Butantan anuncia R$ 1,8 bilhão para ampliar produção de vacinas e aposta em tecnologia de mRNA
Investimentos incluem fábrica de vacina contra HPV, modernização de unidades e expansão da produção de soros
SAÚDEO Instituto Butantan anunciou nesta segunda-feira (9) um investimento de R$ 1,8 bilhão para ampliar e modernizar sua capacidade de produção de vacinas e soros no Brasil. Do total, cerca de R$ 1,4 bilhão será destinado pelo governo federal, por meio do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e o restante virá de recursos próprios do instituto.
Os investimentos têm como foco principal a incorporação de novas tecnologias e o fortalecimento da autonomia do país na produção de imunizantes estratégicos para o Sistema Único de Saúde (SUS). Entre os projetos previstos estão a implantação de uma plataforma industrial de vacinas de RNA mensageiro (mRNA), a construção de uma fábrica para produção de vacina contra o papilomavírus humano (HPV), a reforma de unidades já existentes e a ampliação da produção de soros.
Segundo o Ministério da Saúde, R$ 76,1 milhões serão aplicados na nova plataforma de vacinas de mRNA, considerada uma das tecnologias mais promissoras da atualidade. Outros R$ 495,9 milhões serão destinados à construção da fábrica de vacina contra o HPV. Já a reforma da unidade responsável pela produção da vacina DTpa — que protege contra difteria, tétano e coqueluche — contará com R$ 550,7 milhões. Além disso, R$ 232,5 milhões serão investidos na expansão da unidade de produção de soros.
Com essa ampliação, a capacidade anual de produção de soros passará de 600 mil para 1,2 milhão de frascos. Também será criada uma nova área de envase e liofilização, elevando a capacidade para 5,2 milhões de frascos líquidos e 7,1 milhões de doses liofilizadas por ano, tanto de soros quanto de vacinas.
Durante a cerimônia de assinatura das ordens de serviço para o início das obras, realizada em São Paulo, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou a importância estratégica da plataforma de RNA mensageiro. Segundo ele, a tecnologia permite uma resposta rápida a novos patógenos, como ocorreu durante a pandemia de covid-19.
“A gente quer se apropriar dessa tecnologia. É um tipo de tecnologia que rapidamente pode prover vacinas para patógenos de comportamento desconhecido, sem vacinas. Podemos ter uma resposta rápida para situações de pandemia”, afirmou.
Padilha também relacionou os investimentos brasileiros ao cenário internacional e criticou a política do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação à ciência e às vacinas. Segundo o ministro, o corte de recursos e a interrupção de pesquisas nos EUA abriram espaço para que outros países assumam protagonismo na área.
“Hoje, Trump lidera um governo antivacina e negacionista. Eles romperam contratos, cortaram financiamentos e estão perseguindo pesquisadores de vacinas de RNA mensageiro. O mundo está dando a resposta para isso”, disse Padilha. Ele acrescentou que pesquisadores norte-americanos que tiveram recursos suspensos já estão colaborando com o Butantan, a Fiocruz e universidades brasileiras.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também discursou no evento e ressaltou a importância da vacinação como instrumento de proteção coletiva. “Vai ser difícil convencer a sociedade a voltar a tomar vacina como antigamente, mas temos que tentar até convencer as pessoas de que tomar vacina é evitar que, em algum momento, a natureza atrapalhe a vida”, afirmou.
Inicialmente, a nova unidade de desenvolvimento e produção de vacinas de mRNA será usada para a fabricação de imunizantes contra a covid-19 e contra a raiva, com capacidade estimada de 15 milhões de doses. De acordo com o diretor do Instituto Butantan, Esper Kallás, a previsão é que a obra seja concluída em cerca de um ano.
“Ela acomodará a vacina contra a covid-19, fruto de uma Parceria de Desenvolvimento Produtivo com a Moderna. O Butantan tem a ambição de ser um dos principais centros de desenvolvimento dessa tecnologia, não apenas para vacinas, mas também para outras áreas, como a produção de respostas imunes para o enfrentamento do câncer”, afirmou.
Outro eixo central do investimento é a produção da vacina contra o HPV. O novo prédio permitirá que o Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) seja produzido integralmente no Butantan, com capacidade para fabricar até 20 milhões de doses por ano.
Atualmente, o SUS oferece a vacina quadrivalente contra o HPV para crianças, adolescentes e grupos prioritários. Padilha afirmou que, com o fortalecimento da produção nacional, não está descartada a possibilidade de o SUS passar a oferecer a versão nonavalente, hoje disponível apenas na rede privada.
“Esses investimentos permitirão diversificar e ampliar o fornecimento ao SUS de produtos essenciais, como a vacina contra o HPV, além de desenvolver nossa plataforma de mRNA, que nos dará respostas mais rápidas às demandas da saúde pública”, afirmou Kallás.
O infectologista também reforçou o papel das vacinas na redução das desigualdades. Segundo ele, sem os programas de imunização, ao menos 6 milhões de crianças e pessoas imunodeficientes morreriam todos os anos.
Além do anúncio dos investimentos, o evento marcou o início da vacinação contra a dengue para profissionais de saúde e voluntários que participaram dos estudos clínicos do imunizante. A Butantan-DV, desenvolvida pelo instituto, protege contra os quatro sorotipos do vírus da dengue e é a primeira vacina do mundo de dose única contra a doença.