Carlos Guilherme | 24 de janeiro de 2026 - 09h00

'O Sebrae está aqui para estar junto, pensando e ajudando cada um dos negócios'

O diretor-superintendente do Sebrae/MS, fala sobre o Mutirão do MEI 2026 que oferece atendimentos gratuitos em 59 cidades para regularização, planejamento e fortalecimento dos pequenos negócios

CLÁUDIO MENDONÇA
Cláudio Mendonça: O Mutirão do MEI 2026 ajuda a ajustar enquadramento, débitos e declaração, mas o grande desafio é cuidar do negócio no dia a dia, com planejamento e organização - (Foto: Rafael Rodrigues)

O Mutirão do MEI 2026, promovido pelo Sebrae/MS em parceria com prefeituras e outras instituições, está atendendo gratuitamente microempreendedores individuais em 85 pontos distribuídos por 59 cidades do Estado, de 12 a 30 deste mês. E

Em entrevista ao jornal A Crítica, o diretor-superintendente do Sebrae/MS, Cláudio Mendonça, explica as principais pendências que levam o MEI a buscar ajuda, fala sobre o risco de mortalidade dos pequenos negócios, reforça a importância do planejamento e da separação entre as contas pessoais e empresariais, e convida quem é MEI a aproveitar o período para regularizar a situação e se preparar melhor para crescer junto com a economia de Mato Grosso do Sul.

A Crítica: Cláudio, muito obrigado por atender nossa reportagem. Para começar, como têm sido os primeiros dias do Mutirão do MEI 2026 e qual é a expectativa do Sebrae para esta edição?

Cláudio: O Mutirão do MEI começou no dia 12 e segue até o dia 30 deste mês. Já nesses primeiros dias, em cerca de oito dias de ação, atendemos quase 3 mil CNPJs diferentes, distribuídos em 85 pontos de atendimento espalhados pelo Estado.

O foco é levar informação, tirar dúvidas e, principalmente, ajudar cada microempreendedor individual a regularizar o seu negócio. Queremos criar oportunidades reais para esse empreendedor que está na batalha no dia a dia, principalmente no setor de serviços, que é onde se concentra a maior parte dos MEIs.

Nesses atendimentos, orientamos sobre a permanência ou não no Simples Nacional como MEI, verificamos se há débitos de DAS, ajudamos a entender a declaração anual, o valor mensal que precisa ser pago e tudo o que envolve a regularização.

Além disso, muitos empreendedores procuram o Sebrae para conversar sobre expansão do negócio, trocar ideias, fazer planejamento. Tudo isso também está sendo feito nesses 85 pontos de atendimento, com o apoio fundamental das prefeituras, das Salas do Empreendedor e de parceiros como supermercados. Só em Campo Grande temos 10 pontos funcionando em vários bairros.

A mensagem principal é: o microempreendedor individual precisa procurar o Sebrae e conferir se sua situação realmente está regular, para evitar problemas lá na frente.

A Crítica: Em relação às pendências, quais têm sido os problemas mais comuns que os microempreendedores apresentam ao procurar o Mutirão do MEI?

Cláudio: As principais demandas estão ligadas à regularização do enquadramento e à situação fiscal.

Uma dúvida muito frequente é sobre o limite de faturamento: se o MEI, no ano passado, ultrapassou os R$ 81 mil, ele precisa avaliar se pode continuar como MEI ou se terá de migrar para outro regime. Esse é um ponto de atenção grande.

Outro problema comum é a regularização de débitos. Muitas vezes o empreendedor passa dois, três meses sem pagar o DAS, que é o Documento de Arrecadação do Simples Nacional. Como o salário mínimo aumenta, o valor mensal do DAS também muda, fica na casa dos 80 e poucos reais, dependendo da atividade. Se ele não paga, fica inadimplente.

Então, muita gente vai ao mutirão justamente para regularizar essas pendências: colocar os pagamentos em dia, entender se fica ou não como MEI no Simples, preparar a declaração anual de faturamento e organizar as informações do ano anterior.

Também orientamos sobre a possibilidade de ter um funcionário registrado como MEI – ele pode ter um colaborador – e até sobre a ideia de incentivar alguém da equipe a abrir outro MEI, ampliando a atuação de forma organizada, sempre dentro da lei.

A Crítica: Esse mutirão é voltado apenas para MEIs que estão inadimplentes ou também atende quem quer abrir um MEI ou receber outro tipo de orientação?

Cláudio: O atendimento é geral. Nos pontos montados com as prefeituras e nas Salas do Empreendedor, atendemos quem já é MEI, quem tem dúvidas sobre regularização, quem está inadimplente e também quem quer abrir o MEI.

Neste momento, o script do mutirão está bem direcionado para o MEI e para a regularização, mas se aparece um caso que exige um atendimento mais específico, nós começamos ali e depois encaminhamos para outros consultores e outros tipos de atendimento que o Sebrae oferece.

É importante frisar que o Sebrae não está parado em relação aos outros segmentos. Muito pelo contrário: já estamos a pleno vapor, preparando o lançamento, no dia 2 de fevereiro, de todas as ações do Sebrae para o ano. Em 2025, atendemos quase 130 mil CNPJs diferentes em Mato Grosso do Sul. A meta é, pelo menos, repetir esse número, apoiando os empresários do Estado para que aproveitem o bom momento de crescimento econômico, com a chegada de grandes empresas.

A pergunta que fazemos é: como o pequeno empreendedor, lá do bairro ou de um município menor, pode participar desse desenvolvimento? É isso que pensamos diariamente no Sebrae. Mas, hoje, o foco da nossa conversa é o MEI e as oportunidades do mutirão.

A Crítica: Quantos microempreendedores individuais existem hoje em Mato Grosso do Sul e qual é o peso desse público para a economia do Estado?

Cláudio: Hoje temos mais de 160 mil MEIs em Mato Grosso do Sul. Se fosse uma cidade formada só por MEIs, seria a terceira maior cidade do Estado.

Isso mostra a importância e o tamanho dessa população empreendedora, que movimenta a economia diariamente.

E quem é o MEI? É o encanador, o jardineiro, a manicure, o mototaxista… São mais de 400 atividades diferentes que podem se enquadrar como MEI. Essa base de pequenos negócios presta serviços fundamentais para a população e representa uma parcela muito relevante da economia estadual.

A Crítica: Um levantamento do Sebrae Nacional mostrou que quase 5 milhões de novos pequenos negócios foram abertos no Brasil em 2025. Em Mato Grosso do Sul, como o Sebrae orienta quem quer abrir um MEI e contribuir para aumentar esses números de forma sustentável?

Cláudio: Em 2025, só em Mato Grosso do Sul foram abertos 51 mil novos MEIs. Quando falamos em 51 mil novos MEIs, estamos falando em 51 mil famílias. Muitas vezes a família inteira está envolvida no negócio, dá suporte, ajuda no dia a dia.

A principal orientação é: planeje. Não dá para abrir um negócio sem fazer conta.

O empreendedor precisa saber quanto custa prestar o serviço. Não é porque o vizinho corta a grama por R$ 100,00 que ele vai cobrar R$ 99,00 ou R$ 98,00 só para conseguir o cliente. Ele tem que entender seus custos – combustível, equipamento, tempo de trabalho, manutenção, deslocamento, tudo.

Muitas vezes, o que falta é dar valor ao serviço prestado. Não é apenas o produto final, é o tempo, a experiência e a qualidade do trabalho.

Outra orientação é pensar em como diferenciar o atendimento e fidelizar o cliente.

Vou dar um exemplo simples: imagine um jardineiro que cuida, todo mês, do jardim de uma casa grande. Um dia ele descobre que o aniversário da dona da casa é naquela semana. Ele pode levar uma flor diferente, fazer um pequeno arranjo, plantar algo especial naquele dia. Esse gesto cria vínculo, gera encantamento e fideliza o cliente.

É isso que o Sebrae orienta: planejar, conhecer custos, oferecer um atendimento diferenciado e criar uma relação de longo prazo com quem contrata o serviço.

A Crítica: Mesmo com planejamento, muitos MEIs acabam enfrentando dificuldades e alguns fecham as portas. Antes de chegar a esse ponto, como o Sebrae pode ajudar quem está em situação complicada, mas ainda quer continuar no negócio?

Cláudio: O primeiro passo continua sendo planejamento, mas aliado a disciplina e organização financeira.

Muita gente mistura as contas da pessoa física com as da pessoa jurídica. Usa o mesmo carro ou a mesma moto para tudo: levar os filhos à escola, fazer compras da casa, trabalhar como jardineiro, piscineiro ou prestador de serviços.

Aí, no fim de semana, sofre um acidente com o veículo. Na segunda-feira, não tem como ir atender os clientes. Isso impacta diretamenteno faturamento e na imagem do negócio.

Por isso, é importante desenhar o modelo do negócio: separar as contas pessoais das contas da empresa, prever manutenção dos equipamentos, pensar em reservas para emergências.

Outro ponto é entender que, às vezes, fechar um CNPJ e abrir outro não é sinal de fracasso, mas de reorganização. Muitos empreendedores encerram uma atividade que não está funcionando mais, regularizam tudo certinho, e começam outra, em um segmento que faz mais sentido para o momento.

O empreendedor – aquele vendedor autônomo que a gente conhecia no passado – é alguém que tem vontade de crescer e melhorar. O papel do Sebrae é orientar esse processo. Não precisamos inventar a roda: precisamos olhar o que outros estão fazendo de certo, adaptar e trazer essas oportunidades para a realidade de cada negócio.

A Crítica: Nesse processo de orientação, você mencionou a importância de separar as contas pessoais das contas da empresa e de ter metas claras. Como o Sebrae trabalha isso com o MEI?

Cláudio: A gente reforça muito essa ideia de organização. O MEI precisa saber qual é a meta de retirada mensal que ele quer ter do negócio e se isso é compatível com a realidade.

Ele precisa responder perguntas como: “Quantos clientes eu preciso atender para tirar esse valor por mês?”, “Tenho estrutura para isso?”, “Quanto posso investir?”, “Onde quero chegar em um ano?”.

E aí entra a frase que resume bem a nossa postura: o Sebrae está aqui para pegar na mão, para estar junto, pensando e ajudando cada um dos negócios.

Nós queremos caminhar lado a lado com o microempreendedor, ajudando a estruturar o planejamento, a precificação, a forma de atendimento e a construção de um diferencial que encante o cliente.

A Crítica: Quais são as principais recomendações e como participar do mutirão?

Cláudio: A primeira orientação é simples: procure o Sebrae.

Pode ligar no 0800 570 0800 ou acessar o portal do Sebrae e selecionar a opção de Mato Grosso do Sul para ver todos os pontos de atendimento do Mutirão do MEI.

Neste momento, até o final do mês, o MEI precisa decidir se vai continuar como MEI no Simples Nacional, se ultrapassou o limite de faturamento e, nesse caso, como vai fazer essa transição. Também é hora de olhar com atenção para a regularização de débitos: verificar se todos os DAS do ano passado foram pagos, se ficou algum mês em aberto, se há necessidade de acerto.

No Sebrae, ajudamos a tirar certidões, conferir débitos, organizar declarações e orientar sobre os próximos passos. A ideia é que o MEI se mantenha em dia para não ter problema futuramente.

A Crítica: Quais são as principais vantagens de estar regularizado como MEI?

Cláudio: As vantagens são muito significativas, principalmente do ponto de vista da proteção social.

Uma manicure, por exemplo, que é MEI e está com os pagamentos em dia, tem direito à cobertura da seguridade social. Se engravidar, tem direito a benefícios, assim como terá direito à aposentadoria no futuro, desde que cumpra as regras de contribuição.

Além disso, o MEI formalizado pode emitir nota fiscal, participar de licitações, prestar serviços para grandes empresas que estão vindo para Mato Grosso do Sul e ser fornecedor de órgãos públicos ou privados.

Quando uma grande empresa se instala no Estado, queremos que ela contrate fornecedores locais, e isso inclui o MEI. Para isso, é fundamental que o microempreendedor esteja regularizado, preparado e qualificado – e é exatamente aí que entra o trabalho do Sebrae.