Antonio Perez | 30 de janeiro de 2026 - 19h00

Dólar sobe com força após indicação ao Fed, mas fecha janeiro em queda acentuada

Moeda avança mais de 1% no dia com ajuste global, enquanto real acumula valorização no mês

ECONOMIA
Dólar teve alta pontual nesta sexta, mas acumulou forte queda no mês de janeiro. - (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

O dólar apresentou valorização firme nesta sexta-feira (30), acompanhando o fortalecimento da moeda americana no mercado internacional. Operadores atribuem o movimento a um ajuste de preços e correção de excessos recentes, após a indicação de Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve reduzir os temores de interferência direta do ex-presidente Donald Trump na condução da política monetária dos Estados Unidos.

No mercado doméstico, o dólar à vista chegou a tocar a máxima de R$ 5,2785 durante a tarde e encerrou o dia cotado a R$ 5,2476, em alta de 1,04%. Apesar do avanço pontual, a moeda acumulou queda de 0,73% na semana e recuo expressivo de 4,40% em janeiro, o maior tombo mensal desde junho de 2025, quando havia registrado baixa de 4,99%.

Em dezembro, o cenário havia sido oposto, com o dólar avançando 2,89%, pressionado pelo aumento das remessas ao exterior e pela intensificação de ruídos políticos no ambiente doméstico.

No exterior, a valorização do dólar veio acompanhada de forte correção em outros ativos. Analistas apontam que commodities metálicas, como ouro e prata, que haviam subido em meio a um movimento especulativo de questionamento do dólar como reserva de valor, registraram nesta sexta-feira quedas superiores a dois dígitos. Entre as moedas globais, as divisas emergentes foram as mais penalizadas, especialmente as latino-americanas e o rand sul-africano, principais pares do real.

O diretor da Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, avalia que a indicação de Warsh ao comando do Fed funcionou como gatilho para uma reprecificação ampla dos ativos financeiros, revertendo exageros observados nas últimas semanas.

“Tudo o que subiu muito recentemente está sofrendo uma realização forte nesta sexta. Ouro, prata e moedas emergentes têm quedas fortes”, afirmou. Para Weigt, no entanto, o movimento não representa uma mudança estrutural de tendência. “O fundamento não mudou. Continuo acreditando que os investidores vão buscar ativos fora do dólar, como ouro, bolsas e moedas emergentes.”

Na avaliação do executivo, o real tende a se valorizar nos próximos meses, mesmo com o início esperado de um ciclo de cortes de juros no Brasil. O Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a Selic em 15% na última quarta-feira (28) e sinalizou a possibilidade de redução da taxa a partir de março.

“Para o real sentir a queda de juros, a Selic teria que ir para 11% ou menos. E a questão eleitoral não deve ter grande influência no mercado até abril”, afirmou Weigt.

No cenário internacional, o índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes, subia cerca de 0,70% no fim da tarde, próximo dos 97,0 pontos, após máxima de 97,102. Mesmo com o avanço diário, o indicador encerra a semana com queda de 0,50% e acumula recuo superior a 1,30% em janeiro.

Entre os indicadores divulgados, o índice de preços ao produtor (PPI) dos Estados Unidos e seu núcleo, referentes a dezembro, vieram acima das expectativas do mercado. Ainda assim, ferramentas do CME Group indicam que a aposta predominante segue sendo um corte dos juros básicos americanos em junho.

A indicação de Kevin Warsh foi confirmada por Trump em publicação na rede Truth Social. Warsh integrou o conselho do Fed entre 2006 e 2011 e teve participação relevante durante a crise financeira de 2008.

Para o economista-chefe da Azimut Brasil Wealth Management, Gino Olivares, Warsh era visto como um dirigente de perfil mais duro durante seu mandato, defensor de uma política monetária restritiva. Segundo ele, recentemente o economista passou a adotar um discurso mais próximo ao de Trump, defendendo a redução dos juros.

“O desafio do novo presidente do Fed será equilibrar a pressão por afrouxamento monetário com a visão atual da maioria dos dirigentes, que ainda resiste a novos cortes neste momento”, avaliou.

Na mesma linha, o sócio e economista-chefe da WHG, Fernando Fenolio, afirmou que a escolha de Warsh ajuda a afastar um risco relevante para os mercados, que era a possibilidade de perda de independência do Fed.

“O que o Trump fez pode, na prática, ter sido a melhor escolha: alguém com credenciais suficientes para entregar o que ele deseja sem provocar um impacto dramático na ponta longa da curva de juros e, principalmente, no dólar”, afirmou, em nota.

Segundo Fenolio, é plausível que ocorram dois ou três cortes de juros nos Estados Unidos no segundo semestre, sem que isso soe como uma intervenção excessivamente politizada na política monetária americana.