Saída de Veiga marca fim da geração multicampeã no Palmeiras
Com empréstimo ao América, do México, meia deixa o clube e escancara reformulação que já tirou quase todos os campeões da era Abel Ferreira
ESPORTEA primeira partida do Palmeiras sem Raphael Veiga no elenco marca mais do que a ausência de um titular histórico. Emprestado ao América, do México, o meia encerrou sua trajetória no clube e simbolizou o fim de uma geração multicampeã. Nesta quarta-feira (4), contra o Vitória, o time entra em campo apenas com o zagueiro e capitão Gustavo Gómez como remanescente do grupo que foi bicampeão da Libertadores em 2020 e 2021, além do técnico Abel Ferreira.
Veiga deixou o Palmeiras depois de perder a titularidade e entender, assim como Weverton, que era hora de buscar um novo ambiente para voltar a ser protagonista. O goleiro foi para o Grêmio, enquanto o camisa 23 seguiu para o futebol mexicano. Ambos saíram em um contexto de reformulação profunda do elenco, processo iniciado no ano passado pela diretoria alviverde.
Para viabilizar o empréstimo, Veiga renovou contrato com o Palmeiras até 2028. O acordo com o América, válido por um ano, até o fim de 2026, prevê opção de compra ao clube mexicano ao término do vínculo. Mesmo de saída, o meia fez questão de reforçar a ligação com o time e a torcida.
"Eu não sei o que vai acontecer a curto prazo, a médio prazo. Mas uma coisa eu posso assegurar, que é meu último chute uma bola de futebol, como jogador profissional, vai ser vestindo a camisa do Palmeiras dentro do Allianz Parque", prometeu o ídolo palmeirense, deixando em aberto a possibilidade de um retorno no futuro.
O sucesso recente do Palmeiras foi construído sobre uma espinha dorsal muito clara. Nela estavam Weverton, Marcos Rocha, Luan, Danilo, Zé Rafael, Raphael Veiga, Dudu, Rony e outros nomes que ajudaram a formar um time altamente competitivo, taticamente disciplinado e mentalmente resiliente. Parte desses jogadores chegou ao clube antes ou nos primeiros momentos da gestão de Abel Ferreira, que assumiu em 2020.
Com o passar das temporadas, porém, o ciclo dessa geração começou a se encerrar. Alguns atletas foram negociados com clubes do exterior, outros perderam espaço dentro do elenco ou passaram a conviver com desgaste físico e queda de rendimento. A diretoria enxergou aí a necessidade de promover uma renovação mais ampla, apostando em nomes mais jovens e em contratações que pudessem gerar retorno esportivo e financeiro no médio prazo.
A saída de Veiga fecha praticamente todas as portas daquele elenco multicampeão. Dos jogadores que ergueram a Libertadores em 2020 e 2021, além de outros títulos importantes como o Brasileirão, restou apenas Gustavo Gómez, referência técnica e de liderança no vestiário. O zagueiro paraguaio, que já era um dos principais pilares da equipe, ganha ainda mais peso na nova configuração do grupo.
O desmonte da base campeã não aconteceu de uma vez. Alguns nomes importantes deixaram o clube antes mesmo da acelerada reformulação de 2025. Os meio-campistas Danilo e Gustavo Scarpa, considerados titulares em boa parte do período mais vitorioso, saíram em 2022 e 2023, respectivamente. O zagueiro Luan, que também fazia parte da espinha dorsal, negociou sua saída em 2024.
Já em 2025, o movimento ganhou força. Parte dos líderes daquela geração bicampeã continental foi embora em um curto espaço de tempo. Saíram os laterais Marcos Rocha e Mayke, o volante Zé Rafael e os atacantes Rony e Dudu. Este último deixou o clube em situação diferente dos demais: não foi homenageado, como outros ídolos, por ter saído em atrito com a presidente Leila Pereira.
Weverton e Veiga, por sua vez, permaneceram por mais tempo, mas também acabaram entrando nesse processo. A perda de espaço na equipe principal e o desgaste natural da convivência após tantos anos levaram os dois a buscar novos desafios, mesmo mantendo uma história sólida com o clube.
Gómez assume protagonismo e vê nova hierarquia
Com a debandada gradual da velha guarda, Gómez passou a ser o grande símbolo da continuidade. Capitão e um dos jogadores com mais tempo de casa, ele viu o vestiário mudar de rosto, mas permaneceu como referência central na liderança esportiva e emocional do elenco.
O zagueiro passou a dividir esse protagonismo com outros nomes, como o lateral-esquerdo Piquerez. O uruguaio não fez parte do grupo que conquistou as duas Libertadores, mas estava no elenco campeão de 2021 e se consolidou com o tempo. Hoje, é o segundo atleta com mais jogos pelo clube entre os que seguem no elenco: 227 partidas, atrás apenas do próprio Gómez.
Ciente da necessidade de reconstruir o time em meio a tantas mudanças, Piquerez reconheceu a oscilação neste início de temporada e o momento de busca por um novo padrão de desempenho. "Sabemos que tivemos um começo de temporada com altos e baixos, alguns resultados que não queríamos e outros que sim. Estamos em um período de achar o nosso rendimento jogo a jogo e de ter uma sequência positiva, que, infelizmente, ainda não conseguimos", afirmou o lateral.
A diretoria do Palmeiras optou, em 2025, por um processo acelerado de renovação do elenco. A decisão desmanchou a base responsável pelas principais conquistas da história recente do clube, com mais saídas do que chegadas. O esforço para reposição, porém, não significou falta de investimento: naquele ano, o clube gastou cerca de R$ 700 milhões em contratações, valor alto mesmo para um time de grande porte no futebol brasileiro.
A ideia da direção foi montar um grupo capaz de se sustentar esportivamente por mais tempo, diminuindo a dependência de jogadores que já vinham em trajetória longa no clube e aproximando o elenco de um perfil considerado mais moderno, com atletas em idade de revenda e potencial de valorização. Ainda assim, nem todas as apostas deram certo, e o texto original admite que algumas acabaram gerando prejuízo.
Esse redesenho mexeu com a identidade do time. A torcida passou a ver em campo um Palmeiras bem diferente daquele que ficou conhecido pela força defensiva, pelos jogos decisivos em mata-mata e pela constância em competições de pontos corridos. A saída de referências como Veiga, Zé Rafael, Rony e Dudu aprofundou essa sensação de fim de era.
Se em 2025 o enfoque foi contratar bastante e reformular o elenco de maneira intensa, o cenário mudou no ano seguinte. Em 2026, a diretoria do Palmeiras adotou postura bem mais cautelosa no mercado. Até aqui, apenas um jogador foi contratado: o volante Marlon Freitas.
Ao mesmo tempo, o clube deu prioridade à venda de atletas. A saída de Veiga, ainda que por empréstimo com possibilidade de retorno, se encaixa nesse contexto de enxugamento da folha e de busca por receitas com negociações. Com mais saídas do que chegadas nos últimos meses, o elenco ficou menor e com uma base bem distinta daquela que dominou o continente.
O resultado prático é um Palmeiras em reconstrução, no qual a comissão técnica precisa encontrar um novo jeito de jogar sem alguns dos pilares que sustentaram o auge recente. O desafio de Abel Ferreira passa por reorganizar o time em torno de Gómez, Piquerez e outros jogadores que foram ganhando espaço, ao mesmo tempo em que jovens formados na base assumem mais responsabilidades.
Jogo contra o Vitória marca nova fase
A partida desta quarta-feira (4), contra o Vitória, funciona como um marco simbólico dessa transição. É o primeiro compromisso do time sem Raphael Veiga registrado no elenco, algo impensável há poucos anos, quando o meia era peça central da criação ofensiva e decisivo em finais.
Do ponto de vista esportivo, o desafio é imediato: manter o nível de competitividade que colocou o clube entre os protagonistas do futebol brasileiro e sul-americano, agora com outra cara e outra hierarquia interna. Do ponto de vista emocional, o Palmeiras tenta se equilibrar entre respeitar a história da geração multicampeã e construir uma nova trajetória com um grupo bem diferente, mas ainda comandado pelo mesmo técnico.
Ao emprestar Veiga e seguir apostando em uma renovação ampla, o clube deixa claro que não pretende ficar preso ao passado, por mais vitorioso que ele tenha sido. Ao mesmo tempo, conserva laços com essa era por meio de referências como Gómez e pela promessa pública de que, quando der seu último chute como profissional, o camisa 23 pretende fazê-lo de verde, no gramado do Allianz Parque.
No meio desse processo, o Palmeiras vive um momento de ajustes. Entre mercado mais lento, elenco reformulado e cobrança por desempenho, o fim da geração multicampeã abre espaço para uma nova fase – ainda em construção – sob o comando de Abel Ferreira.