Circe Bonatelli | 04 de fevereiro de 2026 - 13h55

Bets retiram recursos do consumo e pressionam vendas em shoppings, diz Abrasce

Presidente da associação afirma que apostas e comércio eletrônico afetam consumo, apesar de avanço do lazer nos centros comerciais

COMÉRCIO
Associação de shoppings afirma que apostas esportivas e comércio online reduzem recursos destinados ao consumo presencial. - (Foto: Imagem Ilustrativa/A Critica)

A consolidação dos sites de apostas esportivas, conhecidos como bets, tem impactado diretamente o consumo no Brasil e afetado o desempenho dos shopping centers. A avaliação é do presidente da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), Glauco Humai, que afirmou nesta quarta-feira (4) que parte do dinheiro que antes ia para o varejo agora está sendo direcionada às plataformas de apostas.

“As bets estão tirando, sim, dinheiro do consumo e dos shoppings”, disse Humai, durante entrevista coletiva à imprensa. Segundo ele, o volume movimentado por esse mercado é expressivo e ajuda a explicar a pressão sobre o comércio tradicional.

De acordo com a Abrasce, as bets movimentam cerca de R$ 30 bilhões por ano no país. Para Humai, esse montante tem peso relevante, especialmente entre consumidores de menor renda, que acabam reduzindo gastos em compras presenciais.

“As pessoas que estão com pouco dinheiro, muito endividadas e ainda jogando nas bets têm mais dificuldade para comprar”, afirmou o presidente da entidade, ao comentar o impacto do endividamento e da mudança de hábitos de consumo.

Além das apostas, outro fator de concorrência crescente para os shoppings é o avanço do comércio eletrônico. Humai reconheceu que a melhora na logística e a ampliação da cobertura das entregas tornaram as compras online mais atrativas para parte dos consumidores.

“Antes as pessoas pegavam o carro para ir ao shopping, mas hoje podem comprar certos itens pela internet”, admitiu. Segundo ele, a conveniência e a rapidez das entregas influenciam a decisão de compra, especialmente em categorias que não exigem experiência presencial.

Diante desse cenário, os shoppings vêm buscando se reinventar para manter o fluxo de visitantes. A estratégia tem sido ampliar o foco para além das compras, incorporando serviços, lazer e alimentação como pilares centrais do negócio.

Operações como academias, clínicas médicas, centros de estética e outros serviços ganharam espaço nos últimos anos. Esse movimento tem refletido diretamente no comportamento do público. O tempo médio de permanência dos visitantes nos shoppings chegou a 80 minutos, o maior já registrado pelo setor.

Nos anos anteriores, essa média girava em torno de 73 minutos. Durante o período mais crítico da pandemia, o tempo de permanência havia caído para menos de 30 minutos, o que evidencia a recuperação gradual do setor após as restrições sanitárias.

Mesmo com os desafios impostos pelas bets, pelo comércio eletrônico e pelo cenário econômico, Humai avaliou como positivo o crescimento de 1,2% nas vendas dos shoppings em 2025. Para ele, o resultado poderia ter sido melhor, mas foi influenciado por fatores macroeconômicos.

“O crescimento poderia ter sido maior que 1,2%, mas o ano foi confuso. O juro foi muito alto no ano passado, pode ter tirado um pouco do afã dos lojistas em crescer. Mas contamos com o aumento do emprego e da massa salarial, o que ajudou as vendas”, explicou.

Outro ponto destacado pelo presidente da Abrasce é o efeito da expansão recente do setor. Desde 2020, ano marcado pelo início da pandemia, 81 novos shoppings foram inaugurados no Brasil. Segundo Humai, grande parte desses empreendimentos ainda está em fase de amadurecimento.

“Eles ainda estão atraindo consumidores e lojas, portanto com vendas abaixo do potencial. Isso puxa a média de vendas do setor para baixo, mas tende a mudar quando eles amadurecerem”, afirmou.

Para a associação, a combinação entre recuperação gradual da economia, fortalecimento do emprego e consolidação dos novos shoppings pode ajudar a melhorar os resultados do setor nos próximos anos, mesmo diante das transformações no comportamento do consumidor.