Casa da Mulher Brasileira completa 11 anos e reduz quase 50% dos feminicídios
Acolhimento 24 horas, tecnologia e rede integrada ajudam Campo Grande a registrar queda nas mortes de mulheres, mas desafio segue sendo chegar ao feminicídio zero
VIOLÊNCIA DE GÊNEROA Casa da Mulher Brasileira de Campo Grande completou 11 anos de funcionamento consolidada como um dos principais pilares no enfrentamento à violência doméstica no país. Primeira unidade inaugurada no Brasil, em 3 de fevereiro de 2015, o equipamento soma 154 mil atendimentos e cerca de 2 milhões de encaminhamentos, segundo a Secretaria de Estado da Cidadania. Os números foram apresentados em cerimônia comemorativa realizada na sede da instituição, nesta segunda-feira (9), e vieram acompanhados de um dado simbólico: a redução em quase 50% dos feminicídios na Capital entre 2024 e 2025.
Autoridades municipais, estaduais e representantes do Judiciário, do Ministério Público, da Defensoria, da segurança pública e do terceiro setor destacaram que o resultado não é obra de uma única ação, mas de uma rede integrada que atua de forma contínua, com atendimento 24 horas e decisões compartilhadas entre Estado e município. Ao mesmo tempo, reforçaram que a meta é clara: chegar ao feminicídio zero.
Pioneirismo e modelo para o país - A Casa da Mulher Brasileira de Campo Grande foi inaugurada como projeto-piloto e se tornou referência nacional em acolhimento humanizado a mulheres em situação de violência. No mesmo espaço, a vítima encontra acolhimento psicossocial, alojamento de passagem para risco iminente, brinquedoteca para os filhos, transporte para a rede de apoio e atendimento permanente de órgãos de segurança, como a Patrulha Maria da Penha.
O equipamento é gerido pela Prefeitura de Campo Grande, por meio do órgão responsável pelas políticas públicas para as mulheres, em modelo de governança compartilhada com o Estado. A lógica é de decisões conjuntas, democráticas e transparentes, voltadas ao aprimoramento contínuo dos serviços.
Para quem chega à Casa, isso significa não precisar peregrinar por delegacias, fóruns, postos de saúde e serviços de assistência em busca de proteção. Toda a rede está concentrada em um único endereço, o que reduz o tempo de resposta e diminui a revitimização.
“Aqui nós não mascaramos dados” - Durante a cerimônia, a secretária-executiva da Mulher de Campo Grande, Angélica Fontanari, lembrou o simbolismo de Campo Grande ter sido escolhida, em 2015, para receber a primeira unidade do país. Ela ressaltou o papel da Casa na proteção das mulheres e na forma como o Estado lida com a violência de gênero.
Segundo Angélica, um dos diferenciais de Mato Grosso do Sul é o enfrentamento direto ao problema, sem maquiar estatísticas. Ela afirmou que “infelizmente, a violência doméstica acontece em todas as classes sociais, em todas as cidades e em todos os recortes”, mas, em muitos lugares, ainda é subnotificada. Em seguida, destacou: “Em Mato Grosso do Sul, não. Aqui nós temos a coragem de realmente denominar o que é feminicídio, o que é homicídio, o que é lesão corporal contra a mulher. Nós não mascaramos dados”.
Ela lembrou que, enquanto em diversas regiões do país os índices de feminicídio cresceram, Campo Grande registrou queda. “Campo Grande reduziu o número de feminicídios em quase 50%. Em 2024, foram 11 feminicídios. Em 2025, 7. É motivo de alegria, sim, mas o nosso objetivo é que não tenha nenhum. É zero”, reforçou.
Angélica também chamou a atenção para um dado preocupante: dos sete feminicídios contabilizados no último ano, apenas uma vítima havia passado pela Casa e registrado boletim de ocorrência. Para ela, isso evidencia a necessidade de encorajar mais mulheres a procurar ajuda e denunciar agressões. “Nós precisamos continuar encorajando as mulheres de que, se foram vítimas de violência, tem saída. Tem pessoas preparadas para ajudar, sem julgamento”, disse.
Botão da vida e resposta em menos de cinco minutos - Um dos pontos mais celebrados no evento foi a consolidação do aplicativo Proteja Mais Mulher, desenvolvido em parceria entre a Agência de Tecnologia, a Guarda Municipal e a Secretaria-Executiva da Mulher. Lançado em 2025, o sistema oferece um botão de emergência para mulheres que passaram pela Casa da Mulher Brasileira e solicitaram medida protetiva, com ou sem boletim de ocorrência.
Angélica disse que evita chamar o recurso de “botão do pânico”. “Eu não gosto desse termo. É o botão da vida”, resumiu.
O aplicativo é instalado no celular da mulher pela equipe da Casa. Em situação de risco, ela não precisa desbloquear o aparelho nem abrir o aplicativo na tela: com uma combinação nos botões laterais do celular, o pedido de ajuda é enviado de forma discreta.
Assim que é acionado, o sistema grava automaticamente cerca de cinco segundos de áudio ambiente. A orientação dada às usuárias é que, se possível, citem informações importantes nesse momento, como a presença do agressor ou se ele está armado. Mesmo sem fala, o áudio ajuda a equipe a entender o contexto.
Ao chegar à central de monitoramento da Guarda Municipal, o chamado vem acompanhado do georreferenciamento da vítima. Ou seja, mesmo que ela não esteja no endereço cadastrado, a equipe sabe exatamente onde ela está, seja em casa, em um posto de saúde ou na residência de um familiar.
O atendimento é direcionado ao guarda municipal mais próximo da ocorrência, já que a corporação atua nas sete regiões da cidade. Segundo Angélica, o tempo de resposta tem variado entre dois minutos e meio e quatro minutos e meio. Ela destacou que “todos os casos em que o botão foi acionado tiveram resposta em menos de cinco minutos” e avaliou que isso é “política pública na prática, efetividade na prática”.
154 mil atendimentos e política de Estado - Secretária de Estado da Cidadania, Viviane Luiza da Silva definiu a Casa da Mulher Brasileira como uma “política pública estruturante”. Ao apresentar os números, ela disse: “São 11 anos, 154 mil atendimentos, 2 milhões de encaminhamentos. Esses são os números. E não são números, são mulheres. São vidas que nós encontramos através do cuidado, da integração e da política pública aqui estabelecida”.
Viviane reforçou que a Casa não é fruto de uma única gestão, mas de uma construção coletiva que envolve prefeitura, governo do Estado, Ministério Público, Defensoria, segurança pública, saúde, assistência social e o terceiro setor. Ela ressaltou que “essa política pública não é e nunca será de uma única gestão” e que o trabalho é de integração entre as instituições.
A secretária também citou a ampliação de ações para os 79 municípios de Mato Grosso do Sul, com programas de prevenção e atendimento em parceria com a rede estadual de ensino, por meio do programa Protege, que trabalha comportamento e igualdade de gênero em centenas de escolas. Segundo ela, “enquanto nós não trabalharmos o comportamento, e isso nós estamos fazendo dentro das escolas, nós não vamos conseguir enfrentar de fato a raiz da violência, que é a misoginia”.
Viviane destacou ainda a necessidade de olhar para as especificidades das mulheres do Estado, como indígenas, ribeirinhas, quilombolas e moradoras de cidades pequenas, além do incentivo à autonomia econômica por meio de cursos e qualificação para o mercado de trabalho, em ações que contam com a parceria do Sebrae. Ela também atualizou a situação de novas unidades da Casa da Mulher Brasileira em Ponta Porã, Corumbá e Dourados, que ainda passam por ajustes de terreno e plano de trabalho junto ao governo federal.
Acolhimento, humanidade e prioridade de gestão - Representando o município, a vice-prefeita Camila Nascimento afirmou que a Casa da Mulher Brasileira é uma das prioridades da gestão municipal e ressaltou a importância do acolhimento para além dos procedimentos formais. Ela disse que “quando uma mulher procura a Casa da Mulher Brasileira, nós não queremos entregar apenas atendimento. Queremos entregar acolhimento”, e completou que a expectativa é de que a mulher não encontre apenas uma porta aberta 24 horas, mas também humanidade, “uma equipe capacitada, capaz de resgatar muito mais do que dignidade e proteção”.
Camila destacou ainda a importância de uma estrutura específica para a pauta de gênero dentro da administração municipal. Ao comentar a evolução do órgão, ela lembrou que “saímos de uma subsecretaria da mulher e viemos para uma secretaria executiva” e defendeu que é preciso seguir avançando, com a expectativa de que a secretaria exclusiva se concretize no futuro.
Ela também fez questão de reconhecer o trabalho da equipe da Casa e o envolvimento pessoal de quem atua no atendimento. Segundo a vice-prefeita, todos que estão ali “defendem a causa com o coração” e diferenciam números de vidas, preocupados não apenas com estatísticas, mas com o impacto real do trabalho no dia a dia das mulheres e suas famílias.
Linha do tempo, equipe e bastidores do atendimento - Coordenadora estadual da Casa da Mulher, Carla Charbel lembrou marcos importantes da trajetória do equipamento desde sua inauguração em fevereiro de 2015. Ela citou que, em 2017, a Casa passou por uma reestruturação que incluiu a convocação de servidoras concursadas para compor o quadro permanente, o que foi um passo importante diante da demanda crescente. Ao longo dos anos, esse quadro foi ampliado com processos seletivos.
Em 2023, a unidade de Campo Grande inaugurou a primeira sala do IML dentro de uma Casa da Mulher Brasileira, fazendo história também no sistema de justiça, já que o espaço abriga uma vara especializada em análise de medidas protetivas. Carla lembrou que “história precisa ser contada para ser reconhecida e valorizada” e que o trabalho é coletivo e coeso.
Ela destacou ainda a decisão, em 2025, de estabelecer a gestão compartilhada entre Estado e município, assumida com apoio do governador e da secretária de Estado da Cidadania. Essa divisão de responsabilidades veio acompanhada de uma rede que reúne 253 servidores de diversas instituições.
Na esfera municipal, a coordenadora Carla Stephanini descreveu a rotina de quem está na linha de frente. Ela contou que a Casa recebe, em média, 1.300 mulheres por mês, cada uma com uma história e um contexto específico de violência. Ao falar sobre a equipe, resumiu que essa é “uma manhã de gratidão” a todas as pessoas que constroem o serviço no dia a dia.
Ela detalhou o percurso da mulher dentro da unidade: chegada na recepção, onde já começa o acolhimento; encaminhamento para o registro de boletim de ocorrência, quando é o caso; atendimento psicossocial; brinquedoteca para as crianças enquanto a mãe é atendida; central de transporte para levá-la a serviços de saúde ou outros órgãos; presença da Funsat para apoio na qualificação e inserção no mercado de trabalho; e funcionamento do IML 24 horas dentro da Casa.
Outro ponto citado foi o acompanhamento continuado das mulheres em situação de maior risco, em que técnicas ligam, visitam e fazem um “princípio social continuado” até que a mulher consiga sair do ciclo de violência. Para a coordenadora, as pessoas que atuam ali “trabalham 12 horas ouvindo situações de violência”, atendendo mulheres que chegam fragilizadas, e, mesmo impactadas pelas histórias, não podem deixar que o enrijecimento emocional comprometa o acolhimento.
Carla também comentou a reforma em andamento na estrutura física da Casa, que acontece, como ela descreveu, “durante chuva, num caos diário”, mas é vista como necessária para melhorar o espaço de atendimento. Segundo ela, depois de tantos anos, a instituição passa pela primeira reforma, e a nova recepção deve ser entregue em breve.
Autonomia financeira e mudança de cultura - A diretora do Sebrae em Mato Grosso do Sul, Sandra Amarilha, reforçou que quebrar o ciclo da violência também passa pela autonomia financeira das mulheres. Ela explicou que o Sebrae “chega com a esperança” justamente quando a mulher precisa de independência econômica para conseguir romper com o agressor. Segundo Sandra, o objetivo é colocar essa mulher “no caminho mais seguro do empreendedorismo”, na geração da própria renda e no sustento dos filhos, garantindo inclusão social pela via do trabalho.
Ela convidou as instituições e a sociedade a participarem do Delas Day, evento marcado para os dias 24 e 25 de fevereiro, no Bosque Expo, onde diferentes órgãos vão apresentar à população os serviços disponíveis às mulheres. Na avaliação dela, momentos como esse mostram à sociedade que “juntas nós podemos muito mais” no enfrentamento à violência.
Parlamentares presentes lembraram que o enfrentamento à violência depende também de mudança cultural. A vereadora Luiza Ribeiro apontou a necessidade de estruturas governamentais mais robustas para a pauta de gênero e criticou a naturalização da misoginia em músicas, símbolos e práticas do cotidiano. Ela citou, por exemplo, letras de canções que rebaixam mulheres e questionou o impacto de hinos e discursos oficiais que não mencionam a participação feminina na construção da sociedade.
A deputada estadual Mara Caseiro resgatou o histórico de invisibilidade da violência contra a mulher e a evolução do debate na última década. Ela contou que, ao chegar à Assembleia Legislativa, em 2011, o tema era difícil de ser tratado e muitas vezes era naturalizado. Hoje, segundo ela, “todos os órgãos discutem atividades e ações no combate à violência contra a mulher”, mas ainda há muito a avançar, especialmente na prevenção.
Mara defendeu que esse trabalho comece em casa e nas escolas, mudando padrões de educação de meninos e meninas para que não haja diferença de direitos entre homens e mulheres. Ela também lembrou a importância de programas que garantam independência financeira para que a mulher não se sinta obrigada a permanecer em relacionamentos violentos por causa dos filhos ou da falta de renda.
Desafio permanente: transformar dor em proteção - Ao final da cerimônia, o tom foi de celebração pelo caminho já percorrido, mas também de responsabilidade diante do que ainda falta fazer. As falas convergiram na ideia de que a Casa da Mulher Brasileira é mais do que um prédio: é uma rede de pessoas, serviços e decisões que, há 11 anos, trabalha para transformar dor em proteção e medo em possibilidade de recomeço.
O recado para as mulheres em situação de violência foi unânime. A mensagem é que não é preciso enfrentar sozinha, que há uma estrutura preparada para acolher, orientar, proteger e ajudar a reconstruir a vida. O objetivo declarado, tanto por gestorxs quanto pela equipe, é que os números de feminicídio continuem caindo até chegar a zero.