STJ restabelece indenização de R$ 1 milhão à família de estudante morta em excursão escolar
Tribunal reconhece negligência da escola em caso ocorrido em 2015 durante atividade fora de São Paulo
JUSTIÇAO Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu restabelecer em R$ 1 milhão o valor da indenização por danos morais à família de Victoria Mafra Natalini, adolescente de 16 anos que morreu em 2015 durante uma excursão escolar organizada pela Escola Waldorf Rudolf Steiner, na zona sul de São Paulo. A decisão reformou entendimento do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), que havia reduzido o valor para R$ 400 mil.
Victoria morreu enquanto participava de uma atividade pedagógica em uma fazenda no município de Itatiba, no interior paulista. Um laudo complementar confirmou que a causa da morte foi estrangulamento. O crime segue sem autoria identificada.
A decisão do STJ foi proferida na última terça-feira (3), em voto do relator do caso, ministro Antônio Carlos Ferreira. O acórdão tem publicação prevista para esta terça-feira (10). Para o magistrado, ficou comprovada a negligência da instituição de ensino ao permitir que a estudante se afastasse do grupo sem acompanhamento.
Ao justificar a responsabilização da escola, o ministro destacou que “os pais depositam em mãos alheias (escola) aquilo que de mais precioso têm na vida”, reforçando o dever de cuidado da instituição em atividades realizadas dentro ou fora do ambiente escolar.
Entendimento unânime sobre negligência - De acordo com o advogado da família, Rui Celso Reali Fragoso, todas as instâncias reconheceram a falha da escola no dever de vigilância. Segundo ele, a decisão do STJ reafirma um entendimento já consolidado ao longo do processo judicial.
“Em todas as instâncias houve decisão unânime de que a escola foi negligente. É claro que o valor não vai reparar a perda da família, mas serve para inibir futuros comportamentos irresponsáveis da escola ou de qualquer outra no dever de cuidar dos alunos em programas dentro ou fora das escolas”, afirmou.
O Estadão informou que tentou contato com a Escola Waldorf Rudolf Steiner, mas não obteve resposta até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto para manifestação da instituição.
Reação da família - Após a decisão do STJ, o pai de Victoria, João Carlos Natalini, publicou uma mensagem nas redes sociais comemorando o desfecho judicial. No texto, ele afirmou que a luta da família finalmente foi reconhecida pela Justiça e que a decisão contribui para o esclarecimento do caso.
“STJ responsabiliza e condena a escola Waldorf Rudolf Steiner. Quem nos conhece sabe da nossa luta. Finalmente sendo reconhecida pela Justiça e mostrando a verdade a todos”, escreveu.
O que aconteceu com Victoria Natalini - O caso ocorreu em setembro de 2015. Victoria e outros 20 estudantes participavam de uma excursão escolar à Fazenda Pereiras, em Itatiba, na região de Jundiaí, onde realizariam um trabalho de topografia. Na tarde do dia 16, a adolescente se afastou do grupo em uma área de mata e não retornou.
Segundo o advogado da família, Victoria teria ido sozinha ao banheiro da fazenda, localizado a cerca de um quilômetro do ponto onde o grupo estava. Ela não foi acompanhada por monitores ou responsáveis da escola. Horas depois, uma funcionária da fazenda percebeu a ausência da jovem e acionou o Corpo de Bombeiros.
O corpo foi localizado no dia seguinte. À época, a Polícia Militar informou que as roupas estavam intactas e que não havia sinais aparentes de violência ou roubo. A perícia inicial do Instituto Médico-Legal (IML) de Jundiaí apontou causa da morte inconclusiva.
Posteriormente, peritos contratados pela família elaboraram um laudo complementar que concluiu pela morte por asfixia, causada por estrangulamento. Segundo a defesa, esse laudo não foi contestado no processo judicial. “A asfixia é comprovada e demonstrada. Não existe qualquer questionamento em relação a este laudo”, afirmou o advogado.
Decisão com efeito pedagógico - Ao restabelecer o valor fixado em primeira instância, o STJ considerou que a indenização tem também caráter educativo, ao sinalizar a escolas e instituições de ensino a responsabilidade sobre a integridade física e psicológica de alunos em atividades extracurriculares.
A decisão encerra uma etapa importante do processo movido pela família de Victoria e reforça a obrigação legal das escolas de garantir acompanhamento adequado de estudantes, especialmente em atividades realizadas fora do ambiente escolar.