Ricardo Magatti | 30 de janeiro de 2026 - 16h35

Bloqueio de contas da Fictor acende alerta sobre patrocínio do Palmeiras

Patrocinadora atrasa pagamentos a investidores e sofre bloqueio cautelar do TJ-SP, mas clube diz que valores do contrato seguem em dia

PALMEIRAS
Marca da Fictor estampa as costas da camisa do Palmeiras: patrocinadora do clube desde o ano passado, a holding enfrenta bloqueio cautelar de contas pelo TJ-SP, mas o clube afirma que o contrato de patrocínio está em dia. - (Foto: Imagem Ilustrativa/A Critica)

Patrocinadora do Palmeiras desde o ano passado, a holding Fictor passou a conviver com um cenário de forte pressão nesta sexta-feira, 30. A empresa, que estampa sua marca nas costas do uniforme do time principal e nas categorias de base, teve contas bloqueadas de forma cautelar por decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), em meio a atrasos de pagamentos para seus investidores.

Apesar do desgaste em torno do nome da patrocinadora, o Palmeiras afirma que, até o momento, as parcelas do contrato firmado com a Fictor estão em dia. Na prática, o clube tenta separar a situação financeira da parceira em relação ao compromisso assumido com o departamento de futebol.

Bloqueio judicial em meio a atrasos a investidores - A decisão do TJ-SP atinge diretamente as contas da Fictor, que vem atrasando pagamentos a investidores. O bloqueio é de caráter cautelar, o que significa que foi determinado enquanto as discussões judiciais sobre o caso ainda estão em andamento.

A medida ocorre em um momento em que a empresa tenta sustentar uma imagem de grande player do mercado financeiro e de infraestrutura. A dificuldade para honrar compromissos com investidores contrasta com a vitrine conquistada no futebol, em especial com a parceria com o Palmeiras, um dos clubes de maior exposição no país.

Ainda que a decisão do tribunal esteja focada na relação da Fictor com seus investidores, o episódio amplia a atenção sobre o nome da holding e sobre contratos já firmados, entre eles o acordo com o clube paulista.

Enquanto a patrocinadora enfrenta problemas com investidores, o Palmeiras informa que não há atraso no repasse das parcelas previstas no contrato de patrocínio. Segundo o clube, todos os pagamentos referentes ao acordo estão em dia.

O contrato garante à Fictor um espaço importante na camisa alviverde. A empresa paga anualmente R$ 25 milhões para ter sua marca nas costas do uniforme do time principal, tanto masculino quanto feminino, além da propriedade máster e das costas dos uniformes das categorias de base. Dependendo de metas atingidas, o valor pode chegar a R$ 30 milhões por ano.

Trata-se de um compromisso de três anos, que também inclui os naming rights de um torneio sub-17 organizado pelo clube. A competição passou a se chamar Copa Fictor e foi conquistada pelo próprio Palmeiras na última quinta-feira.

Na comunicação oficial, o clube reforça que, do ponto de vista contratual, não há pendências com o parceiro. Assim, o Palmeiras procura deixar claro que, até agora, não há impacto direto nos seus cofres, mesmo com o cenário desfavorável enfrentado pela Fictor em outras frentes.

O acordo com a Fictor faz parte de um pacote mais amplo de patrocínios que sustentam boa parte da receita recorrente do futebol palmeirense.

O time masculino profissional conta atualmente com outros cinco patrocinadores, além da holding financeira. Somados, os contratos garantem ao clube pouco mais de R$ 150 milhões anuais em valores fixos. Dentro desse montante, os R$ 25 milhões a R$ 30 milhões que podem vir da Fictor têm peso significativo na composição do orçamento.

A exposição da marca nas costas da camisa do time principal, no uniforme feminino e nas categorias de base, somada à Copa Fictor, torna o acordo um dos mais visíveis entre clube e patrocinadora. A presença em diferentes frentes reforça a associação entre o nome da empresa e o projeto esportivo do Palmeiras.

Tentativa frustrada de comprar o Banco Master - Os problemas enfrentados hoje pela Fictor aparecem depois de uma movimentação ambiciosa no setor financeiro. Em 17 de novembro do ano passado, a holding tentou comprar o Banco Master por R$ 3 bilhões.

A oferta foi feita às vésperas da liquidação da instituição pelo Banco Central e da prisão de Daniel Vorcaro, então presidente do Master.

Na ocasião, a Fictor anunciou que o acordo envolveria um consórcio formado por investidores dos Emirados Árabes Unidos, que, segundo a própria holding, seriam responsáveis por mais de US$ 100 bilhões em ativos sob gestão. Ainda assim, o comunicado não detalhava quem eram esses investidores, nem especificava sua participação individual na operação.

O desfecho foi rápido. O Banco Central liquidou o Master no dia seguinte ao anúncio da tentativa de aquisição. Com isso, a operação pretendida pela Fictor não avançou.

Fundada em 2007, a Fictor tem como sócios principais Rafael Góis, Rafael Paixão e Phillippe Rubini. Atualmente, apenas Góis permanece na sociedade.

A estratégia da holding combina presença no mercado financeiro com investimentos em outros segmentos. A empresa atua em infraestrutura, energia e negociação de alimentos, além de marcar presença em projetos esportivos e imobiliários.

O nome da Fictor aparece em frentes variadas: da camisa do Palmeiras a prédios de apartamentos no Rio de Janeiro, passando pelo atletismo brasileiro. Esse movimento contribuiu para ampliar a visibilidade da marca junto ao público em geral e a potenciais parceiros.

Em 2024, o grupo registrou faturamento de R$ 3,5 bilhões, dado que reforça a dimensão da operação sob o guarda-chuva da holding. Esse volume de negócios ajuda a contextualizar o tamanho da empresa que hoje lida com atrasos em pagamentos a investidores e com o bloqueio cautelar de suas contas por decisão judicial.

O vínculo com o Palmeiras insere a Fictor em um patamar de grande exposição no esporte. O clube, com presença constante em decisões nacionais e internacionais nos últimos anos, oferece audiência ampla e recorrente para as marcas estampadas em seu uniforme.

Ao assumir a posição de patrocinadora desde o ano passado, a Fictor passou a associar sua imagem à de um dos projetos mais bem sucedidos do futebol brasileiro. A Copa Fictor, torneio sub-17 que leva o nome da holding e foi conquistado recentemente pelo próprio clube, reforça essa associação também nas categorias de base.

Essa visibilidade amplia o impacto de qualquer notícia envolvendo a empresa, seja positiva ou negativa. A informação sobre o bloqueio cautelar de contas, somada aos atrasos em pagamentos a investidores, coloca o nome da Fictor no centro do noticiário não apenas econômico, mas também esportivo.

Por ora, a principal informação do lado do Palmeiras é a de que o contrato segue cumprido financeiramente, sem atrasos no repasse de valores. Esse ponto é essencial para o planejamento do clube, que conta com a receita de patrocínios para organizar orçamento, investimentos e folha salarial.

Ao mesmo tempo, a situação da Fictor com seus investidores e com a Justiça gera um ambiente de atenção. A combinação entre bloqueio de contas, tentativa frustrada de aquisição de um banco em situação delicada e atrasos nos pagamentos ajuda a desenhar o contexto atual da holding que estampa a camisa alviverde.

Enquanto a empresa tenta resolver seus problemas na esfera financeira e judicial, o clube acompanha o desenrolar dos fatos de olho no cumprimento do acordo firmado. A relação entre as partes, hoje, está marcada por essa dualidade: um contrato de patrocínio considerado regular pelo Palmeiras e, do outro lado, uma patrocinadora que enfrenta questionamentos fora de campo.