Daniela Amorim | 28 de janeiro de 2026 - 17h00

Sindicato acusa gestão Pochmann de perseguição após nova exoneração no IBGE

Servidora afastada havia denunciado uso político de publicação oficial; entidade fala em "caça às bruxas" e retaliação

ECONOMIA
Sindicato acusa gestão Pochmann de perseguição após nova exoneração no IBGE. - (Foto: Imagem ilustrativa/A Crítica)

A exoneração de mais uma servidora em cargo de chefia reacendeu o embate entre trabalhadores do IBGE e a atual gestão do órgão. O sindicato da categoria, o Assibge-SN, classificou como “continuidade à caça às bruxas” a saída de Ana Raquel Gomes da Silva, comunicada nesta quarta-feira (28), durante a presidência de Márcio Pochmann.

Ana Raquel deixou o comando da Gerência de Sistematização de Conteúdos Informacionais (GECOI). Segundo o sindicato, ela deve ser substituída por um servidor recém-aprovado em concurso, ainda em estágio probatório, movimento que já teria ocorrido em outros cargos de chefia da área de Comunicação Social.

Além da exoneração, a direção do IBGE informou que a equipe da GECOI será transferida do entorno do Maracanã, na zona norte do Rio, para o prédio da instituição em Parada de Lucas, às margens da Avenida Brasil, a mais de 20 quilômetros de distância. De acordo com o sindicato, o local não reúne condições adequadas de trabalho, por não ter passado pelas reformas apontadas como necessárias desde 2018.

Para a Assibge-SN, a mudança tem caráter punitivo. Em nota, a entidade afirma que Ana Raquel e sua equipe protagonizaram embates públicos com a gestão Pochmann, principalmente após denunciarem o que classificaram como uso político de uma publicação oficial do instituto.

Denúncia sobre “Brasil em Números 2024”

A servidora foi uma das técnicas que se posicionaram contra a divulgação do periódico “Brasil em Números 2024”, que trouxe um prefácio assinado pelo governo de Pernambuco. Para os trabalhadores, o texto poderia configurar propaganda política e conteúdo típico de campanha eleitoral.

Segundo relatos do sindicato, a área técnica alertou a direção ainda em novembro de 2024 sobre os riscos da publicação, mas a gestão manteve a divulgação. O material foi lançado em janeiro de 2025, no Recife.

Em manifestação pública, Ana Raquel e o técnico Leonardo Ferreira Martins afirmaram que o prefácio exaltava estatísticas, programas e ações do governo pernambucano, então comandado por Raquel Lyra, à época filiada ao PSDB. Para eles, o conteúdo destoava da neutralidade técnica que historicamente marca as publicações do IBGE, especialmente em um material de alcance nacional.

Sindicato vê padrão de retaliação

Para o Assibge-SN, a exoneração de Ana Raquel não é um caso isolado. A entidade afirma que a atual gestão tem promovido remoções e trocas consideradas arbitrárias, atingindo servidores que se posicionam publicamente em defesa da autonomia técnica e da comunicação institucional do IBGE.

O sindicato também cita medidas que classifica como antissindicais, incluindo ataques à entidade e tentativas de silenciar a representação dos trabalhadores. Segundo a nota, a defesa de uma comunicação independente e da preservação do acervo histórico do instituto tem sido tratada como afronta pela atual administração.

Mudanças também atingem área do PIB

O clima de tensão se estende à Coordenação de Contas Nacionais, responsável pelo cálculo do Produto Interno Bruto (PIB) do país. No último dia 19, o IBGE comunicou a saída de Rebeca Palis do cargo de coordenadora da área, função que ocupava havia 11 anos.

A servidora foi substituída por Ricardo Montes de Moraes, técnico do instituto desde 2005. Segundo o sindicato, a troca ocorreu de forma abrupta, sem explicações claras ou plano de transição, o que teria fragilizado equipes já sobrecarregadas.

Após a saída de Palis, três gerentes da área pediram exoneração dos cargos comissionados: Cristiano Martins, Claudia Dionísio e Amanda Tavares. Eles seguem no trabalho até a divulgação do PIB de 2025, marcada para 3 de março, para evitar impacto no cronograma.

O IBGE informou que mantém diálogo para a transição e garantiu que as divulgações previstas para 2026 não serão prejudicadas.

Embates desde 2023

Desde que assumiu a presidência do IBGE, em agosto de 2023, Márcio Pochmann enfrenta críticas recorrentes de servidores e do sindicato. Entre as acusações estão autoritarismo, perseguição a técnicos que discordam da gestão e desvalorização do acúmulo técnico histórico da instituição.

Rebeca Palis, assim como Ana Raquel, assinou manifestações públicas contrárias a decisões da atual presidência, como mudanças no Estatuto do IBGE e a tentativa de criação da Fundação IBGE+.

Para o sindicato, embora a troca de chefias seja prerrogativa da administração, as decisões deveriam preservar a continuidade dos trabalhos e a credibilidade de um órgão responsável por dados estratégicos para o país.