Carlos Guilherme | 22 de janeiro de 2026 - 11h00

PSDB em Campo Grande aposta na militância para se reposicionar em meio à polarização

Nova direção municipal comandada por Jonas de Paula e Almir Cantero quer resgatar a base histórica tucana e reconectar o partido com a sociedade

NOVO MOMENTO
Em entrevista ao Giro Estadual de Notícias, Jonas de Paula e Almir Cantero falaram em reorganização, combate à polarização e retomada da identidade social-democrata. - (Fotos: Jamille Gomes)

O novo presidente do diretório municipal do PSDB em Campo Grande, o locutor e suplente de vereador Jonas de Paula, assumiu oficialmente a direção tucana na Capital neste mês. Em entrevista ao Giro Estadual de Notícias desta quinta-feira (22), ao lado do vice-presidente, o histórico militante e fundador do partido em Mato Grosso do Sul, Almir Cantero, ele definiu o momento como “uma reacomodação” e avisou que o foco será recolocar a militância no centro do projeto político.

“O momento político do PSDB é um momento de reacomodação, de aglutinação. Vamos trabalhar muito a militância e os filiados, resgatando a importância que cada um deles teve nas conquistas do PSDB”, afirmou Jonas de Paula, destacando que a prioridade é “reavivar” a base para os próximos pleitos.

A mudança ocorre após um ciclo de transformações no cenário estadual, com a ida do ex-governador Reinaldo Azambuja para o PL e do governador Eduardo Riedel para o PP, em meio à formação de um amplo arco de alianças em torno de um projeto de centro. Mesmo com a migração de lideranças, Jonas insiste em uma imagem forte para explicar o peso tucano na política local. “O PSDB continua sendo o pai de todos, porque a maioria dos quadros que reforçaram outros partidos saiu do PSDB”, resumiu.

“O povo quer escapar da disputa entre bolsonarismo e lulopetismo”, afirma Jonas - (Foto: Jamille Gomes)

Militância no centro da estratégia - Se há uma palavra repetida pela nova direção é “militância”. Jonas e Almir defendem que o partido precisa reconstruir seu vínculo de base, com filiados, movimentos internos e participação orgânica, especialmente em Campo Grande.

“Não adianta ter torcida e não jogar, e não adianta jogar sem torcida”, disse Jonas. “Um partido que não cresce, que não cria militância, que não disputa campeonatos, está fadado a desaparecer", diz.

Almir, que ajudou a fundar o PSDB em 1988, relembrou a força militante do passado e a responsabilidade de resgatar esse espírito: “Nós fizemos em 1993 a maior convenção municipal da história do Estado, talvez do Centro-Oeste, com 1.500 convencionais votando. Esse sentimento precisa ser resgatado. O PSDB tem uma história que não se acaba, é uma história que se renova”, destacou.

Segundo ele, a reorganização passa por atrair novos quadros, juventude, mulheres, diversidade e movimentos sociais, mantendo viva a identidade social-democrata. “O PSDB terá uma reoxigenação da militância, com novos quadros, novas lideranças, atraindo juventude, diversidade e mulheres para militar conosco”, projetou o vice-presidente.

Fundado em 1988, o PSDB nasceu como expressão da social-democracia no Brasil, a partir de uma dissidência do PMDB liderada por nomes como Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas e André Franco Montoro. O partido governou o país de 1995 a 2002, com FHC, período marcado pelo Plano Real, estabilização econômica e criação de programas sociais que mais tarde seriam unificados no Bolsa Família.

Nos anos 2000 e 2010, o PSDB foi o principal polo de oposição ao PT em nível nacional, estruturando uma polarização que dominou a política brasileira por cerca de duas décadas. A partir de 2016, porém, o partido entrou em declínio, perdeu espaço simbólico para o bolsonarismo e registrou em 2022 o pior desempenho de sua história em eleições gerais, inclusive perdendo o governo de São Paulo após 27 anos.

“Quando o PSDB foi fundado, em 1988, a população clamava por uma nova experiência. Hoje, a população quer escapar da polarização entre bolsonarismo e lulopetismo. O PSDB ressurge como grande esperança”, avaliou Almir.

Almir, que ajudou a fundar o PSDB em 1988, relembrou a força militante do passado e a responsabilidade de resgatar esse espírito - (Foto: Jamille Gomes)

A força tucana em Mato Grosso do Sul - Enquanto encolheu nacionalmente, o PSDB se consolidou como potência regional em Mato Grosso do Sul. Reinaldo Azambuja foi eleito governador em 2014 e reeleito em 2018, encerrando o segundo mandato com alta aprovação. Em 2022, o partido elegeu Eduardo Riedel governador com 56,90% dos votos válidos no segundo turno.

Além do Executivo, os tucanos conquistaram a maior bancada na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS), com seis deputados estaduais na atual legislatura, o que reforçou o peso do partido no tabuleiro local. Jonas cita esse histórico para defender que o “legado tucano” se traduz em políticas públicas concretas, especialmente o municipalismo:

“O programa de municipalismo não é falácia. Os municípios recebem do governo do Estado muito além do repasse obrigatório. Há uma construção conjunta para definir prioridades e levar obras para a ponta”, afirmou, citando investimentos em infraestrutura, universalização de água e esgoto por meio da Sanesul e o impacto de grandes projetos como a Rota da Celulose e a Rota Bioceânica.

Um ponto sensível da entrevista foi a relação do diretório municipal com a bancada tucana na Câmara de Campo Grande. Questionado sobre queixas de vereadores em relação ao antigo comando, Jonas buscou baixar a temperatura e afirmou que a nova gestão quer diálogo permanente.

“Os vereadores de Campo Grande que quiseram participar e estavam ligados ao diretório foram contemplados na instância estadual. Na Capital, optamos por uma comissão provisória com filiados históricos, como o Almir, para resgatar a base. Agora é hora de sentar cara a cara com cada vereador e mostrar que estamos em um momento de remodelação, não de fim de partido”, explicou.

Almir reforçou a visão de que o mandato parlamentar não pode ficar dissociado da sigla. “O vereador é extensão do partido. E o partido tem que participar do mandato e das decisões, porque qualquer posição tomada impacta o vereador e o PSDB. Nossa intenção é participar, dando opinião e ajudando nossos vereadores a exercerem bons mandatos”, disse.

Ele também enfatizou que os tucanos não têm intenção de abandonar a gestão municipal. “Não estamos abandonando a prefeitura de Campo Grande. Estamos tentando ajudar a tirar a cidade de um buraco que vem de anos, de gestões diferentes. O PSDB tem responsabilidade com a população campograndense.”

Novo comando do PSDB em Campo Grande aposta na retomada da militância e na agenda social-democrata para se reposicionar diante da polarização - (Foto: Arte A Crítica)

Terceira via e resgate da social-democracia - Diante da polarização nacional, Jonas e Almir enxergam espaço para um projeto de centro com identidade social-democrata. Almir critica a lógica de liderança “messiânica” e a política de redes baseada em pautas superficiais:

“Hoje há pré-candidatos ‘tiktok’ que vivem nas redes sociais, mas não apresentam projetos. Falam de pessoas, não de propostas. O que o povo quer são políticas para melhorar a vida", explica. Ele lembra que a social-democracia, base do PSDB, sempre buscou equilibrar economia de mercado com proteção social e parcerias público-privadas:

“Essa parceria público-privada nasce da social-democracia. Foi um projeto dos governos tucanos e que foi muito bem aplicado aqui no Estado pelo ex-governador Reinaldo e continua agora com Eduardo Riedel.”

Ao comentar o cenário social, Almir citou o número de brasileiros dependentes de programas federais: “Temos cerca de 99 milhões de pessoas dependendo do governo federal. As pessoas perderam dignidade, perderam o trabalho. Não se trata só de dar comida, mas de devolver a condição de trabalhar, ganhar seu salário e escolher o que consumir", opina. Na avaliação dele, essa agenda combina com as origens do PSDB, que ajudou a estruturar programas sociais depois incorporados e ampliados por outros governos.

Nova direção municipal comandada por Jonas de Paula e Almir Cantero quer resgatar a base histórica tucana e reconectar o partido com a sociedade - (Foto: Jamille Gomes)

O novo presidente fez um apelo direto à base tucana de Campo Grande e do interior: “Digo sempre que o PSDB é o pai de todos, porque distribuímos nossa força política. E esse militante que está se sentindo escondido, chateado porque alguém não o tratou bem, que não tomou um café na sala certa, precisa voltar. Procure o diretório local. Aqui em Campo Grande vamos fazer o mesmo.”

Segundo ele, já há ações previstas para fevereiro e março, antes da abertura do calendário eleitoral, justamente para reorganizar o partido a partir da base. “Teremos pouco tempo para essa organização, mas vamos fazer junto com os filiados. A militância tucana precisa ombrear esse novo momento do PSDB”, concluiu. Confira a entrevista na íntegra: