Mensagem liga PM investigado a ex-presidente da Câmara de São Paulo
Inquérito aponta proximidade de policiais presos com Milton Leite, que nega qualquer relação com esquema
INVESTIGAÇÃOUma mensagem atribuída ao 3º sargento da reserva da Polícia Militar Nereu Aparecido Alves indica, segundo a Corregedoria da PM, a proximidade do grupo de policiais liderado pelo capitão Alexandre Paulino Vieira com o então presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite (União Brasil). A troca de mensagens integra um Inquérito Policial Militar (IPM) que embasou a Operação Kratos, deflagrada no último dia 4, para apurar um suposto esquema de segurança privada envolvendo diretores da empresa de ônibus Transwolff, investigados por vínculos com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Alexandre Paulino Vieira é apontado pela Corregedoria como líder do grupo de policiais que prestaria serviços de proteção a empresários ligados à Transwolff. Durante a operação, ele foi preso juntamente com Nereu Aparecido Alves e o sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário. Na casa de Nereu, os investigadores apreenderam uma mala com cerca de R$ 1 milhão em dinheiro vivo.
A mensagem que chamou a atenção dos investigadores foi localizada no celular do empresário Cícero de Oliveira, conhecido como “Té”, um dos alvos da Operação Fim da Linha, que apura a infiltração do PCC no transporte público paulistano. O conteúdo é datado de 18 de agosto de 2023, período em que Milton Leite ainda presidia a Câmara Municipal.
No texto, Nereu informa ao empresário que estaria “cumprindo uma agenda” e que iria demorar, pois estava “na inauguração da escola com o nome da mãe do chefe Milton”. Segundo a Corregedoria, a referência é ao Centro de Educação Infantil Nathalia Pereira da Silva, homenagem à mãe do então vereador. O evento contou com a presença do prefeito Ricardo Nunes (MDB).
Na mesma conversa, o sargento afirma que estava com o “celular do chefe” e que o aparelho teria sido repassado pelo “capitão”. À época, Nereu já estava na reserva da PM, o que levantou questionamentos dos investigadores sobre sua eventual ligação com a Assessoria Militar da Câmara, chefiada pelo capitão Alexandre Paulino Vieira naquele período.
Procurado, Milton Leite negou qualquer vínculo com o sargento e com o esquema investigado. Ao Estadão, o ex-vereador afirmou que não conhece Nereu Aparecido Alves, que sua escolta sempre foi realizada pela Assessoria Militar da Câmara e que nunca participou da escala ou da escolha dos policiais responsáveis por sua segurança. Ele também rejeitou de forma categórica qualquer ligação com empresários associados ao PCC.
Além dos três policiais presos, outros quatro PMs são investigados por suspeita de integrar a organização criminosa, entre eles o tenente-coronel José Henrique Martins Flores, além de um subtenente, um sargento e um cabo. A reportagem busca contato com as defesas dos envolvidos, e o espaço permanece aberto para manifestações.
As investigações apontam que Nereu era considerado braço-direito do capitão Alexandre na gestão do contrato de segurança com a Transwolff. De acordo com a Corregedoria, ele teria atuado na escolta pessoal de Luiz Carlos Efigênio Pacheco, conhecido como Pandora, presidente da empresa e réu em processo por associação criminosa e lavagem de dinheiro ligada ao PCC. Pandora teve a prisão preventiva decretada em abril de 2024.
Mensagens analisadas no inquérito indicam que Nereu também realizava depósitos em dinheiro a pedido de Cícero de Oliveira. Para o corregedor Fábio Sérgio do Amaral, “é possível que Nereu tenha realizado serviço de escolta de valores até o banco”. A apuração identificou conversas frequentes entre o policial da reserva e o empresário entre setembro de 2020 e abril de 2024.
A Corregedoria também investiga por que Nereu se referia a Milton Leite como “chefe” e se policiais da reserva eram utilizados na segurança do então presidente da Câmara. Em 2023, o Ministério Público de São Paulo chegou a obter a quebra do sigilo bancário de Milton Leite, no contexto das investigações envolvendo a Transwolff, mas ele não foi denunciado.
Em nota divulgada quando da deflagração da Operação Kratos, a Câmara Municipal informou que apenas o capitão Alexandre Paulino Vieira integrava a Assessoria Militar da Casa. Segundo a instituição, Nereu nunca atuou no órgão e os demais PMs presos também não tinham vínculo com a assessoria. A Casa ressaltou ainda que não há registros funcionais que desabonem a atuação do capitão no exercício de suas funções internas.
Para os investigadores, o caso evidencia a necessidade de aprofundar o combate à infiltração do crime organizado em estruturas do Estado. No pedido de prisão, a Corregedoria destacou que “não existe crime organizado sem a cooptação de agentes públicos”, apontando a gravidade institucional do esquema apurado.