Ex-presidente do São Paulo usou quase R$ 500 mil do cartão corporativo em gastos pessoais
Relatório aponta despesas de Júlio Casares com cabeleireiro e lojas de grife; valor foi devolvido apenas em 2025, em meio à crise e a investigações por desvio de verbas
CRISE NO CLUBEUma investigação do Conselho Fiscal do São Paulo identificou que o ex-presidente Júlio Casares utilizou quase R$ 500 mil em gastos de caráter pessoal no cartão corporativo do clube entre 2021 e 2026. Segundo apuração do ge, o dirigente só devolveu o montante — com juros e correção monetária — no segundo semestre do ano passado, quando a crise financeira e administrativa do Tricolor já havia explodido.
Entre as despesas apontadas estão serviços de cabeleireiro e compras em lojas de grife, itens sem relação direta com a atividade do clube.
De acordo com a reportagem, nenhum órgão interno do São Paulo cobrou prestação de contas detalhada sobre os gastos do cartão desde o início da gestão Casares. À época, não havia uma política específica que determinasse prazo para devolução ou regras mais rígidas de uso.
Somente após a devolução do valor é que o diretor de compliance, Roberto Armelin, elaborou uma diretriz exclusiva para o uso de cartões corporativos.
Pessoas ligadas ao clube ouvidas pelo ge afirmam que o Código de Ética e Conduta do São Paulo já trazia parâmetros suficientes para orientar um uso responsável do cartão. Por outro lado, a ausência de fiscalização e de cobrança mais firme por parte do diretor financeiro, Sergio Pimenta, teria gerado incômodo em diferentes alas internas.
Em nota, o São Paulo informou que o “departamento financeiro detectou a necessidade de um aprimoramento no processo de acompanhamento” das despesas e confirmou que o setor de compliance solicitou a criação de uma nova política para o uso dos cartões. O clube também confirmou que Casares devolveu integralmente os valores gastos, “com adição de juros e correção monetária”.
Renúncia em meio a investigações
Júlio Casares renunciou à presidência do São Paulo em janeiro deste ano, após o avanço de investigações sobre um suposto esquema de desvio de verbas no clube. O caso é apurado por uma força-tarefa do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Civil.
As apurações miram, entre outros pontos, saques de R$ 11 milhões feitos pelo clube diretamente na boca do caixa. No mesmo período, o ex-presidente recebeu depósitos em espécie que somam R$ 1,5 milhão.
A direção são-paulina alega que o dinheiro sacado foi usado para pagamento de despesas em dias de jogo. Casares, por sua vez, afirma que todos os valores têm “lastro” e origem justificável.
Outros inquéritos investigam o uso irregular de espaços do clube, como o camarote 3A do MorumBis, além de supostas cobranças irregulares feitas a concessionários que exploram áreas comerciais do estádio.
O caso dos gastos no cartão corporativo se soma a esse contexto de questionamentos sobre governança, transparência e controle interno no São Paulo, que tenta reconstruir sua imagem institucional em meio à pressão de torcedores, conselheiros e órgãos de fiscalização.