SUS pode passar a oferecer vacina HPV nonavalente, diz ministro da Saúde
Versão mais moderna amplia proteção contra até 90% dos casos de câncer do colo do útero
SAÚDE PÚBLICAO Ministério da Saúde pretende incorporar ao Sistema Único de Saúde (SUS) a vacina contra o HPV em sua versão nonavalente, mais abrangente do que a atualmente ofertada na rede pública. A informação foi confirmada pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante evento em São Paulo para anunciar um pacote de investimentos no Instituto Butantan.
Hoje, o SUS aplica a vacina quadrivalente, que protege contra quatro tipos do papilomavírus humano (HPV): 6, 11, 16 e 18. Enquanto os subtipos 6 e 11 estão associados a verrugas genitais, os tipos 16 e 18 são responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer do colo do útero no Brasil.
A vacina nonavalente, disponível atualmente apenas na rede privada, amplia essa proteção ao incluir também os subtipos 31, 33, 45, 52 e 58. Com isso, a cobertura pode alcançar linhagens do vírus relacionadas a até 90% dos casos de câncer do colo do útero, segundo dados apresentados pelo Ministério da Saúde.
O anúncio foi feito durante a apresentação de investimentos no Instituto Butantan, que receberá cerca de R$ 1,4 bilhão do governo federal, por meio do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), além de R$ 400 milhões de recursos próprios da instituição. Parte desse montante, R$ 495,9 milhões, será destinada à construção de uma nova fábrica para a produção de vacinas contra o HPV.
De acordo com Padilha, além de ampliar a capacidade de produção da vacina quadrivalente, a nova planta industrial permitirá um avanço tecnológico. “Uma das possibilidades com a parceria é modernizar essa vacina do HPV”, afirmou o ministro. Segundo ele, há total interesse do governo em produzir a vacina nonavalente no Butantan e incorporá-la ao SUS assim que possível.
O diretor do Instituto Butantan, Esper Kallás, destacou que a nova estrutura poderá viabilizar a transição da vacina quadrivalente para a nonavalente, seguindo exemplos internacionais. “Vamos realizar um salto tecnológico, como ocorreu na Austrália, que praticamente erradicou o câncer de colo de útero com essa versão da vacina”, disse.
Atualmente, no SUS, a vacina quadrivalente contra o HPV é oferecida a crianças e adolescentes de 9 a 19 anos, preferencialmente antes do início da vida sexual, quando a eficácia é maior. Adultos até 45 anos também podem ser vacinados gratuitamente se fizerem parte de grupos específicos, como pessoas vivendo com HIV, transplantados, pacientes oncológicos, vítimas de abuso sexual não vacinadas previamente, usuários de PrEP e pacientes com papilomatose respiratória recorrente.
Na rede privada, a vacina nonavalente pode ser aplicada em pessoas de 9 a 45 anos, independentemente do grupo, com custo médio de cerca de R$ 800 por dose, valor que dificulta o acesso para grande parte da população.
O HPV é o principal fator de risco para o câncer do colo do útero, um dos tipos que mais matam mulheres no Brasil. Estimativas apontam cerca de 17 mil novos casos por ano e aproximadamente 7,2 mil mortes. Apesar da gravidade, trata-se de um câncer altamente prevenível, já que a infecção pelo vírus é sua principal causa.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a vacinação em massa uma estratégia capaz, inclusive, de erradicar a doença. O HPV também está relacionado a cânceres de vulva, vagina, pênis, ânus e orofaringe, com transmissão predominantemente sexual, mas possível também por contato direto com pele ou mucosas infectadas.
Dados de uma pesquisa nacional divulgada em 2023 pelo Ministério da Saúde mostram que 54,4% das mulheres sexualmente ativas apresentam infecção genital por HPV, assim como 41,6% dos homens. Na maioria dos casos, a infecção não provoca sintomas relevantes, mas pode evoluir para lesões precursoras ou câncer em parte dos pacientes.