Endividamento das famílias brasileiras volta ao recorde, mas inadimplência cede levemente
Peic aponta que 79,5% das famílias têm dívidas; CNC vê espaço para queda dos juros e prevê recuo gradual da inadimplência em 2026
ECONOMIA NACIONALOs brasileiros começaram 2026 mais endividados, mas com uma ligeira melhora na inadimplência. É o que mostra a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
A proporção de famílias com algum tipo de dívida passou de 78,9% em dezembro para 79,5% em janeiro, voltando ao pico histórico registrado em outubro de 2025. Um ano antes, em janeiro de 2025, o porcentual era de 76,1%.
Para o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, o quadro está diretamente ligado ao patamar ainda elevado dos juros no País.
“É uma variável da economia que está estreitamente relacionada à taxa de juros cobrada no Brasil, uma das maiores do mundo. É fundamental priorizar o equilíbrio das contas públicas, para que a política monetária possa ser flexibilizada, aliviando a carga sobre consumidores e empresas”, afirmou em nota.
Apesar do novo recorde de endividamento, a fatia de famílias inadimplentes — aquelas com contas em atraso — mostrou leve recuo: passou de 29,4% em dezembro para 29,3% em janeiro. Em janeiro de 2025, era de 29,1%.
Por outro lado, aumentou a parcela dos que afirmam não ter condições de pagar as dívidas em atraso e, portanto, devem permanecer inadimplentes: de 12,6% em dezembro para 12,7% em janeiro, o mesmo patamar observado um ano antes.
A pesquisa também aponta que a fatia da renda mensal comprometida com dívidas subiu de 29,5% para 29,7% entre dezembro e janeiro, indicando maior pressão sobre o orçamento das famílias.
“O cenário é agravado pela percepção subjetiva das famílias: 16,1% dos consumidores declaram-se ‘muito endividados’, o maior porcentual desde outubro de 2025”, destacou a CNC.
Juros em foco e projeções para 2026
A CNC projeta que o número de endividados deve continuar avançando no primeiro semestre de 2026, mas com tendência de queda gradual da inadimplência, caso se confirme o início de um ciclo de redução da taxa básica de juros, a Selic, pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.
“Nossa expectativa é de alívio no atual aperto monetário a partir da próxima reunião do Copom. Essa percepção, unânime entre os analistas, tende a distensionar os juros na ponta aos consumidores já no segundo trimestre deste ano”, afirmou o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes.
A combinação de juros ainda altos, renda pressionada e sensação crescente de sobrecarga financeira mantém o endividamento em nível recorde. Ao mesmo tempo, a ligeira melhora nos atrasos e a expectativa de queda da Selic abrem espaço para algum alívio mais à frente — desde que o emprego e a renda se sustentem e as condições de crédito cheguem de fato ao bolso do consumidor.