Hugo Henud | 22 de janeiro de 2026 - 12h45

Mulher de Alexandre de Moraes atua por banco em inquérito que investiga Nelson Tanure no STF

Processo sobre suspeita de insider trading foi remetido ao Supremo por conexão com apuração da PF e tramita sob sigilo

JUSTIÇA
Inquérito que investiga Nelson Tanure por suspeita de uso de informação privilegiada tramita no STF sob relatoria de Dias Toffoli. - (Foto: Imagem Ilustrativa/A Critica)

A advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, atua como representante do Banco Master em um inquérito que investiga o empresário Nelson Tanure por supostos crimes contra o mercado de capitais. O caso passou a tramitar no STF após a Justiça Federal em São Paulo declinar da competência e remeter a investigação à Corte, onde está sob a relatoria do ministro Dias Toffoli. O processo corre sob sigilo, e o banco figura formalmente como parte interessada.

O inquérito apura se Tanure teria utilizado informações relevantes ainda não divulgadas ao mercado para obter vantagem na negociação de ações da Gafisa, prática conhecida como insider trading. Embora o Banco Master não seja alvo direto da investigação, seu nome aparece no caso devido à atuação de fundos ligados à instituição nas operações financeiras que estão sob suspeita.

Procurado, o escritório Barci de Moraes Advogados não respondeu aos questionamentos da reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.

A transferência do caso ao Supremo foi determinada em despacho assinado em 16 de janeiro pela juíza federal Maria Isabel do Prado. Na decisão, a magistrada declarou-se incompetente para seguir com o inquérito ao identificar possíveis vínculos com fatos investigados na Operação Compliance Zero, da Polícia Federal.

A operação apura fraudes financeiras atribuídas ao Banco Master e também tramita no STF, sob a relatoria de Dias Toffoli. Segundo a juíza, havia elementos suficientes indicando conexão entre as apurações, o que justificaria a remessa do processo ao Supremo para julgamento conjunto.

Com base nesse entendimento, a magistrada aplicou o instituto jurídico da conexão, mecanismo utilizado quando investigações compartilham fatos, provas ou personagens em comum. Nesses casos, a regra prevê que os processos tramitem sob a relatoria do ministro prevento, ou seja, aquele que já conduz as apurações relacionadas.

Apesar de não figurar como investigado, o Banco Master aparece como parte interessada porque a apuração analisa a atuação de fundos vinculados à instituição nas negociações suspeitas. Nesse contexto, Viviane Barci de Moraes acompanha o processo como advogada do banco no STF.

O advogado Pablo Naves Testoni, responsável pela defesa de Nelson Tanure, afirmou que o Banco Master foi citado pelo Ministério Público Federal quando a denúncia ainda tramitava na Justiça Federal de São Paulo, ainda que de forma genérica.

“Ao fazer isso, por obrigação processual, abriu-se a necessidade de resolução sobre eventual conexão probatória. Nesse sentido, foi feito o pedido em nome do empresário”, disse o advogado. Segundo ele, a análise dessa conexão precisa agora ser enfrentada por exigência legal no Supremo.

Caso o inquérito avance no STF e venha a ser levado a julgamento no plenário, Alexandre de Moraes poderá participar da análise do caso, inclusive com direito a voto. A situação chama atenção porque Viviane Barci de Moraes integra o escritório de advocacia que representa o Banco Master, parte interessada no processo.

O escritório é composto por Viviane e pelos dois filhos do ministro. A atuação do grupo passou a ser alvo de questionamentos após a revelação de um contrato de R$ 129 milhões firmado com o Banco Master, valor que ampliou o debate público sobre possíveis conflitos de interesse.

Levantamento do Estadão/Broadcast apontou que a atuação de Viviane Barci de Moraes no STF e no Superior Tribunal de Justiça (STJ) se intensificou após a posse de Alexandre de Moraes no Supremo. Antes da nomeação do ministro, a advogada havia participado de 27 processos nessas cortes. Após a posse, o número saltou para 152.

A ampliação da presença do escritório em tribunais superiores passou a ser analisada com maior atenção por especialistas e setores do meio jurídico, sobretudo em casos que envolvem instituições financeiras e processos de grande repercussão.

Nelson Tanure teve o patrimônio bloqueado por decisão do ministro Dias Toffoli no último dia 6 de janeiro. Na decisão, o magistrado apontou indícios de que o empresário seria beneficiário de um fundo supostamente utilizado em um esquema de fraudes para desvio de recursos e favorecimento de sócios ocultos do Banco Master.

O controlador da instituição, Daniel Vorcaro, também é investigado no âmbito da Operação Compliance Zero. Tanure foi alvo da segunda fase da operação, deflagrada há cerca de uma semana, e é citado pelos investigadores como possível “sócio oculto” do banco.

Em nota, a defesa de Nelson Tanure negou qualquer relação societária com o Banco Master. Segundo os advogados, o empresário nunca integrou a estrutura do banco e manteve apenas relação de cliente com a instituição.

“Jamais estabeleceu qualquer relação de natureza societária com o Banco Master, do qual foi cliente nos últimos anos, nas mesmas condições em que foi e segue sendo atendido por outras instituições financeiras conhecidas no mercado”, afirmou a defesa.