Iury de Oliveira, Jamille Gomes e Maria Edite | 09 de fevereiro de 2026 - 14h43

Casa da Mulher Brasileira completa 11 anos e reduz quase 50% dos feminicídios

Acolhimento 24 horas, tecnologia e rede integrada ajudam Campo Grande a registrar queda nas mortes de mulheres, mas desafio segue sendo chegar ao feminicídio zero

VIOLÊNCIA DE GÊNERO
Casa da Mulher Brasileira

A Casa da Mulher Brasileira de Campo Grande completou 11 anos de funcionamento consolidada como um dos principais pilares no enfrentamento à violência doméstica no país. Primeira unidade inaugurada no Brasil, em 3 de fevereiro de 2015, o equipamento soma 154 mil atendimentos e cerca de 2 milhões de encaminhamentos, segundo a Secretaria de Estado da Cidadania. Os números foram apresentados em cerimônia comemorativa realizada na sede da instituição, nesta segunda-feira (9), e vieram acompanhados de um dado simbólico: a redução em quase 50% dos feminicídios na Capital entre 2024 e 2025.

Autoridades municipais, estaduais e representantes do Judiciário, do Ministério Público, da Defensoria, da segurança pública e do terceiro setor destacaram que o resultado não é obra de uma única ação, mas de uma rede integrada que atua de forma contínua, com atendimento 24 horas e decisões compartilhadas entre Estado e município. Ao mesmo tempo, reforçaram que a meta é clara: chegar ao feminicídio zero.

Pioneirismo e modelo para o país - A Casa da Mulher Brasileira de Campo Grande foi inaugurada como projeto-piloto e se tornou referência nacional em acolhimento humanizado a mulheres em situação de violência. No mesmo espaço, a vítima encontra acolhimento psicossocial, alojamento de passagem para risco iminente, brinquedoteca para os filhos, transporte para a rede de apoio e atendimento permanente de órgãos de segurança, como a Patrulha Maria da Penha.

O equipamento é gerido pela Prefeitura de Campo Grande, por meio do órgão responsável pelas políticas públicas para as mulheres, em modelo de governança compartilhada com o Estado. A lógica é de decisões conjuntas, democráticas e transparentes, voltadas ao aprimoramento contínuo dos serviços.

Para quem chega à Casa, isso significa não precisar peregrinar por delegacias, fóruns, postos de saúde e serviços de assistência em busca de proteção. Toda a rede está concentrada em um único endereço, o que reduz o tempo de resposta e diminui a revitimização.

Angélica Fontanari destaca o papel da Casa da Mulher Brasileira na redução dos feminicídios em Campo Grande

“Aqui nós não mascaramos dados” - Durante a cerimônia, a secretária-executiva da Mulher de Campo Grande, Angélica Fontanari, lembrou o simbolismo de Campo Grande ter sido escolhida, em 2015, para receber a primeira unidade do país. Ela ressaltou o papel da Casa na proteção das mulheres e na forma como o Estado lida com a violência de gênero.

Segundo Angélica, um dos diferenciais de Mato Grosso do Sul é o enfrentamento direto ao problema, sem maquiar estatísticas. Ela afirmou que “infelizmente, a violência doméstica acontece em todas as classes sociais, em todas as cidades e em todos os recortes”, mas, em muitos lugares, ainda é subnotificada. Em seguida, destacou: “Em Mato Grosso do Sul, não. Aqui nós temos a coragem de realmente denominar o que é feminicídio, o que é homicídio, o que é lesão corporal contra a mulher. Nós não mascaramos dados”.

Ela lembrou que, enquanto em diversas regiões do país os índices de feminicídio cresceram, Campo Grande registrou queda. “Campo Grande reduziu o número de feminicídios em quase 50%. Em 2024, foram 11 feminicídios. Em 2025, 7. É motivo de alegria, sim, mas o nosso objetivo é que não tenha nenhum. É zero”, reforçou.

Angélica também chamou a atenção para um dado preocupante: dos sete feminicídios contabilizados no último ano, apenas uma vítima havia passado pela Casa e registrado boletim de ocorrência. Para ela, isso evidencia a necessidade de encorajar mais mulheres a procurar ajuda e denunciar agressões. “Nós precisamos continuar encorajando as mulheres de que, se foram vítimas de violência, tem saída. Tem pessoas preparadas para ajudar, sem julgamento”, disse.

Autoridades, gestoras e parceiras da rede de proteção presentes na comemoração dos 11 anos da Casa da Mulher Brasileira em Campo Grande

Botão da vida e resposta em menos de cinco minutos - Um dos pontos mais celebrados no evento foi a consolidação do aplicativo Proteja Mais Mulher, desenvolvido em parceria entre a Agência de Tecnologia, a Guarda Municipal e a Secretaria-Executiva da Mulher. Lançado em 2025, o sistema oferece um botão de emergência para mulheres que passaram pela Casa da Mulher Brasileira e solicitaram medida protetiva, com ou sem boletim de ocorrência.

Angélica disse que evita chamar o recurso de “botão do pânico”. “Eu não gosto desse termo. É o botão da vida”, resumiu.

O aplicativo é instalado no celular da mulher pela equipe da Casa. Em situação de risco, ela não precisa desbloquear o aparelho nem abrir o aplicativo na tela: com uma combinação nos botões laterais do celular, o pedido de ajuda é enviado de forma discreta.

Assim que é acionado, o sistema grava automaticamente cerca de cinco segundos de áudio ambiente. A orientação dada às usuárias é que, se possível, citem informações importantes nesse momento, como a presença do agressor ou se ele está armado. Mesmo sem fala, o áudio ajuda a equipe a entender o contexto.

Ao chegar à central de monitoramento da Guarda Municipal, o chamado vem acompanhado do georreferenciamento da vítima. Ou seja, mesmo que ela não esteja no endereço cadastrado, a equipe sabe exatamente onde ela está, seja em casa, em um posto de saúde ou na residência de um familiar.

O atendimento é direcionado ao guarda municipal mais próximo da ocorrência, já que a corporação atua nas sete regiões da cidade. Segundo Angélica, o tempo de resposta tem variado entre dois minutos e meio e quatro minutos e meio. Ela destacou que “todos os casos em que o botão foi acionado tiveram resposta em menos de cinco minutos” e avaliou que isso é “política pública na prática, efetividade na prática”.

Viviane Luiza apresenta os números da Casa da Mulher Brasileira e reforça a importância da política pública para as mulheres

154 mil atendimentos e política de Estado - Secretária de Estado da Cidadania, Viviane Luiza da Silva definiu a Casa da Mulher Brasileira como uma “política pública estruturante”. Ao apresentar os números, ela disse: “São 11 anos, 154 mil atendimentos, 2 milhões de encaminhamentos. Esses são os números. E não são números, são mulheres. São vidas que nós encontramos através do cuidado, da integração e da política pública aqui estabelecida”.

Viviane reforçou que a Casa não é fruto de uma única gestão, mas de uma construção coletiva que envolve prefeitura, governo do Estado, Ministério Público, Defensoria, segurança pública, saúde, assistência social e o terceiro setor. Ela ressaltou que “essa política pública não é e nunca será de uma única gestão” e que o trabalho é de integração entre as instituições.

A secretária também citou a ampliação de ações para os 79 municípios de Mato Grosso do Sul, com programas de prevenção e atendimento em parceria com a rede estadual de ensino, por meio do programa Protege, que trabalha comportamento e igualdade de gênero em centenas de escolas. Segundo ela, “enquanto nós não trabalharmos o comportamento, e isso nós estamos fazendo dentro das escolas, nós não vamos conseguir enfrentar de fato a raiz da violência, que é a misoginia”.

Viviane destacou ainda a necessidade de olhar para as especificidades das mulheres do Estado, como indígenas, ribeirinhas, quilombolas e moradoras de cidades pequenas, além do incentivo à autonomia econômica por meio de cursos e qualificação para o mercado de trabalho, em ações que contam com a parceria do Sebrae. Ela também atualizou a situação de novas unidades da Casa da Mulher Brasileira em Ponta Porã, Corumbá e Dourados, que ainda passam por ajustes de terreno e plano de trabalho junto ao governo federal.

Vice-prefeita Camila Nascimento reafirma o compromisso da gestão municipal com a proteção e o acolhimento das mulheres.

Acolhimento, humanidade e prioridade de gestão - Representando o município, a vice-prefeita Camila Nascimento afirmou que a Casa da Mulher Brasileira é uma das prioridades da gestão municipal e ressaltou a importância do acolhimento para além dos procedimentos formais. Ela disse que “quando uma mulher procura a Casa da Mulher Brasileira, nós não queremos entregar apenas atendimento. Queremos entregar acolhimento”, e completou que a expectativa é de que a mulher não encontre apenas uma porta aberta 24 horas, mas também humanidade, “uma equipe capacitada, capaz de resgatar muito mais do que dignidade e proteção”.

Camila destacou ainda a importância de uma estrutura específica para a pauta de gênero dentro da administração municipal. Ao comentar a evolução do órgão, ela lembrou que “saímos de uma subsecretaria da mulher e viemos para uma secretaria executiva” e defendeu que é preciso seguir avançando, com a expectativa de que a secretaria exclusiva se concretize no futuro.

Ela também fez questão de reconhecer o trabalho da equipe da Casa e o envolvimento pessoal de quem atua no atendimento. Segundo a vice-prefeita, todos que estão ali “defendem a causa com o coração” e diferenciam números de vidas, preocupados não apenas com estatísticas, mas com o impacto real do trabalho no dia a dia das mulheres e suas famílias.

Carla Charbel relembra a trajetória da Casa da Mulher Brasileira e os avanços na gestão compartilhada do serviço.

Linha do tempo, equipe e bastidores do atendimento - Coordenadora estadual da Casa da Mulher, Carla Charbel lembrou marcos importantes da trajetória do equipamento desde sua inauguração em fevereiro de 2015. Ela citou que, em 2017, a Casa passou por uma reestruturação que incluiu a convocação de servidoras concursadas para compor o quadro permanente, o que foi um passo importante diante da demanda crescente. Ao longo dos anos, esse quadro foi ampliado com processos seletivos.

Em 2023, a unidade de Campo Grande inaugurou a primeira sala do IML dentro de uma Casa da Mulher Brasileira, fazendo história também no sistema de justiça, já que o espaço abriga uma vara especializada em análise de medidas protetivas. Carla lembrou que “história precisa ser contada para ser reconhecida e valorizada” e que o trabalho é coletivo e coeso.

Ela destacou ainda a decisão, em 2025, de estabelecer a gestão compartilhada entre Estado e município, assumida com apoio do governador e da secretária de Estado da Cidadania. Essa divisão de responsabilidades veio acompanhada de uma rede que reúne 253 servidores de diversas instituições.

Na esfera municipal, a coordenadora Carla Stephanini descreveu a rotina de quem está na linha de frente. Ela contou que a Casa recebe, em média, 1.300 mulheres por mês, cada uma com uma história e um contexto específico de violência. Ao falar sobre a equipe, resumiu que essa é “uma manhã de gratidão” a todas as pessoas que constroem o serviço no dia a dia.

Ela detalhou o percurso da mulher dentro da unidade: chegada na recepção, onde já começa o acolhimento; encaminhamento para o registro de boletim de ocorrência, quando é o caso; atendimento psicossocial; brinquedoteca para as crianças enquanto a mãe é atendida; central de transporte para levá-la a serviços de saúde ou outros órgãos; presença da Funsat para apoio na qualificação e inserção no mercado de trabalho; e funcionamento do IML 24 horas dentro da Casa.

Outro ponto citado foi o acompanhamento continuado das mulheres em situação de maior risco, em que técnicas ligam, visitam e fazem um “princípio social continuado” até que a mulher consiga sair do ciclo de violência. Para a coordenadora, as pessoas que atuam ali “trabalham 12 horas ouvindo situações de violência”, atendendo mulheres que chegam fragilizadas, e, mesmo impactadas pelas histórias, não podem deixar que o enrijecimento emocional comprometa o acolhimento.

Carla também comentou a reforma em andamento na estrutura física da Casa, que acontece, como ela descreveu, “durante chuva, num caos diário”, mas é vista como necessária para melhorar o espaço de atendimento. Segundo ela, depois de tantos anos, a instituição passa pela primeira reforma, e a nova recepção deve ser entregue em breve.

Sandra Amarilha ressalta a importância da autonomia financeira e do empreendedorismo para romper o ciclo da violência.

Autonomia financeira e mudança de cultura - A diretora do Sebrae em Mato Grosso do Sul, Sandra Amarilha, reforçou que quebrar o ciclo da violência também passa pela autonomia financeira das mulheres. Ela explicou que o Sebrae “chega com a esperança” justamente quando a mulher precisa de independência econômica para conseguir romper com o agressor. Segundo Sandra, o objetivo é colocar essa mulher “no caminho mais seguro do empreendedorismo”, na geração da própria renda e no sustento dos filhos, garantindo inclusão social pela via do trabalho.

Ela convidou as instituições e a sociedade a participarem do Delas Day, evento marcado para os dias 24 e 25 de fevereiro, no Bosque Expo, onde diferentes órgãos vão apresentar à população os serviços disponíveis às mulheres. Na avaliação dela, momentos como esse mostram à sociedade que “juntas nós podemos muito mais” no enfrentamento à violência.

Vereadora Luiza Ribeiro defende o fortalecimento das políticas de gênero e critica a naturalização da violência contra a mulher.

Parlamentares presentes lembraram que o enfrentamento à violência depende também de mudança cultural. A vereadora Luiza Ribeiro apontou a necessidade de estruturas governamentais mais robustas para a pauta de gênero e criticou a naturalização da misoginia em músicas, símbolos e práticas do cotidiano. Ela citou, por exemplo, letras de canções que rebaixam mulheres e questionou o impacto de hinos e discursos oficiais que não mencionam a participação feminina na construção da sociedade.

A deputada estadual Mara Caseiro resgatou o histórico de invisibilidade da violência contra a mulher e a evolução do debate na última década. Ela contou que, ao chegar à Assembleia Legislativa, em 2011, o tema era difícil de ser tratado e muitas vezes era naturalizado. Hoje, segundo ela, “todos os órgãos discutem atividades e ações no combate à violência contra a mulher”, mas ainda há muito a avançar, especialmente na prevenção.

Mara defendeu que esse trabalho comece em casa e nas escolas, mudando padrões de educação de meninos e meninas para que não haja diferença de direitos entre homens e mulheres. Ela também lembrou a importância de programas que garantam independência financeira para que a mulher não se sinta obrigada a permanecer em relacionamentos violentos por causa dos filhos ou da falta de renda.

Deputada Mara Caseiro destaca o papel da educação e da legislação no combate à violência contra as mulheres.

Desafio permanente: transformar dor em proteção - Ao final da cerimônia, o tom foi de celebração pelo caminho já percorrido, mas também de responsabilidade diante do que ainda falta fazer. As falas convergiram na ideia de que a Casa da Mulher Brasileira é mais do que um prédio: é uma rede de pessoas, serviços e decisões que, há 11 anos, trabalha para transformar dor em proteção e medo em possibilidade de recomeço.

O recado para as mulheres em situação de violência foi unânime. A mensagem é que não é preciso enfrentar sozinha, que há uma estrutura preparada para acolher, orientar, proteger e ajudar a reconstruir a vida. O objetivo declarado, tanto por gestorxs quanto pela equipe, é que os números de feminicídio continuem caindo até chegar a zero.