Redação | 05 de fevereiro de 2026 - 12h00

Agenda cheia demais: quando a rotina das crianças vira uma maratona

Excesso de atividades extracurriculares e pressão por desempenho podem afetar a saúde emocional das crianças

ROTINA INFANTIL
Excesso de atividades extracurriculares e pressão por desempenho podem prejudicar a saúde emocional das crianças, gerando ansiedade e sobrecarga. - (Foto: Divulgação)

Em muitas casas, a infância tem sido vivida em um ritmo acelerado. A mochila chega, o relógio não para e, antes mesmo de conseguir descansar, as crianças já têm uma agenda repleta de compromissos: escola, inglês, esporte, tarefa de casa, banho, jantar e, finalmente, o descanso, que acaba sendo curto. Essa rotina, que deveria ser leve e divertida, tem se transformado em uma verdadeira maratona diária para muitas crianças.

A ideia de dar oportunidades e estimular o desenvolvimento dos filhos é positiva, mas o equilíbrio entre incentivar e sobrecarregar pode ser mais tênue do que se imagina. Maísa Colombo, coordenadora do curso de Psicologia da Estácio, explica que tanto a falta quanto o excesso de atividades podem ser prejudiciais ao desenvolvimento da criança. “É importante que haja equilíbrio, o excesso pode gerar danos emocionais profundos”, destaca.

A infância atual tem sido marcada pela multiplicação de atividades extracurriculares e pela cobrança por desempenho desde cedo. A psicóloga e pedagoga alerta que ambientes excessivamente exigentes podem formar crenças disfuncionais, como a ideia de que a criança só será valorizada se se destacar ou, ainda, que errar não é permitido. “O cérebro infantil precisa de tempo para brincar, para se conectar emocionalmente e para descansar. Esses momentos são essenciais para o desenvolvimento da autorregulação emocional”, afirma Maísa.

Quando se preocupar - O problema surge quando a rotina da criança é moldada mais pelas expectativas dos adultos do que pelas necessidades dela. Quando a criança não tem espaço para descanso, ócio e brincadeiras espontâneas, seu corpo e comportamento começam a dar sinais de sobrecarga. A psicóloga explica que “o brincar espontâneo é fundamental para a construção da personalidade. Quando a criança vive em função de demandas externas, perde a oportunidade de expressar a sua identidade e desenvolver autonomia emocional”.

Esses sinais de sobrecarga nem sempre são evidentes e podem ser confundidos com “fase” ou “birra”. Irritabilidade, ansiedade, choro frequente, dificuldade de concentração, distúrbios do sono e queixas físicas como dor de barriga e dor de cabeça são alguns dos principais indícios de que a criança está sobrecarregada. Além disso, surgem medos excessivos, perfeccionismo precoce, desmotivação e comportamentos agressivos.

Impactos a longo prazo - O excesso de atividades não afeta apenas o comportamento, mas também o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança. No aspecto cognitivo, o excesso de compromissos pode prejudicar a atenção, o aprendizado e a memória. Em termos emocionais, a criança pode desenvolver ansiedade, baixa tolerância à frustração e uma dependência excessiva de validação externa. Na vida escolar, os resultados são claros: queda no rendimento, desinteresse pela escola e até resistência em frequentá-la, associando o ambiente escolar a um lugar de pressão e cansaço.

A pressão por desempenho e o excesso de atividades podem afetar a saúde emocional das crianças, prejudicando seu equilíbrio e bem-estar.

O que fazer - Para restaurar o equilíbrio, a psicóloga Maísa Colombo sugere que o tempo livre seja valorizado, não visto como “tempo perdido”. É durante o ócio que a criança fortalece a criatividade, a autonomia e a capacidade de resolver problemas. Ela também afirma que até o “tédio saudável” tem importância, pois permite à criança criar, explorar e se organizar internamente.

Além disso, as famílias devem priorizar o bem-estar da criança, limitando as atividades extracurriculares e garantindo tempo diário para o descanso e a brincadeira. “Escutar a criança com atenção, respeitar seu ritmo e evitar comparações são atitudes essenciais para reduzir a pressão e promover sua saúde emocional”, orienta.

Quando os sinais de ansiedade intensa, alterações comportamentais significativas, distúrbios de sono persistentes ou queixas psicossomáticas se tornam frequentes, a orientação profissional deve ser buscada. Esses sinais podem indicar que a criança não está conseguindo se autorregular emocionalmente e precisa de apoio para retomar o equilíbrio.

A psicóloga conclui lembrando que a infância não deve ser uma corrida por desempenho. A criança precisa de tempo para brincar, afeto e segurança para crescer emocionalmente saudável. O descanso e a liberdade para explorar o mundo à sua maneira são fundamentais para a construção de um equilíbrio emocional ao longo do desenvolvimento.