Dólar cai a R$ 5,22 e real se destaca em semana de apetite por risco
Moeda brasileira resiste a volatilidade externa e pode seguir beneficiada por fluxo global
ECONOMIAO dólar encerrou esta sexta-feira (6) em queda firme no mercado doméstico, acompanhando a desvalorização global da moeda americana, a recuperação dos preços das commodities e o maior apetite dos investidores por ativos de risco. Mesmo em meio a um cenário externo marcado por sinais ambíguos da economia dos Estados Unidos, o real apresentou desempenho positivo ao longo da semana.
No fechamento, o dólar à vista recuou 0,63%, cotado a R$ 5,2204, após atingir mínima de R$ 5,2058 durante o pregão. Com isso, a moeda americana acumulou queda de 0,52% na primeira semana de fevereiro, ampliando o movimento iniciado em janeiro, quando o dólar já havia registrado recuo expressivo de 4,40% — a maior desvalorização mensal desde junho de 2025.
Operadores avaliam que o real mostrou resiliência mesmo nos momentos em que o dólar avançou no exterior ao longo da semana. Esse comportamento foi observado em meio às reações do mercado à indicação do ex-diretor do Federal Reserve Kevin Warsh para a presidência do banco central americano e à divulgação de dados econômicos contraditórios nos EUA.
Para analistas, o real ainda pode se beneficiar nas próximas semanas do movimento global de diversificação de portfólios, com investidores reduzindo exposição a ativos denominados em dólar. Mesmo com a expectativa de início do ciclo de cortes da taxa Selic pelo Comitê de Política Monetária (Copom) a partir de março, os juros brasileiros devem permanecer elevados, o que tende a desestimular posições compradas em dólar.
“O fluxo estrangeiro que levou o Ibovespa a sucessivos recordes e contribuiu para a apreciação do real em janeiro parece ter passado por uma equalização”, avalia Otávio Oliveira, gerente de tesouraria do Daycoval. Segundo ele, o dólar pode ter encontrado um patamar de suporte próximo a R$ 5,20. “Não vemos, neste momento, perspectivas de entradas tão fortes como as do início do ano”, afirma.
Cenário externo segue influente
No exterior, o índice DXY — que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes — operava em leve baixa nesta sexta-feira, ao redor dos 97,640 pontos no fim da tarde. Ainda assim, o indicador deve fechar a semana com alta próxima de 0,50%.
A indicação de Kevin Warsh para comandar o Federal Reserve a partir de maio trouxe volatilidade aos mercados nos últimos dias. O histórico mais rigoroso de Warsh no combate à inflação foi interpretado como um possível obstáculo à continuidade dos cortes de juros nos Estados Unidos, o que inicialmente fortaleceu o dólar globalmente.
“A nomeação de Warsh gerou bastante incerteza, especialmente por sua postura mais dura em relação à inflação”, explica André Valério, economista sênior do banco Inter. “Isso contribuiu para a valorização do dólar no início da semana e aumentou a volatilidade das moedas emergentes, como o real, além de afetar as commodities metálicas.”
Economistas da Armor Capital destacam que, além da questão do Fed, os investidores assimilaram dados americanos que apontam uma divisão clara entre uma atividade econômica ainda resiliente e um mercado de trabalho em desaceleração.
O índice de atividade industrial do Instituto para Gestão da Oferta (ISM) subiu de 47,9 em dezembro para 52,6 em janeiro, superando as expectativas. Em contrapartida, indicadores de emprego, como os relatórios ADP e Jolts, vieram abaixo do esperado.
“Essa descorrelação entre atividade e emprego elevou a volatilidade dos preços dos ativos, levando as commodities metálicas a devolverem parte dos ganhos acumulados em janeiro”, afirmam os economistas da Armor.
Expectativa para os próximos dados
Segundo André Valério, os sinais de enfraquecimento do mercado de trabalho aumentam a atenção dos investidores para o relatório oficial de emprego (payroll) de janeiro, que será divulgado no próximo dia 11.
“Se a piora do mercado de trabalho se confirmar, combinada com uma inflação mais comportada, podemos ver uma moderação no tom do FOMC, abrindo espaço para a retomada do ciclo de cortes de juros já em março”, avalia.
Enquanto isso, o comportamento do real segue sendo observado de perto pelo mercado, que vê na moeda brasileira um dos destaques positivos entre os emergentes neste início de ano.