Maria Edite Vendas e Jamille Gomes | 23 de janeiro de 2026 - 10h00

Custo de vida impulsiona vendas de motocicletas em concessionárias de MS

Com valores de aquisição e manutenção mais baixos e o crescimento para uso profissional, as motocicletas assumiram a liderança do mercado automotivo brasileiro em 2025

MERCADO AUTOMOTIVO
Buscando mais agilidade, economia e flexibilidade, os brasileiros recorrem cada vez mais aos veículos em duas rodas. - (Foto: Jamille Gomes)

Comprar o próprio veículo é o sonho de muitos, senão de todos, os brasileiros. Maior liberdade e economia são fatores decisivos na escolha do meio de transporte e têm sido determinantes para uma nova tendência no mercado automotivo. Em 2025, pela primeira vez, o número de vendas de motocicletas superou o de carros em aproximadamente 200 mil unidades.  

Segundo dados divulgados pela Federação Nacional de Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) mais de 2,2 milhões de motocicletas foram vendidas no país, um aumento de 17% em relação ao ano anterior e o melhor desempenho desde 2003. Em Campo Grande, mais de 12 mil motos foram emplacadas no último ano, representando mais de 40% de todos os novos veículos registrados na capital.

Para o supervisor comercial da Honda Cometa Motocenter de Campo Grande, Douglas Leandro, o crescimento nas vendas pode ser explicado pela economia e pela versatilidade das motocicletas. ‘’A procura pelas motos aumentou muito nos últimos anos, acredito que pela questão da economia e da praticidade, além do valor de parcela,  porque manter um carro não está barato. Um carro popular esta  partir de 89 mil, sem contar a economia que a moto proporciona”, explica.

Douglas detalha ainda os benefícios no consumo. ‘’Uma FAN 160, que é a moto mais procurada atualmente, tem um tanque de 16 litros e faz, em média, 40 km por litro. Isso gera economia no combustível e parcelas mais suaves, que o cliente consegue pagar e, ao mesmo tempo, manter o veículo.’’

Douglas explicou que as motos com maior procura são as de cilindradas mais baixas, como a popular Bis e as Titans, consideradas motos do dia a dia. (Foto: Jamille Gomes) 

Além da economia, as motos também ganham espaço com o crescimento dos serviços de entrega por aplicativo. O que antes era apenas um meio de locomoção passou a se tornar também um instrumento de trabalho. Entre 2022 e 2024, o número de entregadores aumentou 18%, segundo pesquisa realizada pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Crebap) e a tendência é que aumente cada vez mais. 

‘’Hoje atendemos um público mais jovem, entre 20 e 25 anos que está comprando o primeiro veículo. Hoje em dia, muitos utilizam a moto como ferramenta de trabalho, seja com serviços de entregas ou transporte por aplicativo. Tudo isso coloca a pessoa no mercado de trabalho’”, ressalta.

Opções melhores ao bolso e ao meio ambiente - Outro mercado que acompanha esse crescimento é o de veículos elétricos. Especialistas na área afirmam que a tendência para 2026 é que o boom dos elétricos se torne cada vez mais uma realidade. 

Para o gerente comercial da Eletric Move Watts,maior concessionária de veículos elétricos de Mato Grosso do Sul, Leonardo Eufrasio, o aumento do custo de vida levou os brasileiros a buscarem alternativas mais econômicas.

“Um dos fatores mais importantes para o crescimento desse mercado é justamente o aumento do custo de vida. As coisas ficaram mais caras, e o brasileiro passou a buscar estratégias para reduzir os gastos do dia a dia.” 

Segundo ele, a economia é ainda maior com as motocicletas elétricas. “O deslocamento que antes era feito de carro hoje muitas pessoas preferem fazer de moto, e a economia é ainda maior quando se trata de um modelo elétrico.”

Leonardo destaca também o potencial do Brasil no uso de energias renováveis. “É uma solução que faz muito sentido em um país com abundância de fontes limpas, como a energia solar, eólica e hidrelétrica. A logística para gerar energia é muito mais simples do que a de extração e refinamento do petróleo. Se olharmos para polos tecnológicos não tradicionais, vemos uma clara tendência de médio prazo.”

Para quem não conseguiu ou ainda não atingiu a idade permitida para a aquisição da carteira de motorista, as motos elétricas com velocidade menor que 32 km\h são uma alternativa mais econômica e prática. (Foto: Arquivo)

As motocicletas elétricas voltaram ao centro dos debates em 2026, após uma resolução do Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN) que endureceu as normas de fiscalização e emplacamento de ciclomotores elétricos. No entanto, Leonardo explica que há desinformação sobre o tema. ‘’Na verdade apesar da gente pontuar essa regulação como nova ela existe desde 2023, o que vai passar a acontecer agora é uma fiscalização dessa regulação’’.

Ele avalia a medida de forma positiva, especialmente para combater produtos irregulares. “No estado sofremos com a entrada de veículos vindos de países vizinhos, como Paraguai e Bolívia, que não seguem a regulamentação brasileira. São produtos sem padrão de qualidade e sem limitação de velocidade, o que representa riscos à segurança.”

CNH mais acessível aumenta possibilidades de financiamento - Com as mudanças nas normas da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e a redução dos custos, aumentou o número de pessoas que pretendem iniciar o processo de habilitação. Para acompanhar essa tendência, bancos também passaram a oferecer novas modalidades de financiamento, com taxas mais acessíveis aos clientes. 

Para o empresário e proprietário da concessionária Prime Motos, Bruno Anderson, a burocracia dos financiamentos e das agências bancárias em alguns casos é um empecilho para quem deseja adquirir o primeiro veículo. ‘’O público mais novo, com menos de 25 anos, normalmente têm uma maior dificuldade em conseguir a aprovação dos bancos por causa da pontuação do score, como eles são novos no mercado o número é sempre baixo’’.

Segundo Bruno, a maior facilidade para obter a CNH pode acelerar o processo de compra. ‘’Trabalhamos com seis bancos parceiros, e apenas dois não exigem a CNH. Com as mudanças na lei, o número de pessoas habilitadas tende a aumentar, assim como as chances de aprovação de financiamento.”

Na última semana, o Departamento Estadual de Trânsito de Mato Grosso do Sul (Detran-MS) estabeleceu oficialmente o valor de R$180 como teto máximo a ser pago nos exames necessários para conquista da carteira de motorista, como a avaliação psicológica que passou a custar R$ 105,00, e os de aptidão física e mental, fixados em R$ 75,00. 

Além disso, o órgão definiu novas regras para a prova prática, entre elas destaca-se uma maior tolerância de pontos passíveis de perda, agora totalizado em dez, e a dispensa da baliza. 

As mudanças, no entanto, também têm gerado preocupação. Após a resolução publicada no final de 2025, que reduziu para duas horas o mínimo de aulas práticas, especialistas alertam para possíveis impactos na segurança do trânsito.

Bruno ressaltou a importância da educação viária adequada para motoristas, e frisou como a desatenção, normalmente causada pelo celular, tem sido a maior responsável por acidentes de trânsito na capital. (Foto: Jamille Gomes) 

‘’Acredito que vai ter um aumento considerável no número de acidentes na Capital, ainda mais agora com a questão da nova CNH com poucas aulas. Além disso, existe também a questão da infraestrutura confusa da cidade, com pontos de ônibus mal posicionados e mudanças frequentes em faixas de avenidas como a Rui Barbosa”, comenta Bruno.

Para quem ainda tem dúvidas sobre as mudanças no novo modelo da Carteira Nacional de Habilitação, agora chamada de CNH do Brasil, e nas regras de emplacamento de veículos elétricos, as informações completas estão disponíveis nos canais oficiais do governo.