Agência Brasil | 23 de janeiro de 2026 - 21h15

Lula critica Trump, fala em crise do multilateralismo e diz que ONU está sendo esvaziada

Em encontro do MST, presidente afirma que política global vive a lógica da força e rejeita nova ordem liderada pelos EUA

POLÍTICA
Lula discursa em encontro do MST e critica a política externa dos Estados Unidos e o enfraquecimento da ONU. - (Foto: Ricardo Stuckert)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira (23) que a política internacional atravessa um momento crítico, marcado pelo enfraquecimento do multilateralismo e pela imposição do unilateralismo nas relações entre os países. A declaração foi feita durante o encerramento do 14º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), realizado em Salvador.

Segundo Lula, princípios fundamentais da Organização das Nações Unidas (ONU) vêm sendo desrespeitados e substituídos pela lógica da força. Para o presidente, a proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de criar um Conselho de Paz representa uma tentativa de concentrar poder e esvaziar os mecanismos multilaterais existentes.

“Está prevalecendo a lei do mais forte. A carta da ONU está sendo rasgada. Em vez de corrigir a ONU, como defendemos desde 2003, com uma reforma que inclua novos países no Conselho de Segurança, o presidente Trump faz uma proposta para criar uma nova ONU, em que ele sozinho é o dono”, declarou.

Trump convidou Lula a integrar o Conselho de Paz que os Estados Unidos pretendem criar para supervisionar o trabalho de um Comitê Nacional para a Administração de Gaza. O presidente brasileiro, no entanto, demonstrou resistência à iniciativa e afirmou que tem buscado diálogo com outras lideranças globais para discutir alternativas.

Lula disse que vem conversando com chefes de Estado como o presidente da China, Xi Jinping; o presidente da Rússia, Vladimir Putin; o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi; e a presidenta do México, Claudia Sheinbaum. O objetivo, segundo ele, é construir uma articulação internacional em defesa do multilateralismo.

“Estou conversando para que a gente encontre uma forma de se reunir e não permitir que o multilateralismo seja jogado no chão e que predomine a força da arma e da intolerância”, afirmou.

Críticas à atuação dos EUA na Venezuela

Durante o discurso, Lula voltou a criticar duramente a atuação dos Estados Unidos na Venezuela. Ele classificou como grave a violação da soberania do país vizinho após a ação que resultou na retirada do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama e deputada Cilia Flores.

“Eu fico indignado com o que aconteceu na Venezuela. Como é possível desrespeitar a integridade territorial de um país dessa forma? Isso não existe na América do Sul, que é um território de paz”, disse.

Lula ressaltou que o Brasil não pretende se alinhar automaticamente a nenhuma potência internacional. Citando Estados Unidos, China, Rússia e Cuba, afirmou que o país busca relações equilibradas, sem submissão.

“O Brasil não tem preferência. Mas não vamos aceitar voltar a ser colônia para alguém mandar na gente”, declarou.

O presidente também criticou a postura de Trump em relação ao uso do poder militar. Segundo Lula, a política externa brasileira deve se basear no diálogo e na persuasão, não na intimidação.

“Não quero fazer guerra armada com ninguém. Quero fazer guerra com o poder do convencimento, com argumentos, com narrativas, mostrando que a democracia é imbatível”, afirmou. “Não queremos mais Guerra Fria, não queremos mais Gaza”, completou.

Encontro do MST

O evento marcou os 42 anos do MST, celebrados no dia 22 de janeiro, e reuniu mais de 3 mil trabalhadores e trabalhadoras rurais de todas as regiões do país. O encontro começou na segunda-feira (19) e debateu temas como reforma agrária, agroecologia, agricultura familiar, soberania alimentar e conjuntura política.

Ao final do ato, o MST entregou uma carta ao presidente. No documento, o movimento critica o avanço do imperialismo, a invasão da Venezuela e o que classifica como ataques à soberania dos povos. O texto também aponta o interesse econômico por recursos naturais como petróleo, minérios, terras raras, água e florestas.