarta-feira. A reportagem busca contato com a defesa; o espaço segue aberto.

No pedido de indiciamento encaminhado ao Ministério Público de São Paulo, o delegado Alexandre Bento, do 42º Distrito Policial (São Lucas), afirma que os sócios teriam sido displicentes no atendimento às vítimas e tentado dificultar as investigações.

“No mesmo momento em que os médicos declaravam o óbito de Juliana em um hospital no ABC Paulista, um dos sócios orientava um funcionário a comparecer à empresa a fim de tentar dissipar os gases e descaracterizar a cena do crime”, afirmou o delegado.

Segundo a investigação, o responsável pela mistura dos produtos químicos era o funcionário Severino Silva, de 43 anos, que não possui formação técnica para a função. Em depoimento na terça-feira, 10, ele relatou que recebia orientações dos donos da academia, inclusive sobre dosagem, por meio de mensagens de celular.

A polícia aguarda o laudo necroscópico da professora, além de laudos periciais da academia e análises químicas das amostras de água e dos produtos utilizados, para confirmar a causa da morte e das internações.

Mistura inadequada de produtos

A suspeita é que tenha ocorrido a mistura de tipos diferentes de cloro ou de cloro com outro produto químico incompatível, o que pode gerar reação tóxica.

“Os relatos colhidos indicam a inadequação na utilização de cloro em quantidades excessivas, por pessoas sem habilitação profissional ou conhecimento técnico, empregada de forma consciente e deliberada pelos sócios da empresa C4 Gym, visando exclusivamente à vantagem financeira (lucro)”, cita o delegado no relatório.

Ele afirma ainda que, ao tomarem conhecimento do ocorrido, os sócios “nada fizeram pelas vítimas” e teriam demonstrado “completa impassividade”.

“Entendendo que os investigados, pelos motivos acima expostos, assumiram o risco do resultado morte, ao dispensarem o auxílio de profissional com habilitação e capacidade técnica, por egoísmo e ganância, visando apenas e tão somente à redução dos custos”, acrescentou Alexandre Bento.

MP apura possíveis irregularidades

Paralelamente à investigação criminal, o Ministério Público de São Paulo instaurou um inquérito civil para apurar a situação da rede C4 Gym, que opera por meio de franquias.

A Promotoria de Justiça de Habitação e Urbanismo investiga se unidades funcionam sem o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB), documento que atesta as condições de segurança contra incêndio e pânico.

O promotor Marcus Vinicius Monteiro dos Santos determinou que a empresa apresente a relação completa das unidades em funcionamento, dados dos franqueados e informações sobre eventuais irregularidades.

“Segundo informações preliminares constantes da portaria, a empresa opera por meio de sistema de franquias, havendo indícios de que algumas unidades funcionariam sem o devido AVCB”, informou a promotoria em nota.

Após o episódio, a Subprefeitura de Vila Prudente interditou a unidade da C4 Gym por “situação precária de segurança” e pela ausência do Auto de Licença de Funcionamento. De acordo com o delegado, há dois CNPJs vinculados ao endereço.

“É uma situação nebulosa. Há dois CNPJs no local. Um apresenta e o outro não”, afirmou Alexandre Bento.