Levy Teles | 02 de fevereiro de 2026 - 22h00

CPI pede quebra de sigilo de igreja ligada a associação investigada por descontos ilegais

Pedido envolve entidade associada a sócia da AAB e amplia apuração sobre atuação de igrejas no esquema

INVESTIGAÇÃO NO INSS
O presidente da CPI do INSS, senador Carlos Viana (Podemos-MG). - (Foto: Carlos Moura/Agência Senado)

O presidente da CPI do INSS, senador Carlos Viana (Podemos-MG), protocolou nesta segunda-feira (2) um requerimento que pede a quebra de sigilo da Igreja Evangélica Pentecostal Ministério Visão de Deus. A entidade foi citada em reportagem do site Metrópoles por suposta ligação com pessoas investigadas no escândalo dos descontos indevidos aplicados a aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social.

Segundo o requerimento apresentado pelo senador, a igreja pertence a Lucineide dos Santos Oliveira, que figura como sócia da Associação dos Aposentados do Brasil (AAB). A entidade está entre as associações investigadas por suspeita de participação no esquema de cobranças irregulares diretamente nos benefícios previdenciários.

Viana aponta ainda que, no mesmo endereço onde funciona a igreja, estaria registrada uma empresa ligada a Samuel Chrisostomo do Bomfim Junior, contador da Confederação Nacional dos Agricultores e Empreendedores Familiares (Conafer), outra instituição citada nas investigações.

“Estranhamente, no mesmo endereço onde está localizada a referida igreja, fundada por Lucineide dos Santos Oliveira, sócia da AAB, supostamente funciona uma companhia pertencente a Samuel Chrisostomo do Bomfim Junior, contador da Conafer, que é outra instituição envolvida nas fraudes”, afirmou o senador na justificativa do pedido.

A Associação dos Aposentados do Brasil é alvo de processo instaurado pela Controladoria-Geral da União (CGU), que apura possíveis irregularidades relacionadas aos descontos aplicados sem autorização em benefícios do INSS. As investigações buscam identificar a origem das cobranças, o destino dos recursos e a eventual participação de intermediários.

No âmbito da CPI, parlamentares tentam mapear o funcionamento do esquema, que envolve associações, entidades de classe, possíveis operadores financeiros e conexões com instituições religiosas.

A presença de igrejas evangélicas no contexto das investigações tem sido tema recorrente nas sessões da CPI do INSS. Parlamentares governistas, em especial, passaram a direcionar questionamentos a lideranças religiosas citadas em apurações ou reportagens.

O debate ganhou força após declaração da senadora Damares Alves (Republicanos-DF), em janeiro deste ano, ao afirmar que igrejas e pastores estariam envolvidos no esquema de fraudes contra aposentados.

“Nós estamos identificando igrejas nos esquemas de fraudes aos aposentados. E quando se fala de um grande pastor, vem a comunidade: não falem, não digam, não investiguem, porque os fiéis vão ficar muito tristes”, disse a senadora à época.

A fala gerou reação imediata do pastor Silas Malafaia, que criticou a generalização e cobrou a divulgação de nomes. “Ou a senhora dá os nomes, ou é uma leviana linguaruda. A acusação é grave e séria e dá os nomes também dos líderes que lhe pediram para calar a boca”, afirmou.

Após a repercussão, Damares divulgou uma lista de requerimentos com pedidos de transferência de sigilo de igrejas e convites para depoimentos de pastores. Entre os nomes citados está o do pastor Héber Trigueiro, presidente da Adoração Church, que criticou a inclusão de sua igreja sem a conclusão de uma investigação formal.

Carlos Viana, presidente da CPI, é evangélico e integrante da Igreja da Lagoinha, liderada pelo pastor André Valadão. Ele tem defendido que as apurações sigam critérios técnicos e alcancem todas as instituições citadas nas investigações, independentemente de sua natureza religiosa.

Nesta segunda-feira (2), o deputado Rogério Correia (PT-MG) protocolou requerimento pedindo a convocação do pastor Silas Malafaia para prestar depoimento à CPI do INSS. Segundo o parlamentar, a atuação do líder religioso na defesa pública de denominações citadas nas investigações precisa ser esclarecida.

“A atuação do líder religioso Silas Malafaia na defesa de outras denominações religiosas deve ser devidamente aprofundada por esta Comissão, considerando a relevância de investigar todos aqueles que se encontram sob suspeita de envolvimento no esquema”, afirmou Correia.