Ubiratan Brasil | 24 de janeiro de 2026 - 07h40

Du Moscovis estreia monólogo em São Paulo e provoca reflexão sobre a banalização da violência

O Motociclista no Globo da Morte chega ao Teatro Vivo após temporada no Rio e aposta em encenação minimalista

TEATRO NACIONAL
Du Moscovis no monólogo 'O Motociclista no Globo da Morte' no Teatro Vivo em São Paulo - (Foto: Catarina Ribeiro)

Du Moscovis retorna aos palcos paulistanos com o monólogo O Motociclista no Globo da Morte, que estreia nesta sexta-feira (23) no Teatro Vivo, em São Paulo, após temporada no Rio de Janeiro. Escrita por Leonardo Netto e dirigida por Rodrigo Portella, a peça propõe uma reflexão direta sobre a origem da violência cotidiana e os limites éticos do indivíduo diante de situações extremas.

Sem os sinais tradicionais de início de espetáculo, Moscovis entra discretamente em cena, senta-se diante do público e começa a narrativa. Ele interpreta Antonio, um matemático pacato que se vê envolvido em um episódio de violência enquanto almoçava em um bar. A história é contada a partir da versão do próprio personagem, que tenta compreender como um homem racional foi levado a uma explosão inesperada.

Segundo Moscovis, o protagonista não é apresentado como alguém naturalmente agressivo. “Antonio é um cara ético, que assume o erro logo no início e deixa claro seu incômodo com a violência. Mas existe um acúmulo de tensão até que um acontecimento específico funciona como gatilho”, explica o ator. Apesar de não ter afinidade com monólogos — este é apenas o segundo de sua carreira —, Moscovis afirma que aceitou o projeto pelo impacto do texto. “Era um instrumento para discutir algo que me inquieta hoje.”

A dramaturgia nasceu após Leonardo Netto assistir, de forma casual, a um vídeo real de extrema violência nas redes sociais. Para o autor, a repetição desse tipo de conteúdo contribui para a insensibilidade coletiva. “A espetacularização e a banalização da violência, intensificadas pela internet, nos tornam mais tolerantes ao absurdo”, afirma. Netto escreveu o texto já imaginando Moscovis como intérprete, parceria que se confirmou após uma única leitura.

A encenação aposta no essencial. Não há cenários elaborados nem recursos visuais que desviem a atenção da narrativa. Para o diretor Rodrigo Portella, a proposta é fazer com que o espetáculo aconteça na imaginação do público. “Qualquer elemento concreto poderia distrair o espectador do mergulho interno que a história exige”, diz. A relação direta entre ator e plateia sustenta a tensão durante toda a apresentação.

Ao longo da temporada no Rio, Moscovis percebeu o impacto da peça nas reações do público. Após as sessões, muitos espectadores relataram que acreditam que teriam a mesma atitude do personagem diante de situação semelhante. Para o ator, isso reforça a atualidade do tema. “A gente gosta de acreditar que nunca faria algo assim, mas não existe garantia quando somos levados ao limite.”

O título da peça funciona como metáfora central da dramaturgia. O globo da morte, atração circense em que motociclistas desafiam o risco dentro de uma esfera metálica, simboliza o instante em que a normalidade é rompida pela tragédia. “Vivemos tentando desviar da catástrofe o tempo inteiro”, resume Netto.

Além de protagonizar, Moscovis também assina a produção do espetáculo. A pedido do público, o texto será publicado pela Editora Mesinha e, inicialmente, vendido apenas no Teatro Vivo. Paralelamente ao teatro, o ator concilia a agenda com a novela Três Graças, da TV Globo, além de trabalhos recentes no cinema e no streaming.

Serviço

O Motociclista no Globo da Morte
Local:
Teatro Vivo – Av. Doutor Chucri Zaidan, 2460 – Morumbi, São Paulo
Temporada: de 23 de janeiro a 29 de março de 2026
Horários: sexta e sábado, às 20h; domingo, às 18h
Classificação indicativa: 14 anos
Duração: 60 minutos
Ingressos: R$ 150 (inteira) e R$ 75 (meia)