Redação AE | 04 de fevereiro de 2026 - 15h35

Para cada dólar investido na natureza, outros 30 financiam sua degradação, aponta ONU

Especialista alerta que desequilíbrio agrava crise climática e ameaça competitividade do Brasil

MEIO AMBIENTE
Relatório da ONU aponta que investimentos em atividades prejudiciais à natureza superam em mais de 30 vezes os recursos para proteção ambiental. - Foto: Freepik

Para cada US$ 1 investido globalmente na proteção da natureza, cerca de US$ 30 são direcionados a atividades que degradam o meio ambiente. O desequilíbrio, segundo especialistas, acelera a crise climática e gera impactos econômicos relevantes, com efeitos diretos sobre setores estratégicos do Brasil, como o agronegócio, comprometendo a competitividade do país no cenário internacional.

A avaliação é do conselheiro do HUB de Economia e Clima do Instituto Clima e Sociedade (iCS), Rogério Studart, com base na análise do relatório State of Finance for Nature 2026, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), divulgado no fim do mês passado.

De acordo com o levantamento da ONU, em 2023 foram destinados cerca de US$ 220 bilhões a soluções baseadas na natureza em todo o mundo. Esse grupo inclui ações como conservação de ecossistemas, restauração ambiental e investimentos em infraestrutura verde. No mesmo período, porém, aproximadamente US$ 7,3 trilhões financiaram atividades consideradas prejudiciais ao meio ambiente.

Entre essas atividades estão a expansão de combustíveis fósseis, o desmatamento, a poluição e o uso insustentável do solo. O volume de recursos destinados a essas práticas supera em mais de 30 vezes o montante aplicado na proteção ambiental.

O relatório aponta que a maior parte desse financiamento negativo tem origem no setor privado. Cerca de US$ 4,9 trilhões partiram de empresas ligadas principalmente aos setores de energia, mineração, infraestrutura e indústria pesada. Outros US$ 2,4 trilhões correspondem a subsídios públicos classificados como ambientalmente danosos, concentrados sobretudo em combustíveis fósseis, agricultura e construção.

Para Rogério Studart, o problema central não está na ausência de soluções, mas na lógica que ainda orienta a economia global. Segundo ele, atividades ligadas aos combustíveis fósseis e ao desmatamento continuam altamente rentáveis e politicamente protegidas, o que dificulta o redirecionamento de recursos.

“O principal entrave ao financiamento climático não está na falta de soluções, mas na insistência em transformar a economia global enquanto ela ainda opera sob a lógica dos combustíveis fósseis e do desmatamento”, afirmou, em comunicado.

Studart ressalta que esse modelo resulta em pouco financiamento para a transição para uma economia descarbonizada e sustentável, e menos ainda para investimentos em preservação, regeneração ambiental e resiliência diante de eventos climáticos extremos, que vêm aumentando em frequência e intensidade.

Segundo ele, o cenário é especialmente preocupante para o Brasil, que tenta avançar na agenda de transição climática e depende de investimentos robustos em adaptação. “Isto é uma situação péssima para o Brasil, que necessita investimentos em adaptação e resiliência”, afirmou o economista, que também é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e atua como consultor da ONU, de agências multilaterais e de governos.

Na avaliação do especialista, a transição verde dificilmente ocorrerá de forma espontânea, sem uma atuação mais firme do Estado. Ele defende o uso de instrumentos como impostos, subsídios, linhas de crédito e políticas públicas para estimular a iniciativa privada a investir em atividades sustentáveis.

“Sem uma intervenção decisiva do Estado para estimular a iniciativa privada, a transição verde não ocorrerá. Muito menos teremos recursos para investir em preservação, regeneração e adaptação”, afirmou.

Studart conclui que insistir no modelo atual amplia riscos ambientais, econômicos e sociais para o país. “Para o Brasil, isso significa comprometer o crescimento sustentável, a competitividade internacional e o próprio futuro do País”, disse.