The Conversation/E+ | 08 de fevereiro de 2026 - 11h30

Quatro em cada dez infartos ocorrem em pessoas fora do grupo de risco, aponta estudo

Pesquisa internacional indica possíveis falhas nos modelos atuais de avaliação cardiovascular

SAÚDE
Estudo internacional aponta que parte dos infartos ocorre em pessoas consideradas de baixo risco. - (Foto: Drazen Zigic/Freepik)

Um estudo internacional identificou que quatro em cada dez infartos ocorrem em pessoas classificadas como de baixo risco cardiovascular, segundo os modelos tradicionais usados na prática clínica, dado revelado pelo estudo PURE, que acompanhou cerca de 200 mil pessoas em 21 países, incluindo o Brasil.

Na prática, isso indica que aproximadamente 40% dos infartos acontecem fora das estratégias de prevenção, já que esses indivíduos não costumam receber acompanhamento intensivo nem são tratados como prioridade pelas políticas de saúde, o que evidencia falhas na forma atual de avaliação do risco cardiovascular.

O PURE é uma coorte prospectiva internacional, método que acompanha o mesmo grupo ao longo do tempo para observar a relação entre fatores de risco, adoecimento e mortalidade, com foco em doenças cardiovasculares em contextos urbanos e rurais e diferentes níveis de renda e acesso à saúde.

Os dados, analisados em conjunto com estudos como InterHeart e InterStroke, mostram que o adoecimento cardiovascular acompanha mudanças no modo de vida, com redução das doenças infecciosas e aumento de sedentarismo, alimentação inadequada e estresse, favorecendo obesidade, hipertensão, diabetes, colesterol alterado e, posteriormente, infarto e AVC.

O estudo InterHeart apontou que nove fatores explicam cerca de 90% do risco de infarto, entre eles tabagismo, pressão alta, obesidade abdominal, diabetes, alimentação inadequada, sedentarismo, consumo de álcool, estresse e depressão. No Brasil, se destacam dislipidemia, obesidade abdominal, tabagismo, hipertensão e estresse emocional, o que ajuda a explicar por que eventos cardiovasculares nem sempre atingem apenas quem está no grupo de alto risco.

O InterStroke identificou padrão semelhante para o AVC, com dez fatores respondendo por cerca de 90% dos casos, reforçando que grande parte desses eventos poderia ser evitada com ações preventivas mais amplas. O PURE também apontou o paradoxo do risco cardiovascular, no qual países de maior renda apresentam mais fatores de risco, mas menos eventos graves e menor mortalidade, enquanto regiões de menor renda concentram mais infartos, AVCs e mortes, diferença associada ao acesso desigual a diagnóstico, tratamento e medicamentos.

A alimentação mostrou influência direta nos resultados, com dietas ricas em carboidratos associadas a maior mortalidade, enquanto o consumo de frutas, legumes, verduras e proteínas se relacionou a menor risco de morte. A gordura trans apresentou efeito negativo claro, enquanto a gordura animal não se associou ao aumento da mortalidade.

A atividade física apareceu como fator de proteção consistente, reduzindo infartos, AVCs e mortes, assim como a força muscular, que se mostrou associada a menor risco de mortalidade.

A hipertensão arterial segue como principal fator de risco no Brasil, atingindo cerca de 45% dos adultos, embora apenas 18% mantenham a pressão controlada, e aproximadamente metade desconheça o diagnóstico. Mesmo após um evento cardiovascular, a prevenção ainda falha, já que 20% dos pacientes pós-infarto e 30% dos que tiveram AVC no Brasil não utilizam medicação preventiva, apesar da existência de tratamentos eficazes.

Os pesquisadores apontam que cerca de 70% dos eventos cardiovasculares e das mortes precoces estão ligados a fatores modificáveis, o que reforça que o principal desafio atual não é a falta de conhecimento, mas a dificuldade de transformar evidências científicas em prática clínica, políticas públicas e escolhas cotidianas.