Família cobra extradição de brasileiro detido pelo ICE desde novembro
Parentes dizem que Matheus Silveira está em centro migratório na Luisiana mesmo após autorização para deixar os Estados Unidos
INTERNACIONALSem respostas claras das autoridades americanas, a família do brasileiro Matheus Silveira diz viver uma espera angustiante pela extradição dele para o Brasil. Detido pelo ICE, o serviço de imigração e alfândega dos Estados Unidos, ele está preso desde novembro, apesar de, segundo os parentes, já ter autorização para deixar o país.
Nos últimos dias, a situação mudou apenas de endereço. Matheus foi transferido nesta semana para um centro de detenção migratória no estado da Luisiana. A mudança, porém, não trouxe mais informações sobre o caso. De acordo com a família, nem mesmo a advogada que o representa tem retorno das autoridades sobre prazos e motivos da demora no processo de saída.
Enquanto aguardam uma definição, parentes no Brasil afirmam que o que era para ser um procedimento relativamente rápido se transformou em uma rotina de incerteza, gastos e preocupação com as condições em que o jovem está sendo mantido.
A principal queixa da família de Matheus é a falta de transparência na condução do caso. Eles afirmam que já havia um acordo para que o brasileiro deixasse os Estados Unidos, mas, mesmo assim, ele permanece detido há meses.
Segundo relato da mãe, Luciana Santos de Paula, o planejamento inicial indicava que a permanência no centro de detenção seria curta. “O combinado era para ele ir para esse outro centro de detenção próximo ao aeroporto e dois dias depois embarcar”, conta.
O que se vê, porém, é um cenário distinto: em vez de embarcar de volta ao Brasil, Matheus foi levado a um centro migratório na Luisiana, sem que a família fosse informada com clareza sobre o motivo da transferência ou sobre um novo prazo para que ele retorne ao país de origem.
Para os parentes, o silêncio das autoridades e a ausência de datas concretas agravam ainda mais a sensação de impotência diante da situação.
Além da demora, as condições de detenção descritas pela família são outro ponto de aflição. Luciana afirma que o filho enfrenta dificuldades no dia a dia dentro da unidade migratória.
“O tratamento é horroroso, é desumano, ele fica lá perdido. A alimentação é péssima, é pouca, a gente têm que pagar pela comida. A ligação é muito cara e não pode ficar ligando porque tem que pagar”, relata a mãe.
O depoimento reforça a imagem de um ambiente hostil, com estrutura limitada e altos custos para qualquer tentativa de contato com o exterior. A família diz que, para além da privação de liberdade, a rotina de Matheus é marcada por restrições e por um sentimento de abandono.
As dificuldades para falar ao telefone também pesam. Cada ligação, segundo o relato, depende de pagamento, o que reduz o número de contatos e torna ainda mais difícil acompanhar a situação do brasileiro à distância.
Matheus vive nos Estados Unidos desde 2019. Em 2024, ele se casou com a americana Hanna Silveira, que é militar e advogada. A relação e o tempo de residência o levaram a buscar a regularização definitiva da situação migratória por meio do green card, o visto de residência permanente no país.
De acordo com a família, o brasileiro foi detido justamente no momento em que parecia estar perto de concluir esse processo. Ele foi preso por agentes do ICE logo depois de passar pela última etapa para receber o documento.
Já sob custódia, Matheus decidiu desistir do pedido de green card. Em vez disso, optou pela saída voluntária dos Estados Unidos, uma alternativa que, em tese, permitiria que ele deixasse o país sem a imposição de medidas mais duras e com maior previsibilidade.
A expectativa, segundo a família, era de que essa escolha acelerasse o retorno ao Brasil. No entanto, mesmo após a decisão e com o que eles descrevem como “autorização para sair dos Estados Unidos”, Matheus continua detido.
As dúvidas sobre a lógica da permanência de Matheus em um centro de detenção são resumidas nas palavras da mãe. Para Luciana Santos de Paula, a situação não faz sentido diante da decisão judicial que determinou a saída do país.
“Não era para ele estar passando por isso. O juiz determinou a saída dele do país. Se eles não querem ele lá, por que estão prendendo ele lá? É muito cruel isso. A gente não entende isso e ninguém dá uma explicação”, lamenta.
O relato de Luciana combina indignação e cansaço. A família afirma que vem tentando, por meio da defesa e de contatos com autoridades brasileiras, obter detalhes sobre o andamento do caso, mas até agora não recebeu respostas que indiquem quando Matheus poderá, de fato, embarcar de volta ao Brasil.
A recente transferência de Matheus para um centro de detenção migratória no estado da Luisiana reforçou o sentimento de que o caso se arrasta sem solução. A família informa que nem mesmo a advogada que acompanha o processo consegue informações precisas sobre o motivo da mudança ou sobre os próximos passos.
A distância física em relação a grandes aeroportos e centros urbanos, somada à falta de dados concretos, contribui para a sensação de que o jovem está cada vez mais isolado. Para os parentes, o deslocamento deveria ter sido parte de uma etapa final rumo à saída do país, mas acabou se tornando mais um capítulo de incertezas.
Enquanto isso, a rotina da família no Brasil gira em torno de ligações, contatos com advogados e tentativa de entender documentos e decisões que, na prática, ainda não se traduziram em uma data para o retorno de Matheus.
Diante da repercussão do caso, o Ministério das Relações Exteriores informou, em nota, que presta assistência consular ao brasileiro e à família dele.