Flávia Said e Naomi Matsui | 06 de fevereiro de 2026 - 15h50

Haddad defende juros de um dígito e diz que Selic alta pode comprometer ajuste fiscal

Ministro afirma que país não deve voltar a conviver com taxas de dois dígitos e comenta atuação do Banco Central

ECONOMIA
Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, defende redução dos juros e critica patamar atual da Selic. - Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou nesta sexta-feira (6) que o Brasil precisa perseguir uma taxa básica de juros de um dígito e evitar o retorno a patamares elevados, como o atual. A Selic está hoje em 15% ao ano, nível que, na avaliação do ministro, impõe restrições à economia e pode afetar inclusive a política fiscal.

Haddad falou durante reunião do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), em Salvador (BA), e depois respondeu a perguntas de militantes e convidados. Ao comentar a condução da política monetária, o ministro reconheceu a autonomia do Banco Central, mas fez ponderações sobre os efeitos da taxa atual.

“Eu sei que o Banco Central é o dono. Eu digo ao meu companheiro que foi advogado, trabalhou comigo, chegou lá pela mão do presidente Lula. Eu tenho dito que acho que a taxa de juros está restritiva num patamar que pode comprometer, inclusive, o trabalho fiscal”, declarou, ao citar o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.

Segundo Haddad, uma desaceleração mais intensa da economia tende a pressionar o resultado das contas públicas. “A partir do momento que a economia começar a desacelerar demais, você vai ter um rebatimento na política fiscal”, afirmou.

O ministro disse compreender os desafios enfrentados pela autoridade monetária, mas defendeu uma condução equilibrada da política de juros. Para ele, o sinal dado pelo último Comitê de Política Monetária (Copom), que indicou a possibilidade de início de cortes, aponta para uma trajetória mais previsível.

“É preciso buscar o traçado certo. Eu conheço os constrangimentos pelos quais o Banco Central passa. A sinalização do último Copom é de que essa trajetória de corte vai acontecer de forma consistente. Quem está naquela cadeira sabe onde está apertando o calo”, comentou.

Haddad afirmou que desde 2025 defende a construção de um caminho sustentável para a redução dos juros no país. “Nós temos que ir para um juro de um dígito e nunca mais pensar em juros de dois dígitos no Brasil”, disse.

Ao tratar do desempenho econômico, o ministro afirmou que, mesmo em um ambiente de juros elevados, há instrumentos para garantir crescimento mínimo da economia. Segundo ele, o Brasil deve ter registrado crescimento entre 2,2% e 2,4% no ano passado, mantendo uma média próxima de 3%.

“O ano passado, com tudo o que aconteceu, nós devemos ter crescido entre 2,2% e 2,4%, mantendo a média de 3%, que era o que eu pretendia quando apresentei para o Lula o plano de governo. É praticamente o dobro da média dos últimos oito anos”, afirmou. Para Haddad, esse patamar cria base para avanços mais consistentes no futuro.

Durante o encontro, o ministro também comentou a atuação do governo federal no combate à corrupção, ao citar entrevista concedida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na quinta-feira (5). Segundo Haddad, o atual governo atua de forma técnica e institucional no enfrentamento ao problema.

Ele afirmou que órgãos como a Polícia Federal, o Banco Central, a Receita Federal e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) trabalham sem interferência política. “A orientação do presidente é clara: quem fez, paga. Não tem partidarização, não tem politização. Pode ser ministro, pode ser parente, pode ser quem for, responde pelos seus atos”, declarou.

As declarações ocorrem em um momento de expectativa no mercado em relação ao início do ciclo de queda da Selic e em meio ao debate sobre os impactos dos juros elevados no crescimento econômico e no equilíbrio das contas públicas.