Morre Graciela Chamorro, referência internacional nos estudos sobre povos Guarani e Kaiowá
Pesquisadora e professora construiu legado decisivo na preservação das línguas, da memória e da cultura indígena
LUTO INDÍGENAFaleceu a professora e pesquisadora Graciela Chamorro Argüello, uma das principais referências nos estudos sobre os povos indígenas no Brasil, com atuação reconhecida especialmente entre as comunidades Kaiowá e Guarani. Sua trajetória acadêmica e humana foi marcada pelo compromisso com as línguas originárias, a cultura, a memória e os direitos dos povos indígenas, deixando um legado respeitado no país e no exterior.
O velório acontece nesta quarta-feira (11), a partir das 8h, no Espaço Cultural Casulo, localizado na rua Reinaldo Bianchi, nº 398, em Dourados. No mesmo local, às 15h30, está prevista uma liturgia de despedida.
Nascida no Paraguai, em 1958, Graciela Chamorro teve o guarani como língua materna, elemento que influenciou profundamente sua formação intelectual e sua escolha de vida. Em 1977, mudou-se para o Brasil para estudar. Formou-se em Música, em 1981, e em Teologia, em 1982, ambas em Recife (PE). No ano seguinte, chegou à região de Dourados, onde iniciou sua atuação como professora universitária e cursou Pedagogia.
Foi nesse período que teve contato direto com a cultura Kaiowá, especialmente na comunidade de Panambizinho. A vivência se tornou base empírica de suas pesquisas, que passaram a abordar rituais, história, corpo, língua, cosmologia e cantos dos povos falantes de línguas Guarani.
Graciela concluiu o mestrado em História em 1994 e o doutorado em Teologia em 1997, em São Leopoldo (RS). Entre 1999 e 2005, viveu na Alemanha com a família, onde atuou como professora em três universidades e realizou doutorado e pós-doutorado, dedicando-se ao estudo de fontes escritas em línguas indígenas do século XVII.
De volta ao Brasil, passou a integrar o corpo docente da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), a partir de 2006, como professora de História Indígena. Nesse período, consolidou uma ampla rede de pesquisa que reuniu universitários e representantes dos povos Guarani e Kaiowá, fortalecendo o diálogo entre saberes tradicionais e acadêmicos, além da aproximação entre arte e ciência.
Em 2014, realizou pós-doutorado na França e, ao longo da carreira, foi frequentemente convidada a ministrar aulas e conferências sobre cosmologia indígena em países como Alemanha e França.
Entre suas contribuições mais relevantes está o trabalho de preservação da cultura Guarani e Kaiowá, com o registro de cantos e narrativas tradicionais. Esse material foi compartilhado por meio de projetos culturais como o Grupo Veraju e o Literatura Oral Kaiowá. Desde 2015, Graciela presidia a Associação Cultural Casulo, em Dourados, onde coordenava ações culturais e de pesquisa em parceria direta com indígenas Guarani e Kaiowá.
Outro marco de sua trajetória foi a organização do Dicionário Kaiowá–Português, obra construída de forma coletiva com pesquisadores das áreas de linguística, lexicografia, história e antropologia, além da participação direta de indígenas Kaiowá. O trabalho é considerado fundamental para a valorização e o fortalecimento da língua.
Entre os livros publicados por Graciela Chamorro estão Kurusu Ñe’ẽngatu, palabras que la historia no podría olvidar (1995); Terra madura, Yvyaraguyje: fundamento da palavra Guarani (2008); Decir el cuerpo – historia y etnografía del cuerpo en los pueblos Guaraní (2009); História Kaiowá: das origens aos desafios contemporâneos (2015); Povos indígenas em Mato Grosso do Sul: história, cultura e transformações sociais (2017); e Cuerpo social: historia y etnografía de la organización social en los pueblos Guaraní (2018).
Em nota, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) lamentou a morte da pesquisadora e destacou que Graciela foi uma “mulher que dedicou sua vida, de forma incansável, à defesa da vida e dos direitos dos povos indígenas”. A Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul também se manifestou, ressaltando que ela era referência internacional nos estudos sobre os povos Guarani e Kaiowá e reconhecendo sua contribuição para a cultura, a educação e a memória dos povos originários.