Dupla aposta no sertanejo raiz e transforma encontros casuais em carreira profissional
Danilo e Fernanda contam como a parceria nasceu de forma espontânea e ganhou espaço nos palcos do interior
MÚSICA SERTANEJAA história musical de Danilo e Fernanda não começou em estúdios nem em grandes palcos. Surgiu de forma simples, em encontros de família, rodas de amigos e apresentações despretensiosas, até que a resposta do público passou a indicar que havia ali algo além da diversão. Hoje, há cerca de dois anos e meio na estrada de forma profissional, a dupla aposta no sertanejo mais tradicional como identidade e busca consolidar espaço no cenário regional.
Danilo cresceu em meio à música. Desde a infância, conviveu com tios que tocavam à noite e, por muitos anos, participou ativamente da banda de uma igreja evangélica, onde teve contato direto com instrumentos e repertório. Apesar dessa vivência, o caminho profissional só começou a se desenhar quando conheceu Fernanda. “Cantávamos juntos sem compromisso, em reuniões de família e encontros informais. As pessoas começaram a incentivar, e foi aí que resolvemos tentar levar a música a sério”, relembra.
A parceria surgiu sem planejamento. Danilo conta que, quando conheceu Fernanda, já tinha outro projeto musical. O primeiro contato aconteceu em um churrasco, por intermédio da esposa dele, que estudou com a irmã da cantora. “Começamos a cantar juntos ali, de forma totalmente descontraída. As vozes combinaram, houve um entrosamento natural, mas sem nenhuma pretensão profissional. A dupla foi se formando aos poucos”, afirma.
Identidade no sertanejo tradicional - A escolha pelo sertanejo raiz não foi estratégica, mas natural. Danilo sempre se identificou com o estilo mais clássico do gênero, enquanto Fernanda cresceu ouvindo sertanejo no rádio e cantando desde criança, especialmente no ambiente da igreja. “É um estilo que soa verdadeiro para mim, que sempre gostei de ouvir e cantar”, diz Fernanda.
Atualmente, a dupla se apresenta no formato voz, violão e sanfona. Ainda sem banda fixa, Danilo explica que a estrutura mais enxuta faz parte do momento inicial da carreira. “Existe o desejo de crescer e montar uma banda no futuro, mas hoje esse formato funciona bem”, afirma. Para Fernanda, a combinação de violão e sanfona acaba se tornando um diferencial, principalmente para o público que aprecia o sertanejo mais tradicional.
O primeiro show fora da cidade foi em Porto Murtinho, durante a inauguração de um restaurante. O convite se repetiu no aniversário de um ano do local, o que, para a dupla, foi um sinal positivo. Apresentações em cidades como Sidrolândia também passaram a fazer parte do roteiro. “Muitos lugares acabam nos chamando novamente, e isso mostra que o público tem gostado do trabalho”, avalia.
Sensibilidade, superação e música - Danilo destaca que o que mais admira em Fernanda como artista é a sensibilidade musical. “Existe um sentimento verdadeiro quando cantamos juntos, algo que vai além da técnica. Mesmo sem vivermos exclusivamente da música, conseguimos transmitir emoção, e isso cria nosso entrosamento”, diz.
Ao longo da parceria, ele afirma ter aprendido muito com a postura da cantora diante da própria deficiência visual. “Ela nunca tratou isso como impedimento. Já tocamos em lugares com pouca estrutura, situações difíceis, e ela sempre esteve pronta. Essa determinação ensina muito sobre comprometimento e coragem”, afirma.
Fernanda conta que a música sempre esteve presente em sua vida. Cresceu em igreja, começou na percussão em fanfarra escolar e ganhou sua primeira sanfona ainda criança, como presente de Natal do pai. Nunca fez aulas formais do instrumento. O aprendizado veio da prática, da observação e da vontade de tocar. “Quando ganhei a sanfona, me apaixonei imediatamente pela sonoridade”, relembra.
Sobre a deficiência visual, Fernanda diz que sempre lidou com naturalidade. A família estimulou a autonomia desde cedo, e ela passou pelo processo de habilitação no Instituto Sul-Mato-Grossense para Cegos (ISMAC). “Nunca pensei em desistir. O que existe, muitas vezes, é o preconceito das outras pessoas. Cabe a mim mostrar, na prática, que essas barreiras podem ser superadas”, afirma.
Sonhos, palco e visibilidade - No palco, Fernanda descreve a experiência como única. “Ouvir o público cantar junto, sentir a energia das pessoas, perceber que a música está chegando até elas é algo indescritível”, diz. Para a dupla, esse retorno é o combustível para seguir em frente.
Danilo resume o momento atual como de construção. O sonho é crescer na música, conquistar mais espaço e, aos poucos, viver cada vez mais do trabalho artístico. Nesse processo, a visibilidade se torna fundamental. “Nos apresentamos muito em bares e eventos, com alcance limitado. Ter espaço na mídia ajuda a ampliar o público e a contar nossa história”, afirma.
Para Fernanda, o desafio vai além da música. Ela acredita que ainda faltam oportunidades para pessoas com deficiência mostrarem seus talentos. “Muita gente está preparada, tem capacidade, mas não recebe a chance. É preciso abrir mais portas, tanto pelo poder público quanto pela sociedade”, conclui.