Estadão | 02 de fevereiro de 2026 - 08h30

América do México contrata Raphael Veiga e reforça poder financeiro da Liga MX

Investimentos, entrada de empresas e possível volta à Libertadores mostram transformação do futebol mexicano

FUTEBOL INTERNACIONAL
Raphael Veiga é anunciado pelo América do México em negociação que reforça o poder financeiro da Liga MX. - (Foto: Fabio Menotti/Palmeiras)

O futebol mexicano vive um momento de expansão financeira e esportiva, refletido na contratação de Raphael Veiga pelo América do México. Um dos clubes mais ricos do país, o América acertou o empréstimo do meia do Palmeiras até o fim da temporada, por US$ 1,5 milhão, com opção de compra fixada em US$ 6 milhões. A negociação reforça o apetite da Liga MX por atletas de alto nível e evidencia a consolidação do mercado mexicano como um dos mais fortes do continente.

Veiga passa a integrar um grupo crescente de brasileiros no futebol mexicano, que atualmente soma 18 jogadores. A presença estrangeira na liga, no entanto, vai além. Hoje, são 172 atletas de fora do país atuando na primeira divisão, com predomínio de argentinos, que somam 40 jogadores, seguidos por colombianos e uruguaios.

O crescimento do mercado se reflete nos números. Segundo dados da plataforma El Míster, o futebol mexicano alcança um valor de mercado próximo de US$ 3 bilhões. Em 2023, a liga chegou a ser a segunda mais bem paga da América, atrás apenas do Brasil, com salário médio anual de US$ 402 mil, de acordo com levantamento da Fifa.

Esse cenário ampliou o poder de contratação dos clubes e abriu espaço para transações consideradas ousadas nos últimos anos. Em 2022, o zagueiro Samir deixou o Watford, da Premier League, para atuar no Tigres. No mesmo ano, o atacante Léo Bonatini trocou o Wolverhampton pelo San Luis. Na última temporada, o Tigres voltou ao mercado brasileiro e contratou o zagueiro Joaquim, ex-Santos, e o volante Rômulo, ex-Internacional.

Essas operações tiveram participação direta da Roc Nation Sports, empresa norte-americana de agenciamento esportivo comandada pelo cantor Jay-Z. A companhia também representa o jovem atacante Armando González, do Chivas e da seleção mexicana.

Para Renato Martinez, vice-presidente da Roc Nation Sports, o avanço do futebol mexicano está diretamente ligado ao crescimento econômico do país e à profissionalização da gestão dos clubes. Segundo ele, o México reúne fatores que tornam o mercado atrativo, como estabilidade financeira, uso da moeda americana em negociações e reconhecimento internacional como bom pagador, o que aumenta a confiança dos atletas em se transferirem para o país.

Outro elemento que impulsiona a Liga MX é a aproximação com o futebol dos Estados Unidos. A Leagues Cup, torneio que reúne clubes mexicanos e da MLS, elevou a audiência e ampliou o alcance comercial da competição. O campeonato conta com 47 equipes e ficou marcado pela estreia de Lionel Messi em disputas internacionais desde sua chegada ao futebol norte-americano.

Na avaliação de Ivan Martinho, professor de marketing esportivo da ESPM, o futebol mexicano se destaca por ser um mercado estruturado e organizado, com profissionais qualificados em diferentes áreas. Para ele, o uso recorrente do dólar nas negociações também funciona como diferencial competitivo.

Além do aspecto esportivo, a Liga MX passa por uma transformação estrutural. Nos últimos meses, clubes começaram a ser vendidos a grupos empresariais, como o Querétaro, adquirido por investidores liderados por Marc Spiegel, fundador da Innovatio Capital, em um negócio avaliado em mais de US$ 120 milhões, segundo a revista Forbes.

Esse movimento ocorre em meio a negociações com a Apollo Global Management, empresa de private equity que propôs um investimento de US$ 1,25 bilhão na Liga MX em troca de participação nos lucros futuros dos direitos de mídia. A proposta prevê a adoção de regras mais rígidas de governança e a centralização de contratos comerciais, o que pode elevar significativamente a receita e o valor dos clubes.

A reorganização também busca resolver um problema histórico da liga, a participação cruzada de grupos empresariais em clubes rivais, prática que fere normas da Fifa. A eliminação desses conflitos atende às exigências de integridade competitiva e aumenta a segurança jurídica para investidores.

Para especialistas em direito esportivo, a adoção de governança corporativa mais sólida é determinante para atrair aportes em larga escala. A organização institucional, segundo eles, reduz riscos, fortalece contratos e cria um ambiente favorável para investimentos de longo prazo.

Paralelamente a esse crescimento, ganhou força o lobby para que clubes do México e dos Estados Unidos voltem a disputar a Libertadores. A discussão avançou após declarações de Jorge Mas, um dos donos do Inter Miami, que revelou conversas com a Conmebol sobre a entrada dos campeões dos dois países no torneio sul-americano.

O presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez, confirmou recentemente que “as portas estão abertas”, desde que a iniciativa parta das confederações locais. Para especialistas em negócios esportivos, a possível inclusão representaria um salto estratégico para a competição, ampliando audiência, atraindo patrocinadores globais e abrindo novas frentes de receita.

Embora o desafio logístico seja citado como obstáculo, analistas avaliam que, com planejamento e ajustes de calendário, os ganhos comerciais e de visibilidade superariam as dificuldades operacionais, elevando a Libertadores a um novo patamar no cenário internacional.