Estadão | 03 de fevereiro de 2026 - 08h30

Clintons aceitam depor sobre Epstein mas ainda podem ser punidos por desacato

Ex-presidente e ex-secretária de Estado concordam em testemunhar, mas republicano James Comer mantém ameaça de sanção na Câmara

CASO EPSTEIN
Fotos do ex-presidente Bill Clinton estão no arquivo do caso Epstein divulgado pelo governo americano - (Foto: Departamento de Justiça dos EUA)

O ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton e a ex-secretária de Estado Hillary Clinton concordaram em testemunhar numa investigação da Câmara dos Representantes sobre o criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein, com quem teriam tido relações próximas. O acerto foi comunicado na noite desta segunda-feira (2), mas o deputado republicano James Comer, que preside o Comitê de Supervisão da Câmara, afirmou que o acordo ainda não está finalizado e manteve a ameaça de processo por desacato.

Os Clintons são alvo de intimações desde agosto, quando o comitê abriu investigação sobre Epstein e seus associados. Eles resistiam a depor, questionando a validade das intimações. A mudança de postura veio após Comer avançar com a tramitação de acusações criminais de desacato ao Congresso, o que, se aprovado pela Câmara e aceito pelo Departamento de Justiça, pode resultar em multa pesada e até prisão.

Segundo e-mail enviado pelos advogados à equipe do comitê, Bill e Hillary Clinton aceitariam “comparecer para depoimentos em datas mutuamente acordadas”, desde que Comer deixasse de levar adiante o processo por desacato. O parlamentar, porém, não recuou de imediato. “Não temos nada por escrito”, disse Comer a repórteres, afirmando estar aberto à oferta, mas condicionando tudo ao conteúdo dos depoimentos. “Isso depende do que eles disserem.”

Antes de a nova proposta ser apresentada, os advogados dos Clintons haviam sugerido um formato mais limitado: Bill Clinton faria uma entrevista transcrita de quatro horas sobre “assuntos relacionados às investigações e processos judiciais de Jeffrey Epstein” e Hillary Clinton apresentaria apenas uma declaração juramentada, por escrito.

Comer rejeitou a ideia e insistiu que ambos comparecessem pessoalmente ao comitê, sob juramento, para cumprir integralmente as intimações. “Os Clintons não podem ditar os termos das intimações legais”, afirmou o republicano, que representa o Kentucky.

Na prática, o impasse ocorre enquanto a resolução de desacato avança internamente. Líderes republicanos levaram o texto ao Comitê de Regras da Câmara, última etapa antes de uma votação em plenário. Se for apreciada, será a primeira vez que o Congresso considerará aplicar uma de suas punições mais severas a um ex-presidente, num cenário em que, historicamente, houve deferência a ex-mandatários e nenhum foi forçado a testemunhar compulsoriamente.

A ofensiva contra o casal Clinton também expôs divisões entre democratas. No mês passado, quando o Comitê de Supervisão apresentou as acusações de desacato, nove dos 21 democratas do colegiado votaram com os republicanos a favor de punir Bill Clinton, alegando necessidade de total transparência na investigação sobre Epstein. Outros três apoiaram o avanço do desacato contra Hillary Clinton.

Mesmo assim, a liderança do partido na Câmara critica a condução do caso. O líder democrata Hakeem Jeffries disse ser “totalmente contra” a punição por desacato e acusou Comer de transformar a investigação em instrumento de retaliação política, enquanto acusa o governo Trump de ter atrasado a entrega de documentos do Departamento de Justiça sobre Epstein. “Eles não querem um testemunho sério, querem uma farsa”, afirmou Jeffries.

O porta-voz dos Clintons, Angel Ureña, também atacou o republicano. “Eles negociaram de boa fé. Você não”, disse, em resposta às ameaças de Comer. “Eles lhe disseram sob juramento o que sabem, mas você não se importa.”

Democratas ainda cobram do Departamento de Justiça a divulgação integral do material sobre Epstein que continua sob sigilo, alegando que os republicanos pressionam os Clintons, mas aliviam o foco sobre a atuação de autoridades da era Trump na condução do caso.

A ligação entre Bill Clinton e Jeffrey Epstein, já conhecida desde o fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, voltou a ser explorada por republicanos conforme aumenta a pressão por esclarecimentos sobre o histórico do financista. Epstein se matou em 2019, numa cela de prisão em Nova York, enquanto respondia por acusações de tráfico sexual.

Registros oficiais mostram que o ex-presidente viajou em aviões de Epstein e frequentou alguns de seus círculos sociais, assim como outros nomes influentes da política, finanças e entretenimento. Bill Clinton, porém, nunca foi formalmente acusado de irregularidades ligadas a Epstein.

Para republicanos, a investigação da Câmara é uma oportunidade de colocar em xeque a conduta de figuras ligadas ao Partido Democrata e reavivar a discussão sobre o que foi feito – ou não – pelas autoridades federais ao longo dos anos. Já aliados dos Clintons acusam Comer de selecionar alvos por conveniência política, enquanto deixa de mirar outros atores que também tiveram relação com Epstein.

Com a sinalização de que Bill e Hillary Clinton aceitariam depor, a expectativa é de que o Comitê de Supervisão tente formalizar, nos próximos dias, as datas e o formato dos depoimentos. Comer, por enquanto, mantém a ameaça de seguir com as resoluções de desacato até que haja um acordo considerado satisfatório.

Na outra ponta, a liderança democrata prometeu discutir internamente como se posicionar caso o tema chegue ao plenário. Jeffries evitou antecipar como o partido votará, mas deixou claro que considera a iniciativa desproporcional.

A situação coloca o Congresso diante de um possível precedente: usar a ameaça de punição criminal por desacato para forçar um ex-presidente e uma ex-secretária de Estado a testemunhar em uma investigação de alta carga política.

Enquanto as negociações continuam, os Clintons repetem a linha de que estão sendo transformados em alvo político, ao mesmo tempo em que dizem estar dispostos a cooperar. Já os republicanos reforçam o discurso de que qualquer figura ligada a Epstein, independentemente do cargo que ocupou, precisa ser ouvida – sob juramento – para que o caso seja completamente esclarecido.