Pressão de preços não impede alta nas vendas e Ceasa/MS mira expansão em 2026
Entreposto de Campo Grande aumenta volume, vê produtores de MS ganharem espaço e projeta novo avanço em 2026; comerciantes relatam pressão dos preços e explicam como é possível vender no local
ABASTECIMENTOMesmo com reclamações de preços baixos em parte dos produtos, a Ceasa/MS encerrou os nove primeiros meses de 2025 em alta. De janeiro a setembro, o entreposto de Campo Grande movimentou 176,5 mil toneladas de hortifrutigranjeiros, aumento de 8,93% em relação ao mesmo período de 2024.
Nesse cenário, Mato Grosso do Sul tem participação cada vez maior na oferta. O Estado já responde por 25 mil toneladas comercializadas no período, crescimento de 19,29% frente ao ano anterior, e aparece como o segundo maior fornecedor da Ceasa/MS, atrás apenas de São Paulo, que enviou 44,4 mil toneladas.
Os números mostram um quadro aparentemente contraditório: o volume geral cresce, a presença dos produtores locais aumenta, mas parte dos setores sente a pressão de preços muito baixos, que reduzem margem e podem até inviabilizar a operação.
O avanço da produção regional aparece com força no mapa de origens da Ceasa/MS. Entre os municípios que mais entregaram mercadorias de origem 100% sul-mato-grossense estão Terenos, com 6,8 mil toneladas, Sidrolândia, com 5,8 mil toneladas, e Campo Grande, com 2,5 mil toneladas.
Na lista dos produtos regionais, a mandioca segue como destaque, com 4,3 mil toneladas comercializadas entre janeiro e setembro de 2025. Em seguida vêm a laranja, com 4,2 mil toneladas, e os ovos, com 3,6 mil toneladas. Esses itens marcam a presença da agricultura familiar e da produção diversificada no abastecimento da Capital e de outras cidades.
Para o diretor de Abastecimento e Mercado da Ceasa/MS, Fernando Begena, o momento é de consolidação e perspectiva positiva.“Para 2026, a nossa expectativa é de um novo crescimento na comercialização, acompanhando o fortalecimento da produção regional e o aumento da demanda por alimentos frescos e de qualidade. A CEASA/MS continua de portas abertas para receber todos os consumidores, tanto no atacado quanto no varejo, reafirmando seu papel como um espaço democrático, acessível e essencial para o abastecimento”, afirma.
O que mais vende na Ceasa/MS - O ranking geral de produtos mais comercializados entre janeiro e setembro de 2025 ajuda a entender a importância do entreposto para a mesa do consumidor. A banana lidera com 27 mil toneladas. Logo atrás aparecem:
tomate: 19,9 mil toneladas
batata: 17,3 mil toneladas
cebola: 10,9 mil toneladas
laranja: 10,3 mil toneladas
São itens básicos, presentes diariamente em feiras, mercearias e supermercados. Qualquer variação de preço na Ceasa/MS tende a ser sentida rapidamente pelo consumidor, e isso explica a preocupação de comerciantes com períodos de excesso de oferta e valores muito baixos.
Ao lado desses produtos, a mandioca, a laranja regional e os ovos reforçam o papel da produção local no abastecimento e mostram que o Estado não é apenas comprador, mas também fornecedor relevante.
O balanço da Ceasa/MS mostra crescimento de volume, mas nem todos os boxes conseguem transformar esse movimento em lucro. Uma comerciante que preferiu não se identificar explica que viveu um cenário de vendas fracas e preços muito baixos, mesmo com bastante mercadoria disponível.
“O ano passado as vendas foram bem baixas, né? Não só por questões climáticas, mas porque os produtos estavam com o preço lá embaixo. Estava muito baixo”, relata.
Segundo ela, a combinação de grande produção com valores baixos derrubou a rentabilidade e dificultou trazer cargas de outros locais.“Então a gente teve uma grande perda em termos de mercadoria, e até em valores, para a gente trazer cargas de fora para cá. Mas não era compensativo, porque o produto estava muito baixo. O valor do frete não compensava. A mercadoria estava muito baixa”, explica.
O cenário chegou ao ponto de alguns produtores desistirem de colher.“Quando a mercadoria está muito baixa, quando você vê aqueles produtores que vão lá e colocam trator, passam por cima, porque não está compensando pagar para ser colhido. Então eles preferem destruir do que trazer para vender”, conta.
No box dela, o forte é o tomate, ao lado de batata e cebola.“Aqui nós temos batata, tomate, cebola. O nosso forte mesmo é tomate. Nosso forte, nós trabalhamos com tomate. Tomate é o principal”, afirma.
Ela relata que o tomate começou a reagir, com procura maior. “Agora a gente está confiante. Teve uma alta e realmente a procura aumentou. A gente consegue já vender um caminhão no dia”, diz.
Já a batata segue pressionada pelo excesso de oferta.“Agora a batata está bem baixa, a batata está com preço lá embaixo. Todo mundo tem, você anda no Ceasa todo mundo tem. Então você fica assim, quanto maior a quantidade de produto você tem, menos saída. E nem procura também. Porque é muito fácil achar, né?”, avalia.
Por outro lado, algumas frutas têm ajudado a equilibrar a conta.“Um produto que está vendendo-se muito é tangerina e abacaxi. É um produto que não sei se está em falta, qual é a razão, mas está vendendo bastante. Melancia também vende-se bem. Então as frutas estão saindo melhor que o legumes, verduras e legumes”, completa.
Mudança no perfil de compra e preferência por produtos embalados - Em outros boxes, a leitura é diferente. João Victor Matos, da empresa Ao Natural, relata que a principal mudança foi no perfil de quem compra, não no volume total. Segundo ele, diminuiu a presença de consumidores finais na Ceasa, mas cresceu a venda para mercados.
“As pessoas acham que aqui só pode comprar no atacado”, comenta. “Agora deu uma caída de pessoal que vem aqui, mas a gente sempre vende. Só que em comparação pra mercado a gente aumentou também”, explica.
O início do ano, que costuma ser mais fraco, surpreendeu positivamente.“A nossa venda não caiu tanto no começo de ano. Porque geralmente fala que dá uma caída, né? Janeiro, mas a gente manteve, né? Manteve bem. Igual eu falo, venda pra mercado continuou boa. Até surpreendeu um pouquinho”, afirma.
João destaca também a preferência cada vez maior dos mercados por produtos embalados, que reduzem perdas nas gôndolas. “Os mercados, eles pedem mais na bandeja do que eles estão comprando de caixa, porque eles não têm tanta perda. Então aí o pessoal começou a pegar bastante pepino agora de bandeja. Vai selecionado. Tomate cereja vende bem. Tomate cereja a maioria é embandejado”, conta.
Com a demanda firme, a Ao Natural decidiu investir. “Pelo menos a nossa expectativa aqui está sendo boa. Investiu bem, contratou mais funcionários. A gente está agora com nove funcionários. Começou o ano passado e terminou com nove. Então está indo bem. Tem uns perrengues aqui, mas faz parte”, resume.
Os dados de volume, a presença crescente de Mato Grosso do Sul na lista de fornecedores e os relatos de quem trabalha na ponta apontam para um cenário de transição. De um lado, setores pressionados por preços baixos e excesso de mercadoria; de outro, nichos que se apoiam em produtos com maior valor agregado, frutas em alta e itens embalados para reduzir desperdício.
Para o produtor sul-mato-grossense, especialmente o agricultor familiar, esse cenário representa oportunidade. Mas é preciso entender como vender dentro do entreposto.
Como vender na Ceasa/MS - A Ceasa/MS é considerada uma aliada estratégica do agricultor familiar porque concentra oferta, compradores e consumidores num mesmo lugar. Para transformar produção em renda lá dentro, o primeiro passo é procurar a Agraer no município de origem.
A Agraer faz a assistência técnica, avalia o enquadramento na agricultura familiar e orienta o credenciamento no Centro de Comercialização da Agricultura Familiar (CECAF), que funciona dentro da Ceasa/MS.
Após o cadastro, o produtor pode vender diretamente nas chamadas “pedras” do CECAF. Nessa modalidade, em vez de nota fiscal, é usado o romaneio, documento que substitui a nota e custa R$ 5 por carga. Ele registra as informações da mercadoria e facilita a entrada do pequeno produtor no mercado.
Outra alternativa é negociar com empresas já instaladas na Ceasa/MS, como atacadistas, distribuidores e comerciantes, sempre garantindo a procedência dos produtos.
A Ceasa/MS não intermedeia as vendas: funciona como um polo que reúne quem quer vender e quem precisa comprar. A negociação é direta. Por isso, quem pretende atuar no entreposto precisa chegar com planejamento, logística organizada, capacidade de negociação e atenção constante aos preços praticados.
Com a participação de Mato Grosso do Sul em alta, a força da agricultura familiar e a expectativa de crescimento em 2026, conhecer esse passo a passo pode ser o diferencial para sair da porteira da fazenda e ocupar um espaço fixo no principal entreposto de hortifrutigranjeiros de Campo Grande.