Presidente da Amprev renuncia após investigação sobre aporte de R$ 400 milhões
Jocildo Lemos deixa o cargo após operação da PF apurar aplicação no Banco Master sem cobertura do FGC
CRISE PREVIDENCIÁRIAA saída de Jocildo Lemos da presidência da Amapá Previdência (Amprev) escancara uma crise que pode atingir diretamente servidores ativos e aposentados do Estado. O gestor pediu exoneração nesta quarta-feira, 11, dias depois de se tornar alvo da Operação Zona Cinzenta, da Polícia Federal, que investiga possível gestão temerária e fraudulenta envolvendo um aporte de R$ 400 milhões no Banco Master.
O investimento foi realizado em meados de 2025, por meio da compra de letras financeiras da instituição controlada por Daniel Vorcaro. A aplicação, no entanto, não conta com cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), mecanismo que protege investidores em caso de quebra de instituições financeiras. Com isso, caso os recursos não sejam recuperados, o prejuízo poderá recair sobre o fundo previdenciário — e, consequentemente, sobre os segurados.
A situação se agravou após o Banco Central determinar a liquidação do Banco Master diante de indícios de fraude que somariam R$ 12 bilhões e da falta de liquidez da instituição. Com a medida, a Amprev passa a integrar a fila de credores que buscarão reaver valores investidos.
A Operação Zona Cinzenta foi deflagrada na sexta-feira, 6, com o objetivo de apurar possíveis crimes de gestão temerária e gestão fraudulenta na autarquia responsável pela previdência estadual. Jocildo Lemos está entre os investigados.
A investigação ocorre em meio a questionamentos sobre a decisão de investir recursos do fundo em um banco que já apresentava sinais de risco. Conforme revelou o jornal O Estado de S. Paulo em novembro do ano passado, integrantes do comitê de investimentos da Amprev teriam alertado sobre os perigos da aplicação no Banco Master.
Atas do colegiado indicam que gestores mencionaram risco reputacional decorrente de investigações que, à época, já apontavam inconsistências envolvendo a instituição financeira. Mesmo diante dos alertas, o investimento foi mantido.
Um dos pontos mais sensíveis do caso é a ausência de garantia do Fundo Garantidor de Crédito. Diferentemente de aplicações tradicionais, como poupança e CDBs dentro do limite estabelecido, as letras financeiras adquiridas pela Amprev não possuem essa cobertura.
Isso significa que, com a liquidação do Banco Master, a recuperação dos R$ 400 milhões dependerá do processo de liquidação e da capacidade de pagamento da massa falida. Na prática, a Amprev entra em uma disputa judicial e administrativa para tentar reaver os recursos aplicados.
Caso o valor não seja integralmente recuperado, o rombo poderá afetar o equilíbrio financeiro do regime próprio de previdência do Amapá, que atende servidores e aposentados do Estado.
Jocildo Lemos foi indicado para o comando da Amprev pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). O senador nega qualquer influência na condução dos trabalhos da autarquia.
A indicação política passou a ser mencionada após a deflagração da operação, mas até o momento não há informações de envolvimento de outros agentes públicos no âmbito da investigação divulgada.
Em nota, Lemos afirmou que decidiu deixar o cargo para que as investigações transcorram sem interferências.
"Seguindo com absoluto compromisso com a instituição, com os segurados e com a verdade dos fatos, apresento meu pedido de exoneração do cargo de Diretor-Presidente da Amprev. Faço isso para que a Justiça atue com total independência e para que fique plenamente comprovado que todos os procedimentos adotados sob minha gestão observaram rigorosamente a legalidade, permitindo a identificação e a responsabilização dos verdadeiros culpados", declarou.
A exoneração ocorre em um momento de forte pressão institucional e incerteza sobre o futuro dos recursos aplicados.
Com a liquidação determinada pelo Banco Central, o Banco Master passa por um processo formal para pagamento de dívidas e apuração de responsabilidades. A existência de indícios de fraude no montante de R$ 12 bilhões e a constatação de falta de liquidez foram determinantes para a intervenção.
Nesse cenário, a Amprev integra uma lista de credores que buscarão ressarcimento. O tempo de tramitação e o percentual que poderá ser recuperado ainda são incertos.
O episódio levanta questionamentos sobre governança, gestão de riscos e critérios adotados na aplicação de recursos previdenciários, especialmente quando envolvem valores de grande porte e instituições sob investigação.